Made in Brazil: a arte brasileira no cenário global

Lise Alves
27 fev 2025
Acima: Estande da galeria Mendes Wood DM na Art Basel Miami 2024. Foto: Cortesia Art Basel
Nos últimos anos, a arte brasileira tem se destacado no circuito internacional, conquistando espaços em coleções, feiras e museus estrangeiros. Eventos como a SP-Arte, realizada anualmente em São Paulo desde 2005, ajudaram a colocar o Brasil no radar global, atraindo galerias como a uruguaia Piero Atchugarry e a Galeria Continua, com sedes na Itália, França, China, Cuba e Brasil.
A nomeação do curador Adriano Pedrosa, diretor artístico do Museu de Arte de São Paulo (MASP), para a Bienal de Veneza de 2024 consolidou a presença do país. Artistas brasileiros também ganharam destaque em grandes instituições, como Beatriz Milhazes, que expôs no Guggenheim, em Nova York, e Ernesto Neto, que levará suas esculturas ao Grand Palais, em Paris, no segundo semestre de 2025.
A Dan Galeria participa de feiras internacionais há mais de vinte anos. Segundo Flavio Cohn, diretor artístico da galeria, essas experiências permitiram acompanhar a valorização do trabalho de artistas brasileiros. "Podemos sentir o crescimento do interesse não só dos colecionadores, mas também dos curadores e diretores de museus."
Esse crescimento, porém, sofreu um soluço entre 2019 e 2023, período marcado pela pandemia de COVID-19 e pela instabilidade política durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
"Política e arte caminham juntos", afirma Jan Fjeld, diretor da galeria Vermelho. "Vimos, durante feiras internacionais, colecionadores que antes corriam para ver o que tinha nos stands das galerias brasileiras, passando para o outro lado da rua. De algum modo, representávamos o governo", diz ele, referindo-se ao período do governo Bolsonaro (2019-2023), que causou um impacto negativo nas relações internacionais do Brasil, afetando o mercado da arte. "Claro que o interesse dos pesquisadores e instituições sempre continuou, mas vimos uma queda no interesse de colecionadores individuais."

José Roberto Aguilar, "Sem título", 2022. Foto: Cortesia DAN Galeria
Brasil, mostra a sua cara
Rodrigo Editore, galerista da Casa Triângulo, acredita que a arte brasileira ocupa uma posição extremamente relevante no cenário artístico mundial, com crescente reconhecimento nos últimos anos. “Tem várias galerias importantes lá fora representando artistas brasileiros e nossos artistas estão entrando em coleções institucionais como MoMA, em Nova York, e Tate Modern, em Londres”, afirma.
Ele cita como exemplo Eduardo Berliner, que produz pinturas figurativas, e Fernanda Galvão, artista multimídia, ambos colaborando com galerias em Nova York. Daniel Roesler, sócio da Galeria Nara Roesler, com espaços em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York, ressalta uma distinção entre o interesse pela arte brasileira e pelos artistas brasileiros.
"Apenas nos últimos 6 meses colocamos uma obra de Tomie Ohtake no MoMA. A Sharjah Art Foundation comprou uma obra de Antônio Dias e inaugurou a primeira exposição individual do artista no Oriente Médio", conta o galerista.
Daniel menciona ainda que uma parede inteira de Jonathas de Andrade foi instalada na casa de um jovem trustee do MoMA, e uma obra de Marcelo Silveira está na casa de Ella Fontanals-Cisneros, colecionadora cubana radicada em Miami, referência em arte latino-americana.

Fachada da Galeria Nara Roesler em Nova York. Foto: Cortesia Nara Roesler
Para Ricardo Zielinksy, o Brasil desperta curiosidade em diversos aspectos, e o tecido artístico nacional é muito forte
Para Ian Duarte, galerista da Verve Galeria, “hoje existe uma compreensão maior da arte brasileira por parte dos colecionadores e instituições estrangeiras". Ele afirma que desde a primeira feira da galeria na França, em 2021, o interesse pela diversidade da produção brasileira vem crescendo.
Ricardo Zielinsky, proprietário da galeria que leva seu sobrenome, fundada em Barcelona, na Espanha, em 2015, e que inaugurou uma filial em São Paulo em 2024, acredita que a arte brasileira está cada vez mais em evidência. “O Brasil desperta curiosidade em diversos aspectos, e o nosso tecido artístico é muito forte”, avalia o galerista.
Zielinsky colocou uma obra de Vera Chaves Barcellos, artista do Rio Grande do Sul, na coleção permanente do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MACBA) e realizou exposições no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madri.

Fernanda Galvão, "Vento das frutas-conchas", 2025. Foto: Cortesia Casa Triângulo

Vera Chaves Barcellos, "On Ice", 1978. Foto: Cortesia Fundação Vera Chaves Barcellos
Mais do que sol, mar e frutas tropicais
Questionado sobre qual tipo de arte brasileira atrai mais o público estrangeiro, Flavio Cohn observa que, embora seja difícil definir um padrão do que atrai o olhar estrangeiro, a descentralização da produção tem sido chave.
“Vimos nos últimos anos uma descentralização, uma absorção e uma aceitação de artistas que estão fora do eixo Rio-São Paulo, tanto no Brasil como no exterior", diz. Essa abertura tem renovado a linguagem estética do mercado brasileiro e internacional.
Os Estados Unidos, segundo Ian Duarte, são o maior mercado para a arte brasileira. “Não só em termos de feiras de arte, mas também de convites de galerias para exposições de nossos artistas", explica. Já Zielinsky observa que “há mais abertura para vídeo e fotografia na Europa do que no Brasil.”
Ele cita a exposição do artista Claudio Goulart, realizada tanto na sede paulista quanto na de Barcelona: “Vendemos vídeos para colecionadores importantes na Europa, enquanto no Brasil isso ainda é raro.”
Apesar do crescente interesse externo, Editore alerta que o aumento de eventos internacionais pode prejudicar artistas. "Com tanta feira e eventos internacionais, o mercado acabou diluindo um pouco”, ressalta. “É uma 'fome' do mercado que acaba prejudicando o próprio mercado."
Outro entrave são os altos custos logísticos e a burocracia brasileira. Zielinsky explica que “quem compra uma obra por 20 mil dólares não quer pagar mais 5 mil só para transportá-la”. A instabilidade cambial é outro desafio. “Você se inscreve na feira com o dólar a R$ 4 e, ao pagar, está a R$ 6”, exemplifica.
Segundo Flavio Cohn, as galerias são embaixadoras culturais: levam artistas sem visibilidade, criam conexões e colocam obras em coleções internacionais

Dora Longo Bahia, "Angra", 2017, apresentada na Art Basel Miami Beach 2024. Foto: Cortesia Galeria Vermelho
Embaixadoras da arte brasileira
Diante disso, galerias contam com apoio institucional. Programas como o Latitude, parceria entre a Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), oferecem suporte financeiro e logístico para internacionalização das galerias. “Eles vêm dando vários incentivos para divulgar os artistas e os programas das galerias”, destaca Zielinsky.
Ainda assim, ampliar o espaço da arte brasileira requer esforço contínuo. “As galerias são embaixadoras culturais. Levam artistas sem visibilidade, criam conexões e colocam obras em coleções internacionais. É um processo lento”, diz Flavio Cohn.
Daniel Roesler lembra que a Nara Roesler foi pioneira ao abrir, em 2015, uma galeria em Nova York, que completará dez anos em 2025. “Estamos lá diariamente, criando pontes com instituições e colecionadores”, conta.
Jan Fjeld enfatiza que para fortalecer o mercado, as galerias brasileiras precisam expandir suas redes internacionais. "Feiras aqui no Brasil, como a SP-Arte, também são muito interessantes para fortalecer essas conexões", observa.
Enquanto galerias enfrentam desafios, o interesse global pela arte brasileira segue em ascensão. A diversidade e a qualidade de sua produção consolidam o país como um ator de relevância crescente no circuito artístico internacional.

João GG, "Pedra Bruta", 2019, na exposição no Ilmin Museum of Art, em Seul, na Coreia do Sul. Foto: Cortesia Verve Galeria