Maturidade criativa

cover image

Regina Galvão

04 abr 2022

Acima: Maturidade criativa

e-mail icone-mail icon

Conheça as histórias de três consagrados profissionais do design que participam da SP–Arte 2022

Atuantes desde a década de 1980 projetando móveis e objetos, a gaúcha Ilse Lang, a paraibana Jacqueline Terpins e o venezuelano Pedro Useche estabeleceram-se no cenário nacional, com suas criações para as fábricas brasileiras ou para as próprias marcas. Conheça as histórias desses três consagrados profissionais que participam da SP–Arte 2022.

Coleção "Forma e Ritmo" da Mac Design, por Pedro Useche

Coleção "Forma e Ritmo" da Mac Design, por Pedro Useche

Se o design brasileiro teve tempos áureos entre as décadas de 1940 e 1960 com o mobiliário moderno, não se pode dizer o mesmo dos anos seguintes. No auge da ditadura militar, muitos profissionais tiveram dificuldades financeiras e não conseguiram manter seus próprios negócios. Nesse período, ganhou destaque o design de móveis para escritório, mas ainda assim não havia preocupação com a autoria das peças.


Nos anos 1980, com a redemocratização, o Brasil se encheu de ânimo e novas perspectivas surgiram para o design nacional. Na intenção de revelar talentos e incentivar empresas que valorizassem o design assinado, o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, estreou o Prêmio Design, em 1986. A cadeira Paulistano, de Paulo Mendes da Rocha (1928-2021), ganhou prêmio nessa primeira edição do evento.


As lojas especializadas, no entanto, eram raras. Na rua Augusta, na capital paulista, a Nanni Movelaria, de Fulvio Nanni (1952-1995), foi pioneira em expor e comercializar a mobília criada por ele e por outros autores independentes.


“Fulvio Nanni estudou em Milão. Ele conseguiu captar as exigências da nova casa, que pedia mobilidade e flexibilidade. Seus móveis ganharam rodízios, cores e humor. Fulvio recorreu à linguagem pós-moderna, influenciado por grandes nomes do design italiano”, afirma a escritora e curadora Adélia Borges.


O arquiteto Pedro Useche se recorda da dificuldade de encontrar indústrias que demonstrassem interesse em fabricar suas peças. “A maioria dos designers de produto recorria à produção própria, pois o comum aqui era focar em cópias de itens estrangeiros.”


Segundo Pedro, um evento que ajudou a fortalecer a profissão foi o “Brasil faz design”, idealizado por Marili Brandão. “De 1995 a 2004, expusemos na Feira de Milão. Foi um período de muita produção e rico em experiências, acredito que este processo ajudou a popularizar o design, favorecendo o surgimento de escolas e o interesse das empresas em investir na área de criação”, afirma ele.

Pedro Useche: parceria com a Mac

Formado em Arquitetura na Venezuela, seu país de origem, Pedro Useche montou o estúdio de desenho de mobiliário, em São Paulo. No início dos anos 1990, abriu também sua própria loja de móveis, no Morumbi. “Eu projetava, produzia e vendia”, recorda-se ele. Um de seus primeiros projetos, a cadeira Mulher, chamou a atenção dos jurados do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, que concedeu a Pedro a premiação por essa peça, em 1990.


Exigente desde sempre com o conforto físico e visual para um cotidiano mais agradável, Pedro, agora, emprega a expertise acumulada durante anos na Mac, indústria de mobília de área externa, sediada em Uberaba há 42 anos.


A parceria se estabeleceu depois de ele criar uma série de itens para a casa de um amigo no condomínio Fazenda Boa Vista, no interior paulista. “Durante a pandemia, desenhei mais de 50 peças e a Mac topou fabricar todas elas. Estamos lançando os móveis por grupos. Já apresentamos sete deles em uma loja de Uberaba e agora vamos lançar mais dez na SP–Arte.”


Entre eles, o sofá FBV – abreviação de Fazenda Boa Vista – de vários tamanhos e proporções, além de uma série de poltronas, bancos e a espreguiçadeira que se ajusta conforme o peso do corpo do usuário. Nessa nova empreitada, Pedro experimenta pela primeira vez o alumínio. “O material é leve e pouco estrutural. Dar resistência ao móvel com essa matéria-prima tem sido um desafio e um aprendizado”, diz. Madeira cumaru e corda, trançada artesanalmente, complementam a coleção batizada Forma e Ritmo.

Cadeira Garça, de Ilse Lang

Cadeira Garça, de Ilse Lang

Banco Tribo, de Ilse Lang

Banco Tribo, de Ilse Lang

Ilse Lang: mobiliário autoral na +55design

Na faculdade de arquitetura, a gaúcha Ilse Lang despertou o interesse em projetar móveis. Quando se casou, aos 26 anos, desenhou a cama do casal, com encosto reclinável para a leitura. Era o ano de 1988 e Ilse inscreveu a peça, batizada Clina, no Prêmio Movesp, saindo vitoriosa da competição.


Com a chegada dos três filhos, a carreira foi deixada de lado. Em 1993, no entanto, ela retomou a criação de produtos e abriu a loja Faro Design, em 1998. “Nessa época, não havia interesse por design, copiava-se tudo. Com o surgimento das premiações, mais gente passou a projetar móveis, foi um verdadeiro boom”, diz ela.


O traço simples e atemporal e a preocupação de unir estética com funcionalidade fizeram com que Ilse conquistasse prestígio no design nacional, mesmo estando fora dos grandes centros. Suas experimentações com diversos tipos de materiais e as referências da identidade gaúcha ajudaram a consolidar seu trabalho.


Há três anos, ela recebeu a visita da empresária Tatiana Amorim e da jornalista Clarissa Schneider, proprietária e curadora da +55design, respectivamente, desejosas de ter os móveis assinados por Ilse na marca.


“Embora eu tenha sido sempre muito exclusivista com minhas peças, Clarissa e Tati me encontraram numa fase de repartir esforços. Tinha vários protótipos prontos, mas sem perspectiva de fabricá-los. A defesa da sustentabilidade por elas e a seriedade do conceito da marca me deixaram tranquila para estabelecer a parceria.”


Várias peças do Studio Faro fazem parte hoje do catálogo da +55design, mas Ilse também começa a desenvolver itens exclusivos, como sofás, mobília que ela nunca havia projetado.


Para a SP–Arte, a +55design apresenta duas peças da gaúcha: o banco Tribo, de 2000, com referência aos tradicionais banquinhos de galpão usados para tomar chimarrão à beira do fogo, e a cadeira Garça, de 2020, considerada pela designer uma de suas peças mais trabalhosas.


“Com inspiração no banco Butterfly, do japonês Sori Yanagi, a cadeira Garça tem estrutura de metal e assento de materiais flexíveis, o que lhe conferem conforto. Pode ser empilhada e a montagem é feita com apenas dois parafusos, unindo as duas partes da cadeira”, conta ela, que agora dispõe de mais tempo para os desafios da criação.

Jacqueline Terpins: do vidro ao mobiliário, da arte ao design

Depois de causar impacto com a instalação Tempo – bloco de gelo circular de uma tonelada que derreteu durante 48 horas na SP–Arte de 2019, Jacqueline Terpins retoma ao evento com nove esculturas únicas de cristal soprado, obra que ela chamou Instante.


“Minha história com o design de objeto começa com o cristal soprado. Nenhum material tem o poder de refração do vidro. Me emociono com a maneira de ele me conduzir ao seu próprio caminho”, diz a artista plástica, com formação aqui e no exterior, e ex-aluna de Ivan Serpa e Lygia Pape.


Desde o início da carreira, em 1989, seu diálogo com a matéria-prima é intenso, o que leva Jacqueline a buscar a essência de cada um deles. “Nesse novo trabalho, eu volto a falar de existência e finitude, como na instalação de 2019”, conta. “São esculturas que nos representam como indivíduos. Duas massas de vidro em contraposição: a sólida e o volume suspenso, representando o etéreo.”


A técnica empregada dessa vez é a overlay: uma massa maciça de vidro que recebe diretamente a bolha de cristal soprada e colorida. “Fiz essa experiência em um objeto de design e fiquei tão surpreendida com o resultado, que fotografei e resolvi fazer esculturas com essa bolha sendo sustentada pela massa vítrea maciça. Para mim, é o limite do equilíbrio, trazem em si o encontro entre fixo e volátil, concreto e sutil.”


Completando 21 anos de estúdio em 2022, a artista lança também em seu espaço as poltronas Encosta e um vaso da linha Solitário. “São peças poéticas”, considera a artista, mestre em fazer poesia com vidro, madeira e metal.