Luisa Brandelli em conversa com Victor Gorgulho

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Victor Gorgulho

14 jun 2023

Acima: Exposição "Hora grande" na SP–Arte 2022

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Luisa Brandelli em conversa com Victor Gorgulho

À primeira vista, pouco – ou muito pouco – é óbvio. Parece da ordem da obviedade, ou da mesmice e, no entanto, não se trata de uma sensação de estranheza total, daquelas que nos arrebatam a ponto de nos assombrar: “o que é isso, afinal?”. É justamente no ponto central desta peculiar interseção onde talvez resida a produção artística de Luisa Brandelli. Nascida em Porto Alegre em 1990, a artista, que é mestra em artes visuais pela Unesp, estudou com nomes como Jailton Moreira, Rosana Pinheiro Machado, Maria Helena Bernardes, Paulo Miyada e Pedro França – e a heterogeneidade deste corpo docente parece informar sua obra atualmente.


Adentrar o ateliê ou uma exposição de Brandelli é, de cara, um delicioso ato desconcertante. Ao passo em que os materiais e os signos ali dispostos – justapostos, entrelaçados, costurados, pendurados – nos soam familiar, a fonte conceitual e minimalista da qual a artista continuamente bebe, é, por vezes, atacada com a carapuça de uma enfant terrible doce e graciosa, pouco atendo-se aos códigos e pressupostos ditos hegemônicos do fazer escultórico mas, tampouco, buscando o barulho estrondoso geralmente destinado àqueles que desejam fazer o barulho pelo barulho, pouco deixando para a leitura de seus próprios trabalhos.


Na conversa a seguir, Brandelli esmiúça um pouco de sua trajetória e de seu fazer artístico e nos conduz à sua prática de ateliê, desde o início de sua trajetória em 2015. A artista foi premiada na SP–Arte 2022 com uma bolsa de residência artística no Instituto Inclusartiz (RJ) pela participação na exposição “Hora Grande”, no setor Radar, que teve a curadoria de Felipe Molitor, com foco na apresentação de artistas sem representação comercial.

VG: Luisa, começando pelo… início! Como se deram seus primeiros passos como artista? Qual foi sua formação e em que momento você passou a produzir estritamente seu trabalho de modo profissional?


LB: Quando completei 4 anos, minha mãe entrou na faculdade de artes. Por isso eu tenho muitas memórias dos encontros dela com os colegas e professores artistas e de ir a todas as exposições que aconteciam em Porto Alegre aos finais de semana com a minha família. Lembro das Bienais do Mercosul e como elas me deixavam cheias de problemas na cabeça para resolver em casa. Além disso, minha mãe sempre foi professora de desenho e eu, ainda criança, participava de algumas aulas, às vezes como aluna, às vezes como modelo vivo. Eu aprendi a desenhar com ela, mas nunca passei muito tempo desenhando.


Eu fiz aulas de dança contemporânea, dos 7 aos 17 anos, com a Eva Schul, uma referência na dança no Brasil. Eu amava dançar, mas tinha medo do palco. Então quando começou a ficar um pouco mais profissional, eu saí fora. Eu não tinha o mesmo prazer de me apresentar para um público do que eu tinha nos ensaios. A minha formação em artes visuais foi totalmente teórica, fora as aulas de desenho com a minha mãe. Participei, ainda adolescente, dos grupos de discussão de arte com a Maria Helena Bernardes e com o Jailton Moreira, dois grandes professores.


Eu não fiz faculdade de artes. Mas chegou um momento em que eu me dei conta que o único lugar possível – o lugar onde eu queria estar com as pessoas com quem eu queria conversar – era o lugar da arte e dos artistas. Em 2013, com 23 anos, decidi que queria ser artista, e aos 25 comecei a produzir propriamente o meu trabalho.

Luisa Brandelli, "O ovo e a galinha", 2018

Luisa Brandelli, "O ovo e a galinha", 2018

VG: Crescendo em Porto Alegre, quais foram suas primeiras referências artísticas – sejam elas das artes visuais, do cinema, da moda? Além disso, como um certo “imaginário tropical”, típico da vivência das praias do litoral gaúcho ao longo de sua vida (como Florianópolis), passa a te influenciar decisivamente e torna-se um campo de interesse primordial para você?


LB: O imaginário tropical que o É o Tchan e os programas de TV aberta traziam fez parte do imaginário da minha geração. Por ser de Porto Alegre, esse imaginário já vinha com um distanciamento geográfico. Era muito longe da minha realidade, mas, ao mesmo tempo, muito desejado. Era a imagem do país que eu morava, mas que eu só via nos veículos de mídia. Por isso talvez, quando eles surgem no meu trabalho há uma pequena descrença que pode vir acompanhada de uma certa melancolia. Mas isso me fez lembrar de novo das exposições que eu frequentava no final dos anos 1990. Tinha muita body art, fotografias e autorretratos. Era comum o corpo retratado ser um corpo disruptivo. Quando eu comecei a produzir, me interessava tudo aquilo que tinha relação com aparência, como se eu estivesse pensando numa economia das aparências. Tudo aquilo que era usado como construção imagética pensada pelos grandes grupos influentes da cultura. Desde a ideia da mulher brasileira, como da natureza exuberante, passando pelos avanços do modernismo, pela euforia do carnaval, pela elite em ascensão, pelo conservadorismo cristão entranhado na cultura…


Um dos meus primeiros trabalhos foi o “Gostosa” (2015), uma imagem de uma praia tropical com um letreiro de latão sobreposto com a palavra “gostosa” na escala de um corpo. Para mim estava claro que eu queria trabalhar sobre o que era comum e repetitivo na cultura, daí uma relação com a cultura pop no começo da minha produção. Eu tinha muito desejo de colocar esses assuntos em discussão, mas sem um moralismo ou cheia de verdades. A Anitta estava começando a ficar famosa nessa época, ainda com o Show das Poderosas. Essa inversão do papel da mulher na indústria pop começava mais ou menos nessa época… Não eram mais as dançarinas gostosas de um grupo de homens (no caso da Carla Perez e as Sheilas). Era a própria artista que escolhia continuar sendo a gostosa. Com o tempo, os trabalhos com o corpo continuaram aparecendo. O uso da imagem do meu próprio corpo se dá por uma facilidade e por uma identificação com um corpo padrão de um imaginário geracional. De uma certa forma, desde o “Gostosa”, foi um risco me colocar desta maneira.


Ao mesmo tempo, é muito difícil trabalhar com imagem hoje em dia, dado o excesso delas. Então sempre tem que valer muito a pena trabalhar com esse tipo de material. Em 2022 eu fiz um trabalho sem título onde eu sobreponho duas fotografias (selfies) impressas em lona com uma camada de verniz para madeira de deck. Nesse momento eu percebi que o assunto não importava mais do que o material, e eu passei a pensar nesses trabalhos também como uma resposta a um material e, assim, a trabalhar a partir disso utilizando tecidos, miçangas, latão… Nesse caso um material específico e super disponível, que são as selfies de corpo, com enquadramento sempre distorcido.

Luisa Brandelli, "Gostosa", 2015

Luisa Brandelli, "Gostosa", 2015

VG: O seu trabalho parte de materiais mundanos, oriundos de diversas esferas da vida cotidiana que, reconfigurados, acumulados ou rearranjados, resultam em esculturas e objetos cujas composições desafiam formatos tradicionais de classificação. Como se inicia o processo de uma obra sua e o quanto, durante este processo, ocorre uma espécie de escuta delicada e silenciosa dos materiais com os quais você trabalha, que, evidentemente, possuem também suas características e vontades próprias?


LB: É sempre uma resposta a alguma coisa que me atrai, seja ela uma imagem, uma palavra, um objeto, um material, um costume. Eu acho muito importante estar atenta ao mundo. Assim como eu considero muito importante a natureza tátil do mundo, as superfícies das coisas, porque todas as relações (entre pessoas, entre objetos, entre pessoas e objetos) acontecem primeiro entre superfícies. Então essas relações me fazem querer aproximar e juntar coisas e pensar como estas superfícies podem ser mais ou menos manipuladas. E isso sempre passa pelo tempo de uma obra ficar pronta, porque mesmo nos trabalhos em que os procedimentos formais são mínimos, existe um tempo grande de ficar junto com aqueles materiais e aquelas formas e tomar pequenas decisões.

Luisa Brandelli, "Bronzeado", 2015

Luisa Brandelli, "Bronzeado", 2015

VG: Ainda que sua produção esteja em pleno desenvolvimento, é possível identificar, já há um certo tempo, certas reincidências e aspectos recorrentes em sua pesquisa. Eu destacaria alguns: a forma como seu corpo aparece em foto-performances quase enigmáticas, nas quais se subverte a lógica arquetípica com que o corpo feminino costuma ser retratado na esfera pública, e, em segundo, a destreza que você possui em seus diversos trabalhos com tecido ou melhor, tecidos dos mais distintos tipos.


LB: De certa forma, eu sempre trabalhei assim, respondendo a algum material específico, sem roteiro nem projeto. Lembrando que quando eu uso a palavra material eu quero dizer materiais físicos, mas também ideias, imagens, palavras. Assim como o “Gostosa”, em que eu utilizava aquela representação da mulher na cultura como material, no mesmo ano, 2015, eu fiz o “TCHAN” que respondia ao próprio letreiro de latão com sua particularidade de brilhar e dar uma falsa sensação de nobreza. Fiz também o “Bronzeado”, um trabalho a partir do bronzeamento da pele, onde eu estico um couro pintado de dourado numa corda de varal.


É uma resposta sobre o mundo tátil à minha vontade de transformar tudo em objeto e presença física. Mesmo usando palavras ou imagens, eu tento tornar objeto aquela imagem ou aquela palavra até que ela vire outra coisa. E que essa coisa venha carregada por uma manufatura não precisa, muitas vezes pela falta de projeto e de habilidade, que trazem marcas, manchas e falhas ao resultado. É possível encontrar essas marcas de imprecisão em todos meus trabalhos, mas esse é um dado muito particular das obras com miçangas.


O primeiro trabalho de miçanga, o “Arara” (2022), aconteceu por acaso e de uma forma totalmente nova para mim. Eu nunca tive habilidade ou facilidade com costura ou bordado. O trabalho começou com uma ideia e terminou em um lugar inesperado devido uma série de pequenos erros e desvios no percurso. Eu achei que o “Arara” seria o único trabalho que eu faria com miçangas nessa escala. Mas logo me deu vontade de ver outro, e depois outro. Eles têm uma particularidade de permitir pequenas decisões de construção formal a todo momento. Assim como a mudança de opinião, que trai a ideia inicial do trabalho. Os erros que acontecem no meio do caminho são muito prazerosos. Então é um trabalho lento, mas que, por isso, me permite infinitos desvios a todo momento.


Mais do que de qualquer coisa, o trabalho tem que se sustentar sozinho a partir da sua própria presença no espaço. Nada importa mais do que a obra ser independente de mim, ou de qualquer texto. E é importante também, para mim, a ideia de que pode tudo, mas não pode qualquer coisa. O que quero dizer é que, claro que com o tempo algumas decisões e escolhas de forma e matéria vão se repetindo, mesmo assim é importante estar sempre atenta ao mundo e às coisas que aparecem ao redor, porque tudo pode se transformar em um objeto de arte, mas tem que ser um objeto que valha a pena inaugurar.

Luisa Brandelli, "Arara", 2022

Luisa Brandelli, "Arara", 2022