Lucas Arruda rumo ao Musée d’Orsay

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Yan Catuaba

25 fev 2025

Acima: Retrato de Lucas Arruda em seu ateliê. Foto: Gui Gomes

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Aos 41 anos, o pintor, representado pelas galerias Mendes Wood DM e David Zwirner, será o primeiro brasileiro a ter uma exposição individual no Musée d’Orsay, em Paris


Uma imensa tarde quente, com uma queda d’água anunciada, pairava sobre São Paulo enquanto eu me deslocava em direção ao centro. Conforme avançava no trajeto rumo ao ateliê de Lucas Arruda, o céu que havia me acompanhado até ali parecia ir se encolhendo, esforçando-se para se ajustar nas telas 24 x 30 cm expostas em uma das salas do estúdio.


Algumas delas, apontou Arruda, em breve atravessarão o 7º arrondissement, um dos bairros mais turísticos de Paris, e desembarcarão no Musée d’Orsay para aquela que será a primeira mostra de um brasileiro na renomada instituição francesa, com abertura marcada para o dia 8 de abril. No final do mesmo mês, o artista cruza a França para inaugurar outra exposição individual no país, dessa vez no Carré d’Art, museu de arte contemporânea da cidade de Nîmes, e em tom retrospectivo.


E foi assim, em meio a pinturas em processo de embalagem, maquetes expográficas e testes de cor da tinta que recobrirá as paredes da Galeria Impressionista do d’Orsay, que Lucas Arruda recebeu a SP-Arte para uma conversa sobre seu trabalho, sua trajetória e a jornada francesa nos próximos meses.

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Deserto-Modelo”, 2021. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Deserto-Modelo”, 2021. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Deserto-Modelo”, 2019. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Deserto-Modelo”, 2019. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Eu era uma criança bem desconcentrada e tive uma juventude bem desatenta. Era somente na hora de desenhar que eu me concentrava e me fixava

Uma linha, dois horizontes


Não diferentemente de outros artistas, Arruda localiza na infância os primeiros sinais de sua inclinação às artes visuais e afirma ter encontrado na criação artística uma fonte de equilíbrio para uma meninice bastante agitada. “Eu era uma criança bem desconcentrada e tive uma juventude bem desatenta. Era somente na hora de desenhar que eu me concentrava e me fixava”, conta.


Essa ligação de serenidade estabelecida com o fazer artístico ainda se mostra presente, sobretudo quando notamos que ela extrapola o processo produtivo do artista e se torna conteúdo nas obras. Um olhar acelerado e inquieto às telas de Arruda é logo substituído por uma percepção meditativa que guia a visão sossegadamente por um “lugar sem lugar” – como bem sugeriu o título da exposição individual apresentada na Fundação Iberê Camargo em 2021. Uma atmosfera etérea que revolve o olhar com o silêncio e a calmaria do sublime.

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Chiesa”, 2010. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Chiesa”, 2010. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Os rumos que a obra de Arruda tomou, no decorrer dos anos, exemplificam o percurso do artista em direção a esse estado de quietude e mansidão não tão presentes em seus anos iniciais de vida. Em suas primeiras paisagens, é possível identificar um referencial concreto, a igreja que o artista avistava diariamente de sua janela durante o período em que morou em Siena, na Itália, na primeira década dos anos 2000.


Pintado anos depois, já de volta ao Brasil, na série que nomeou como “Chiesa”, o templo religioso, que por si só carrega todo tipo de conotação ligada ao divino, aos poucos deixa para trás a dureza de seu suporte matérico em direção ao que o artista nomeia como “transcendental”: “Essa igreja foi deixando de ser aquela que eu observei e foi virando a minha própria igreja. Foi ocorrendo uma certa idealização compositiva e de espaço. A série foi partindo de uma experiência individual em direção a algo universal, algo que alcança alguma transcendência”, diz.

Lucas Arruda, "Sem título", 2010. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "Sem título", 2010. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

As séries que vem em seguida alçam degraus ainda mais altos neste trajeto ao suprassensível: “Em algum momento a igreja sumiu e eu fiquei só com aquela linha do horizonte”. Essa linha, que primeiro delimitou bordas de mesas nas naturezas-mortas da primeira fase do artista, é a mesma que indicava a superfície do terreno ocupado pela igreja italiana. Agora, ela aponta para o infinito nas paisagens abstratas – as mesmas que colocaram Lucas Arruda como um dos principais nomes da arte brasileira no exterior – e irrompe, assim, o imensurável na série de monocromos do artista. Questionado sobre o papel deste traço em sua obra, revela: “Não é apenas uma linha do horizonte, mas uma separação entre o que está em cima e o que está embaixo, do imaterial e do material, da vida e da morte, do sonhar e do real… Parte disso é representado pelo céu, outra parte pela terra. A ligação entre o visível e o invisível, o corpóreo e o espiritual tem me acompanhado”.


O que a prática artística de Arruda parece realizar, neste sentido, é uma apropriação de gêneros clássicos da pintura para discutir um aspecto de ordem ontológica: a dualidade do mundo. E não o faz sozinho, como ele mesmo conta: “A pintura vai apontando um caminho, ela te diz para onde ir. Além das experiências vivenciadas, há algo que acontece também dentro do fazer pictórico.”

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Deserto-Modelo”, 2024. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Deserto-Modelo”, 2024. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Um pintor-arqueólogo em busca da luz


Essas interferências da própria pintura no campo conceitual da obra de Arruda podem ser capturadas quando se coloca em foco o processo de criação do artista. Sem esboços ou esquematizações prévias, Arruda constrói em consonância com o comportamento das camadas de tinta dispostas na tela. Com sua espátula, ele orquestra o elemento central de sua pintura: a luz. Sua forma de obtenção da luz é um tópico importante no que se refere à aproximação que será estabelecida com obras de outros artistas, sobretudo impressionistas, no espaço expositivo da mostra a ser inaugurada no Musée d’Orsay.


Isso porque, diferentemente destes, que concebiam a luz por meio do pigmento branco, Arruda a extrai de dentro da tela. Ao remover a tinta com a espátula, ele realiza uma espécie de “escavação” na pintura, fazendo-a jorrar luz. O artista afirma: “A luz carrega uma capacidade de revelação, de algo sublime, e o tempo dessa luz é muito importante no meu trabalho. Eu procuro ponderar a maneira como ela chega e entendo um trabalho como terminado na medida em que essa luz se revela, na forma como ela acontece”.

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Deserto-Modelo”, 2021. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "Sem título", da série “Deserto-Modelo”, 2021. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Mas, se anteriormente observou-se que um caráter dual revolve a atmosfera das pinturas de Lucas Arruda, a luz a qual nos referimos dificilmente poderia ser concebida de maneira isolada. O seu contraponto, a escuridão, a sombra, é de igual interesse para o artista. “Para ter luz, tem que ter sombra. É preciso passar pela noite para alcançar um novo amanhecer”, refletiu Arruda momentos antes de inverter os protocolos da entrevista com uma pergunta inquietante: “Você acha que, quando a gente morre, a gente vê tudo escuro ou tudo branco?". É essa a questão que ecoa na maior parte das obras do artista, como em “quatro dias e quatro noites” (2014), da série “Deserto-Modelo” – uma projeção de 81 slides feitos com quadradinhos de acetato pintados à mão e irradiados em uma sala escura que, na ausência dos fios de luz do projetor, é conduzida ao mais profundo breu.

Lucas Arruda, "quatro dias quatro noites”, da série “Deserto-Modelo”, 2014. © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "quatro dias quatro noites”, da série “Deserto-Modelo”, 2014. © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "quatro dias quatro noites”, da série “Deserto-Modelo”, 2014. © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, "quatro dias quatro noites”, da série “Deserto-Modelo”, 2014. © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Ainda, a maneira como Arruda busca equilibrar as especificidades da luz em sua relação com a presença da sombra resulta em um modo de conceber a natureza visível, tema recorrente em sua pintura, também sob a chave de oposições duais. Nos trabalhos de Lucas Arruda, o mundo natural observável também é ambíguo. Para além das paisagens noturnas em contraposição às composições solares, o artista transita por uma natureza que é por vezes pacífica e amigável, mas que também se mostra nociva e ameaçadora. Aqui, ele se distancia de pintores históricos de paisagem preocupados exclusivamente em uma representação branda e tranquila do entorno natural.


Sua série sobre a vegetação atlântica mostra bem como a mata pode ser ao mesmo tempo acolhedora e intimidadora, literal e misteriosa. Não é à toa que “La Mer Orageuse” (1870), uma pintura de Gustave Courbet (1819-1877), pintor realista francês, em que um mar revolto é retratado, foi escolhida por Arruda para compor uma das antessalas que cercam a galeria que será ocupada por ele no museu. A aproximação, um tanto quanto inesperada, reforça as ideias presentes no corpo de trabalho do artista, onde um pôr do sol ameno e alaranjado pode ocorrer no mesmo céu de uma tempestade obscura e feroz.

Lucas Arruda, Sem título, da série “Deserto-Modelo”, 2023. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, Sem título, da série “Deserto-Modelo”, 2023. Foto: Everton Ballardin © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Gustave Courbet, “La Mer Orageuse", 1870. © Musée d’Orsay

Gustave Courbet, “La Mer Orageuse", 1870. © Musée d’Orsay

Para ter luz, tem que ter sombra. É preciso passar pela noite para alcançar um novo amanhecer

Por fim, é na forma de conceber essa natureza ambígua que Lucas Arruda demonstra o seu parentesco com alguns impressionistas, entre eles Claude Monet (1840-1926), com os quais sua obra também estará tête-à-tête na mostra em Paris. O que Arruda apresenta em suas pinturas é sempre uma impressão do mundo que o cerca. Ele diz: “Eu vivencio, eu experiencio e observo, mas as coisas precisam decantar por muito tempo. Elas precisam se assentar na memória e o que fica disso é o que realmente vai para o trabalho. A igreja da Itália, por exemplo, só foi ser pintada um ano depois que eu tinha voltado de lá. As matas são lembranças da vista que eu tinha de uma janela na casa do meu pai".


Neste ponto, nota-se uma outra ferramenta indispensável à produção de Arruda, o aparato psíquico, também estruturado em dualismos como consciente e subconsciente, lembrança e esquecimento, razão e emoção. Ele atua como mediador entre a experiência do artista e a imagem final na tela. “O termo ‘Impressão’ é ótimo para descrever a proposta desses artistas, mesmo que tenha surgido no contexto de uma crítica negativa ao movimento. Já não é a coisa do jeito que ela é, trata-se de uma interpretação, uma impressão. Nesse sentido, o que eu faço só é possível graças a estes artistas”, conclui.

Lucas Arruda, Sem título, da série “Deserto-Modelo”, 2022. Foto: Claire Dorne © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Lucas Arruda, Sem título, da série “Deserto-Modelo”, 2022. Foto: Claire Dorne © cortesia do artista, Mendes Wood DM e David Zwirner

Claude Monet, “La Cathédrale de Rouen. Le portail et la tour Saint-Romain, plein soleil; harmonie bleue et or”, 1892-1893 © Musée d’Orsay

Claude Monet, “La Cathédrale de Rouen. Le portail et la tour Saint-Romain, plein soleil; harmonie bleue et or”, 1892-1893 © Musée d’Orsay