Jaume Plensa e Marcello Dantas discutem a função da arte pública no Palco SP-Arte

cover image

02 abr 2025

Acima: Jaume Plensa e Marcello Dantas no Palco SP-Arte

e-mail icone-mail icon

Jaume Plensa busca uma arte que perdure. O artista, nascido em Barcelona, é conhecido por esculturas e intervenções de grande escala, como a imensa cabeça “Echo”, exibida no Madison Square Park, em Nova York. Suas obras estão em importantes espaços públicos mundo afora e também em museus e galerias que são referência, como a nova iorquina Albright-Knox.


Com mais de quarenta anos de atividade e importantes prêmios, como o Velázquez de Artes Plásticas, concedido pelo ministério da cultura espanhol em 2013, Plensa acredita que a continuidade é uma das melhores maneiras de preservar o fazer artístico, ponderou o artista, que conversou com o curador Marcello Dantas nesta quarta-feira, 2, no Palco SP-Arte.


Entre 2022 e 2023, Dantas curou a exposição “Invisível e Indizível”, que apresentou 17 peças do artista no Museu Oscar Niemeyer (MON) em Curitiba. Para pensar a longa trajetória do catalão por espaços públicos, Dantas abriu a conversa questionando justamente sobre o conceito de espaço no repertório de Plensa.


O artista, então, revelou que busca a ligação com a humanidade, a alma e a espiritualidade em suas obras. “Passei minha vida tentando tornar visível o invisível. As coisas mais importantes da vida são invisíveis e a escultura é um dos melhores meios de expressar isso”, disse o catalão.

O artista catalão Jaume Plensa. Foto: Divulgação/SP-Arte

O artista catalão Jaume Plensa. Foto: Divulgação/SP-Arte

Plensa logo lembrou de uma das obras mais conhecidas de sua carreira, a Crown Fountain, localizada no Millennium Park, em Chicago. Inaugurada em 2004, a fonte interativa é formada por um espelho d’água de granito preto, que fica entre duas grandes torres de 15 metros de altura. As torres são formadas por tijolos de vidro, onde luzes LED projetam o rosto de habitantes da cidade. Ele chama a “Crown Fountain” de “ponto chave em sua vida”.


Plensa também contou sobre algumas inspirações que partiram de lugares marcantes da paisagem urbana, como as gárgulas de Barcelona vistas durante a infância. Sua memória alcançou as lembranças das estátuas esculpidas em formas monstruosas que cuspiam água em dias chuvosos. Para o escultor, uma fonte é um exemplo de como a arte pública pode mudar o jeito como uma cidade vive. Segundo ele, é comum ver pessoas caminhando ao redor de sua escultura para se refrescar, e essa relação com a água foi uma forma de aproximar a obra do público.


O uso da água em obras de arte situadas em espaços públicos lembrou o artista de uma escultura de grandes proporções, “Awilda”, peça que retrata Iemanjá e foi instalada na Praia do Botafogo, no Rio de Janeiro, por dois meses em 2012. Plensa se diz devoto do Orixá e relembrou sua primeira visita ao Brasil, quando estabeleceu uma forte conexão com o país. “Eu já sabia que o Rio de Janeiro era lindo, mas ele também se tornou inesquecível”.

Público acompanha a conversa entre Marcello Dantas e Jaume Plensa. Foto: divulgação / SP-Arte

Público acompanha a conversa entre Marcello Dantas e Jaume Plensa. Foto: divulgação / SP-Arte

Nas palavras do escultor, “cada artista funciona como uma mensagem na garrafa”. Nesse sentido, ele elogiou a arquitetura do Masp. “Cada pintura é como um cidadão, tentando existir”. Durante a visita ao museu, ele relatou ter sido possível ver o avesso das obras. “A parte de trás de uma escultura é uma das minhas obsessões, é importante saber para onde ela está olhando”.


Com mais de três décadas de atividade curatorial, Dantas expôs uma mudança de panorama nas práticas artísticas no mundo da arte e como o público tem se relacionado com a obra de arte de forma diferente, colocando em evidência a imposição inegável da tecnologia sobre o ato de olhar e perceber o mundo ao redor.


Já Plensa refletiu que, embora o mundo esteja mais conectado e rápido, suas peças têm se tornado cada vez mais complicadas e pesadas. “Penso, cada vez mais, em uma arte que resiste, em criar um lugar para se estar, para retornar, para as pessoas estarem juntas”. Para o artista, hoje suas obras também têm pensado na invisibilidade: “Respondo às minhas mesmas obsessões, só que com as ferramentas do meu tempo”.


Dantas então destacou a “sutileza da forma” de Plensa, que acredita ser um dos “grandes escultores de nosso tempo”. A partir daí, eles discorreram sobre a capacidade da arte de tornar palpável aquilo que é invisível. “Por que continuar a fazer arte?”, provocou o curador. Para o artista, a experiência humana é a principal motivação. “O espaço é a capacidade de abraçar a vida, discordo que a escultura é um problema técnico, o ser humano é o mais importante”.

Penso, cada vez mais, em uma arte que resiste, em criar um lugar para se estar, para retornar, para as pessoas estarem juntas

– Jaume Plensa

Jaume Plensa é um dos grandes escultores de nosso tempo

– Marcello Dantas