Entrevista com Vânia Mignone

cover image

Amanda Arantes

16 mar 2023

Acima: Detalhe de Vânia Mignone, Sem título, 2023 (Foto: Filipe Berndt)

e-mail icone-mail icon

Em entrevista à Amanda Arantes, Vânia Mignone fala sobre sua trajetória e o fazer artístico

Vânia Mignone, artista radicada em Campinas, cresceu em uma família de músicos, estudou balé e fez faculdade de publicidade antes de se tornar artista visual. Em uma carreira que completa já três décadas, Mignone desenvolveu um estilo singular de pintura, bastante influenciada pela xilogravura, e informada também pela visualidade do teatro, da dança, do cinema e das histórias em quadrinhos.


Homens e mulheres anônimos, animais, plantas e letreiros são alguns dos elementos de seu repertório particular de personagens, colocados em cena geralmente sobre um fundo escuro, ou inseridos em paisagens que vão do bucolismo interiorano, com seus campos e estradas vazias, a cenários oníricos e fantásticos. Para compor esses episódios de uma narrativa íntima e ao mesmo tempo coletiva, Mignone emprega ainda palavras e frases curtas que evocam significados e emoções diversas – às vezes indecifráveis.


Nessa conversa, falamos um pouco sobre sua formação, novos projetos, e sobre os diversos sentimentos que motivam seu trabalho. Confira:

Vânia Mignone, Sem Título, 2020. (Foto: Filipe Berndt)

Vânia Mignone, Sem Título, 2020. (Foto: Filipe Berndt)

“Tem sim essa presença desse melodramático que você pode dizer que é algum tipo de influência do cinema ou até de uma fotonovela”


Amanda Arantes: Vânia, vamos começar falando sobre o início da sua carreira. Você pode falar um pouco sobre seus anos de formação? Para além da sua trajetória enquanto estudante de arte, quais debates rondavam a sua geração naquela época?


Vânia Mignone: Na época de faculdade – eu entrei na Unicamp em 1990 – internet era uma coisa que durante a faculdade eu não tive acesso, ninguém teve acesso, todo mundo entrava na faculdade de uma maneira muito romântica. A gente estava lá porque gostava de desenhar, de pintar, mas sem conhecimento do que estava acontecendo em arte contemporânea. Em debates e questões sobre que caminho seguir, era tudo muito assim “eu gosto de desenhar, eu gosto de pintar, eu gosto de fazer escultura, vou fazer essa faculdade porque é a minha praia” e sem nenhum outro conceito ou alguma coisa já amadurecida pra debater ou para tomar posturas ou tomar partido.


Talvez o grande debate, durante o período de faculdade, que eu e outras pessoas do curso tivemos, foi com relação a arte brasileira, uma arte que representasse o ser brasileiro e a relação disso com uma arte contemporânea Internacional, então esse tipo de conversa a gente tinha, até porque na época eu fazia xilogravura. Eu tinha conhecido o trabalho do Goeldi, que vem com uma formação europeia mas trabalha com a realidade do Rio de Janeiro, e eu gostava muito de ver a realidade do Rio representada por um artista contemporâneo e com a técnica que foi por onde eu comecei a fazer algum trabalho artístico, a xilogravura. Talvez fosse essa a conversa, mas era alguma coisa muito simples, ninguém tinha nenhuma consciência muito profunda de mais nada a não ser o “como era gostoso estar ali, fazendo a faculdade de artes”.

Vânia Mignone, Sem título, 2016. (Foto: Edouard Fraipont)

Vânia Mignone, Sem título, 2016. (Foto: Edouard Fraipont)

AA: Passeando pelas suas obras vejo muitos personagens de olhos fechados, ou com a face voltada para trás, ou com olhares oblíquos. Há um certo tom melodramático nisso, algo que remete ao cinema e às fotonovelas. Faz sentido?


VM: Tem sim essa presença desse melodramático que você pode dizer que é algum tipo de influência do cinema ou até de uma fotonovela. Eu também acho que tem uma presença de palco de teatro, de alguma posição, e uma postura cenográfica também. Todos esses [elementos] estão presentes no meu trabalho. Tem muita informação de outros meios de comunicação, e essa questão a respeito de uma certa encenação na postura dos meus personagens tem a ver sim com esse tipo de influência que não é exatamente da pintura mas de outros meios.


Antes de trabalhar com artes visuais eu me formei em dança, então tenho bastante essa vivência do palco e dos personagens representados no palco. E também porque as figuras humanas que eu faço são menos realistas e são mais simbólicas. É mais uma figura que representa a mulher ou uma figura que representa o homem do que propriamente uma mulher ou um homem que eu conheço ou que estejam assim no dia a dia. Eles simbolizam pessoas e acho que as posições em que eles estão também tem esse [caráter] simbólico.

Vânia Mignone, Sem Título, 2022. (Foto: Filipe Berndt)

Vânia Mignone, Sem Título, 2022. (Foto: Filipe Berndt)

AA: Uma característica marcante da sua obra é o fundo escuro e denso que contrasta com uma paleta de cores vibrantes. E acho particularmente interessante a forma como você pinta massas de luz – postes iluminados, faróis de carros – que atravessam essa escuridão. Você pode comentar um pouco sobre esse jogo de luz e sombra no trabalho?


VM: Sim. A luz muitas vezes aparece com uma materialidade sólida, assim como eu tenho muitas áreas chapadas no meu trabalho, muitas áreas monocromáticas, a luz entra menos como alguma coisa fluida, como luz mesmo, mas sim com um peso na composição. Mais uma vez, eu acho que esse tipo de representação da luz, você também pode dizer que tem a ver com histórias em quadrinhos, com certeza, e também tem a ver com a xilogravura – eu sou muito influenciada pela literatura de cordel, que tem imagens e textos juntos – a xilogravura tem sempre essa pegada mais sólida, mais geométrica, acho que a luz entra por aí, essa representação da luz ganhando uma massa.


“(…) tem sempre um vácuo, tem sempre um lado escuro, tem sempre um mistério a respeito da nossa existência por aqui (…)”



AA: Em algumas obras recentes, como o conjunto que você apresentou na 33ª Bienal de São Paulo, existe uma atmosfera de incerteza, de angústia, algo que o curador Gabriel Pérez-Barreiro descreveu como “apocalíptico”. Essa melancolia vem de uma observação da realidade? E, mais precisamente, da realidade brasileira?


VM: Com certeza. Os trabalhos, embora tenham esse colorido forte – eles são muito positivos, têm um colorido óbvio, figuras óbvias, as palavras – eles trazem sempre uma melancolia junto, entremeada com um pensamento positivo. Acho que tem sempre um questionamento a respeito da nossa existência, desse vácuo. Embora a gente esteja fazendo as coisas assim, certas e positivas, tem sempre um vácuo, tem sempre um lado escuro, tem sempre um mistério a respeito da nossa existência por aqui, do trabalho que eu estou falando aqui, a respeito de uma paisagem da nossa própria existência, e eu não consigo dissociar a presença desse mistério do trabalho que eu tô falando aqui, a respeito de uma paisagem, a respeito de uma pessoa, a respeito de animais, de pássaros, a respeito de caminhos e rios.. Existe sempre por trás esse mistério maior e acho que daí vem essa melancolia. Eu associo mais a essa melancolia mesmo.


A gente vê o céu azul e fala “nossa que dia bonito, o céu azul com nuvens e tudo mais”, e sabemos que na verdade, por trás, existe um vácuo, um escuro infinito e absolutamente assustador, mas a gente não fica pensando muito nisso durante o dia a dia, mas tá ali, tá presente. É essa presença que faz parte dessa energia que eu coloco nos trabalhos, é uma energia de nós estarmos aqui vivos e batalhando e pensando sobre a realidade, sobre o que nós vemos, a relação entre as pessoas e tudo mais – e existe também essa presença maior de todos nós.

Vânia Mignone, Sem título, 2017. (Foto: Filipe Berndt)

Vânia Mignone, Sem título, 2017. (Foto: Filipe Berndt)

AA: Você está preparando uma exposição retrospectiva para este ano, certo? Poderia nos contar um pouco sobre o projeto?


VM: É uma retrospectiva grande que vai acontecer no Instituto Tomie Ohtake, tem mais de cem trabalhos e abrange um período que vai desde 2008/2007 até hoje. A curadora está amarrando os trabalhos com a música popular brasileira, que é uma das fontes da minha inspiração para fazer meu trabalho de artes visuais. A gente tá trazendo essa mistura de influências que eu tenho no meu trabalho, de outros meios de comunicação, como o cinema, como fotografia, como circo, como história em quadrinhos, a publicidade, o outdoor, a própria dança. A gente tá tentando mostrar todas essas influências nessa retrospectiva. A pulsação que eu gostaria de colocar é a pulsação da música popular brasileira, embora ele seja um trabalho de artes visuais. Partindo da música, a gente tenta mostrar todos esses outros aspectos, uma parte mais política, a relação entre pessoas, paisagens fantásticas… Mostrar um pouco de tudo amarrado pela pulsação da nossa música, é por aí!

Vânia Mignone, Sem título, 2017. (Foto: Filipe Berndt)

Vânia Mignone, Sem título, 2017. (Foto: Filipe Berndt)