Marepe: sedentarismo radical

Ricardo Sardenberg
22 ago 2025
Acima: Marepe, Sem título, 2025. © Estúdio Em Obra/cortesia do artista e galeria Luisa Strina
O curador, editor, crítico de arte e galerista Ricardo Sardenberg escreve sobre a obra de Marepe (Santo Antônio de Jesus, 1970), tema de um solo no estande da galeria Luisa Strina nesta edição da feira SP-Arte Rotas. Sardenberg também estará presente na feira com a casa que leva o seu nome. Este texto foi escrito originalmente para o catálogo da exposição “Marepe - um fio que ligue os mundos” na Fundação Iberê, em Porto Alegre (RS), que acontecerá entre 23 de agosto de 2025 e 15 de março de 2026.
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Retrato do artista Marcos Reis Peixoto, o Marepe. ©️ Divulgação/cortesia da Galeria Luisa Strina
A potência da obra de Marepe se manifesta, sobretudo, na maneira como ele nos obriga a reconsiderar categorias aparentemente estabilizadas: o que é arte? O que é cultura popular? O que é periferia? O que é centro? Em que medida o objeto cotidiano pode ser forma de pensamento? Em sua prática, esses binarismos colapsam e se reconfiguram, não como síntese reconciliadora, mas como campo de tensão produtiva.
Seria um equívoco situar Marepe apenas dentro da genealogia da escultura contemporânea ou da instalação, como se sua obra pudesse ser plenamente circunscrita pelas taxonomias convencionais do sistema da arte. O que está em jogo em sua prática é uma reconfiguração das condições mesmas da arte, uma contestação silenciosa – mas não por isso menos incisiva – dos regimes de visibilidade que historicamente separaram o "popular" do "erudito", o "regional" do "universal". Como certos gestos duchampianos reterritorializados a partir do recôncavo baiano, seus objetos deslocam o familiar para o campo do estranho, do inquietante. Não se trata aqui de mero ready-made tropicalizado, mas da construção de um sistema simbólico cuja coerência interna é indissociável de sua fratura constitutiva: a tensão entre o vivido e o formal, entre o utilitário e o inútil, entre o uso e a contemplação.

Marepe, "Contatos espaciais", 2020. © Édouard Fraipont/cortesia do artista e galeria Luisa Strina

Marepe, "Interior", 2024. © Édouard Fraipont/cortesia do artista e galeria Luisa Strina
A obra de Marepe não se inscreve simplesmente no espaço da representação; ela age sobre a percepção, desestabilizando os códigos estéticos e as categorias instituídas pela modernidade eurocentrada. Escadas, bacias, carrinhos de feira – longe de funcionarem como alegorias identitárias – operam como agentes formais que reorganizam o campo do sensível. Marepe faz com os objetos cotidianos o que os construtivistas faziam com a linha e o plano: desnaturaliza-os, interrompe seu fluxo utilitário e os reintroduz no campo do significante, agora como enigma.
Se sua poética fala do Brasil profundo, é porque emerge desse solo, mas sem jamais reduzi-lo a um dado etnográfico. A força de sua obra reside justamente na recusa da ilustração e na recusa da denúncia direta: ela propõe, antes, uma micropolítica da forma, uma resistência estética que se inscreve no gesto mesmo da assemblage, do desvio, da recodificação. E ao fazer isso, Marepe nos obriga, de forma não panfletária, a repensar a própria estrutura do olhar que se dirige à arte – e, por extensão, ou melhor, por reflexo – ao mundo.

Marepe, "Cata Desenho", 2023. © Édouard Fraipont/cortesia do artista e galeria Luisa Strina
Se sua poética fala do Brasil profundo, é porque emerge desse solo, mas sem jamais reduzi-lo a um dado etnográfico
— Ricardo Sardenberg

Marepe, detalhe de "Cata Desenho", 2023. © Édouard Fraipont/cortesia do artista e galeria Luisa Strina
Santo Antônio de Jesus
Se você leu os primeiros parágrafos deste texto, podemos agora avançar para uma seção de natureza mais biográfica – não no sentido de reduzir o artista à sua origem, mas para compreender como essa origem sedentária e periférica é continuamente reelaborada como linguagem.
Marepe, acrônimo de Marcos Reis Peixoto, nasceu em 21 de junho de 1970 — data emblemática que coincide com a final da Copa do Mundo no México, quando o Brasil venceu a Itália por 4 a 1. Naquele dia, o estádio Azteca reunia um público numericamente equivalente à população atual (em 2024) de Santo Antônio de Jesus, cidade do recôncavo baiano onde Marepe nasceu e permanece até hoje. A final de 1970 foi também a primeira a ser transmitida ao vivo, em cores, via satélite, para o mundo inteiro — momento decisivo em que o futebol se consolida como espetáculo de massas em escala global. Essa coincidência pode ser lida como metáfora reveladora da própria obra de Marepe: enraizada no local, mas em diálogo constante com circuitos mais amplos, ela também transmite — com suas imagens, objetos e gestos — uma visão atravessada por fluxos culturais, econômicos e simbólicos.

Marepe, Sem título, 2025. © Édouard Fraipont /cortesia do artista e galeria Luisa Strina
Santo Antônio de Jesus é conhecida por sua grande feira livre — apontada, segundo a Wikipédia, como a mais barata da região. Mais que uma curiosidade estatística, essa feira constitui um ponto de inflexão na leitura da obra do artista. Nos anos 1990, ela passou a ser invadida por produtos baratos de fabricação industrial, sobretudo vindos da China. São objetos com função e destino locais, mas com origem global — uma reconfiguração do comércio popular que tensiona a ideia de autenticidade, de pertencimento e de autonomia cultural. Essa transformação da feira, de lugar de saberes e improvisos para uma encruzilhada de mercadorias transnacionais, ressoa diretamente na prática de Marepe, que incorpora e ressignifica esses objetos em sua linguagem visual.
Como um satélite modesto, mas sensível, a feira se torna, assim, um canal pelo qual o mundo chega ao artista — e onde ele reencontra, por meio da transitoriedade dos objetos, a persistência de uma estética popular que resiste, mesmo diluída, mesmo traduzida, mesmo absorvida. É nesse vaivém entre o particular e o genérico, entre o artesanal e o industrial, que a poética de Marepe se forma: sempre atenta às inflexões do cotidiano, mas nunca alheia à escala planetária das transformações em curso.

Marepe, "Conexões protetoras", 2020. © Édouard Fraipont/cortesia do artista e galeria Luisa Strina
Ao invés de buscar o mundo, Marepe faz com que o mundo reverbere no local
— Ricardo Sardenberg

Marepe, detalhe de "Conexões protetoras", 2020. © Édouard Fraipont/cortesia do artista e galeria Luisa Strina
Sedentarismo radical
Embora tenha se tornado quase um modismo o artista contemporâneo se declarar nômade — sem residência fixa, em constante trânsito, ainda que apoiado em uma suposta ancestralidade —, Marepe inverte essa lógica com um gesto deliberado de sedentarismo radical. Sua prática é enraizada, firmemente ancorada em sua cidade natal, em seu entorno imediato, onde o cotidiano funciona como fonte inesgotável de imagens, tensões e sentidos. Ao insistir no lugar, ele subverte a lógica da mobilidade como valor em si, e propõe uma permanência produtiva, atenta e crítica.
Essa ancestralidade que move sua criação não é mítica nem transcendental, mas construída a partir de uma memória agnóstica, que brota das lembranças da infância. Marepe parte de referências profundamente pessoais: filho de uma mãe professora de educação artística no ensino fundamental e de um pai comerciário do setor de construção civil, ele transforma essas influências silenciosas em vetores de criação. As lembranças da infância, das festas populares e do ambiente da feira livre, parecem em sua obra homenagear silenciosamente seus pais.
Cada objeto construído carrega um elo com essa origem: são fragmentos de uma infância que se atualiza no presente, não como memória congelada, mas como impulso contínuo de invenção. Ao invés de buscar o mundo, Marepe faz com que o mundo reverbere no local – e o local, por sua vez, se projeta como modelo micropolítico de resistência e criação. Seu trabalho se afirma como um gesto político e poético de permanência em um mundo enfaticamente transitório, onde tudo é convocado à obsolescência e ao esquecimento.

Marepe, Sem título, 2025. © Estúdio Em Obra/cortesia do artista e galeria Luisa Strina
Ricardo Sardenberg formou-se em história da arte e fotografia pela New York University, em 1994. Curador, editor e crítico de arte, foi um dos idealizadores do Inhotim e fundou a editora Cobogó. É fundador e diretor da galeria Sardenberg.