Dez momentos em que a arte brasileira foi destaque no mundo – Parte 2

Confira momentos em que a arte brasileira brilhou no exterior
Em 2022, o sistema da arte nacional celebrou com júbilo o anúncio de que pela primeira vez um brasileiro, o carioca Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp, estaria à frente da curadoria da próxima Bienal de Veneza, mais importante e antiga bienal de arte do mundo. A nomeação trouxe à tona a crescente relevância e a influência de agentes e instituições artísticas do Brasil no cenário global da arte. De curadores e críticos a museus, institutos, feiras de arte e, não menos importante, artistas, dificilmente a presença da arte brasileira passa despercebida em terras estrangeiras.
Com o enorme sucesso da primeira lista dos dez momentos em que arte brasileira foi destaque no mundo (publicada em julho deste ano), e a partir de sugestões deixadas pelo público em nossas redes sociais, selecionamos mais uma dezena de vezes em que artistas nacionais manifestaram, lá fora, a originalidade e a inventividade características da produção artística visual do Brasil.
Iole de Freitas na Documenta de Kassel (2007)
Entre junho e setembro daquele ano, o faustoso Fridericianum – um dos primeiros museus públicos da Europa e um dos principais pontos expositivos da mostra quinquenal, que chegava a sua 12ª edição – cedia suas estruturas ao ímpeto escultórico de Iole de Freitas (1945). Das paredes de uma das salas do primeiro andar do edifício, extensos tubos de aço torcidos saltavam desordenadamente pelos ares do espaço. Chapas de policarbonato, ora transparentes ora translúcidas, acompanhavam as curvas do material metálico, arquitetando uma série de refúgios abertos que encapsulavam os corpos que por ali passavam. Não obstante, a instalação se estendia ao exterior do prédio. Na fachada, a criação de Iole serpenteava por entre janelas e colunas da edificação setecentista.
O trabalho dava continuidade a assuntos caros à produção da artista, como a relação corpo, obra de arte e espaço e as potencialidades estéticas da luz, tema presente desde suas primeiras criações foto e filmográficas durante a década de 1970. Em solo alemão, Iole unia estes dois interesses ao linguajar das tradições construtivistas brasileira e russa, compondo arquiteturas utópicas capazes de ampliar os modos de perceber, ver e se deslocar no espaço.

Vistas, interna e externa, da instalação de Iole de Freitas na Documenta 12

Vistas, interna e externa, da instalação de Iole de Freitas na Documenta 12
Rivane Neuenschwander no New Museum (2010)
O conceitualismo brasileiro iniciava o segundo decênio do século aclamado no Lower East Side, em Nova Iorque, com a retrospectiva de meio de carreira da mineira Rivane Neuenschwander (1967). A despeito de seu título, A Day Like Any Other [Um dia como qualquer outro], a mostra curada por Richard Flood propiciava uma jornada incomum aos visitantes: instalações, pinturas, vídeos e objetos que elevavam o banal e o cotidiano ao estatuto do extraordinário.
Dentre os trabalhos expostos, I Wish Your Wish [Eu desejo o seu desejo] (2003) conferia um tom cosmopolita à tradição brasileira em torno das fitinhas do Senhor do Bonfim. A instalação, com cerca de dez mil fitas de seda, exprimia desejos colhidos pela artista em projetos anteriores. Os espectadores eram convidados a retirar um exemplar de um dos furos da parede e no lugar deixavam tiras de papel com suas aspirações, alimentando um ciclo movido pelos impulsos do desejo. Essa dimensão cíclica do mundo também aparecia em Rain Rains [Chove Chuva] (2002), instalação imersiva composta por baldes de alumínio suspensos no ar. Deles, uma porção d’água gotejava lentamente sobre outros baldes apoiados no chão. A calculada chuva de Neuenschwander se estendia por quatro horas. Após isso, a equipe do museu reabastecia manualmente a fonte hídrica, colocando em evidência o caráter sisífico dos fenômenos da natureza e do trabalho humano.

Rivane Neuenschwander, "I Wish Your Wish", 2003.
Adriana Varejão no Institute of Contemporary Art de Boston (2014)
Pela primeira vez, uma exposição individual dedicada à produção da carioca Adriana Varejão (1964) era realizada em território estadunidense. A seleção das obras ficou a cargo da curadora Anna Stothart, que optou por organizar tematicamente um conjunto de trabalhos desenvolvidos a partir de 1993. Ao todo, 23 obras mostravam ao público bostoniano o interesse da artista em discutir como o longo processo de colonização deu forma ao que entendemos como povo brasileiro.
Na mostra, Varejão enfatizava um dos tópicos essenciais à compreensão do desenvolvimento sócio-histórico não somente da América Portuguesa mas também de outras porções do continente: o fator racial. Além dos famosos relevos feitos com referências à azulejaria lusitana – dos quais saltam vísceras e retalhos de matéria corpórea – o tema é abordado na série Polvos. Em uma das obras, Tintas Polvo (2013), 33 bisnagas preenchidas com diferentes tonalidades de tinta a óleo reforçam a complexidade das relações raciais no Brasil. O trabalho partia do censo de 1976, que pediu para que os participantes descrevessem sua própria cor de pele. “Café com leite”, “queimada de praia” e “burro quando foge” foram algumas das 136 variações captadas pela pesquisa, as quais foram apropriadas por Varejão em uma reflexão sobre a cor como linguagem e elemento identitário.

Vista da exposição de Adriana Varejão no ICA Boston

Adriana Varejão, "Tintas Polvo", da série "Polvo", 2013. (Foto: Olga Khvan)
Lygia Pape no Met Breuer (2017)
Novamente a carreira de uma artista nacional era pela primeira vez apreciada em uma mostra individual nos EUA. Com A Multitude of Forms [Uma infinidade de formas], o The Met Breuer, extinto filial de arte moderna e contemporânea do The Metropolitan Museum of Art, apresentava à Nova Iorque a liberdade criativa de Lygia Pape (1927-2004), um dos nomes mais influentes da arte brasileira da segunda metade do século 20. A exposição era composta por relevos, pinturas, fotografias, vídeos e performances, abrangendo as diferentes fases das cinco décadas de trajetória da artista.
As expressões neoconcretas de Pape não ficaram restritas às paredes do museu. Na ocasião, a Quinta Avenida serviu de palco para a reprodução de uma de suas performances: a icônica Divisor (1968). Um enorme tecido branco então perambulava por uma das principais artérias da cidade estadunidense. Seu movimento era pautado pelo andar dos espectadores que com ele interagiam, os quais encaixavam suas cabeças nas inúmeras fendas espalhadas no material têxtil. Para além do senso de coletividade, a obra acionava uma experiência estética totalizante, na qual eram desfeitas as fronteiras entre arte e vida cotidiana, a fim de que corpo, obra e meio urbano se tornassem uma só coisa.

Lygia Pape, "Divisor", 1968.
Cinthia Marcelle na 57ª Bienal de Veneza (2017)
Foi com a instalação Chão de caça (2017) que a mineira Cinthia Marcelle (1974) conquistou menção honrosa por parte do júri internacional da Bienal de Veneza, ao representar o Brasil em seu pavilhão na 57ª edição da mostra. “Um espaço enigmático e desequilibrado, no qual não podemos nos sentir seguros” era como a obra, que tinha curadoria do alemão Jochen Volz, havia sido percebida pelos especialistas.
De fato, era com o desconforto e com o perigo que Marcelle flertava nas duas galerias que compunham o pavilhão. Um piso inclinado feito com grades de ventilação soldadas, dessas típicas dos metrôs de grandes centros urbanos, ocupava todo o interior do espaço. Entre os vãos da estrutura gradeada, a artista inseriu pequenos seixos, os quais também agrupou em algumas extremidades da sala. Em um dos núcleos do trabalho, um conjunto de bastões fincados no chão deixavam suspensos fragmentos de um tecido branco. Em outro, uma tela reproduzia o vídeo Nau, feito com Tiago Mata Machado, em que homens com rostos cobertos desmontavam, de dentro para fora, um enorme telhado com peças de barro. Mais do que sugerir a possibilidade de fuga ou rebelião, o que Marcelle retratava na península itálica era o cenário incerto e desequilibrado no qual o Brasil adentrava.

Vistas de Cinthia Marcelle, "Chão de caça", 2017.

Tarsila do Amaral no MoMA (2018)
Mais uma vez uma das maiores representantes da arte novecentista brasileira era destaque em Nova Iorque. Em "Inventing Modern Art in Brazil" [Inventando a Arte Moderna no Brasil], a cidade norteamericana descobria o papel desempenhado pela paulista Tarsila do Amaral (1886-1973) na formulação de um fazer artístico estimulado por temas e narrativas tipicamente nacionais.
Os curadores Luis Pérez-Oramas, Stephanie D’Alessandro e Karen Grimson trabalharam criteriosamente para demonstrar não só a relevância da artista para o pensamento e imaginação de um Brasil moderno, mas também suas contribuições ao cânone da pintura internacional. Para tal, reuniram obras de coleções latinoamericanas, europeias e estadunidenses, levando aos espectadores pinturas, desenhos, sketchbooks, fotografias e documentos históricos que cobriam tanto a extensa produção artística de Tarsila quanto sua biografia. Trabalhos como "Abaporu" (1928) e "Antropofagia" (1929) exprimiam como figuras surreais e uma paleta de "azul puríssimo", "amarelo vivo" e "verde cantante", nas definições da própria artista, consolidam o processo de devoração e deglutição de culturas estrangeiras com o intuito de conceber um modelo cultural para o Brasil.

Vista de "Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil". Crédito: Robert Gerhardt/MoMA.
Burle Marx no Jardim Botânico de Nova York (2019)
Tratava-se da maior exposição até então realizada no New York Botanical Garden, no Bronx. "Brazilian Modern: The Living Art of Roberto Burle Marx" [Moderno Brasileiro: a arte viva de Roberto Burle Marx] demonstrava, nas diferentes áreas do extenso jardim, o compromisso de Burle Marx (1909-1944) com uma prática artística e arquitetônica ligada à preservação da natureza. Na seção "Explorer’s Garden" [Jardim do Explorador], plantas típicas de regiões de clima tropical, como o Brasil, conheciam as particularidades de terras temperadas. No "Water Garden" [Jardim Aquático], bromélias, palmeiras e uma parede de samambaias complementavam as pinturas, desenhos e tapeçarias exibidas em "Art of the Sitio" [Arte do Sítio], setor que homenageava o Sítio Roberto Burle Marx, importante instituição carioca.
Com raízes fincadas na tríade arquitetura-paisagismo-pintura, a mostra destacava como o artista uniu os anseios do modernismo brasileiro aos propósitos de um ambiente público ancorado nos princípios da conservação ambiental e da cidadania. Era o que ficava evidente na ala "Modernist Garden" [Jardim Modernista], projeto do arquiteto Raymond Jungles cujo desenho de piso se inspira nas curvas dos traçados do calçadão de Copacabana, uma das criações mais emblemáticas de Burle Marx.

Seção “Modernist Garden" da exposição. Crédito: cortesia de NYBG
Maxwell Alexandre no Palais de Tokyo (2021)
Corpos negros, sem rostos, e trajados de maneira elegante ocupavam os cubos brancos do Palais de Tokyo, em Paris, com "Novo Poder", exposição que apresentou, pela primeira vez, à capital francesa a produção do carioca Maxwell Alexandre (1990). A mostra exibia 42 trabalhos concebidos como desdobramento da bem estimada série "Pardo é Papel", os quais foram organizados pelo curador Hugo Vitrani. Com suas pinturas, Alexandre levava a um dos maiores centros de arte da Europa um conjunto de questionamentos acerca dos acessos de pessoas pretas aos tradicionais códigos e espaços artísticos.
Ao retratar, no papel pardo, seus personagens diante de telas e molduras, elementos simbólicos de uma história da arte racialmente branca e eurocentrada, Alexandre forjava uma exposição dentro da exposição. Na mostra por ele criada, as segregações sociais intrínsecas ao sistema da arte tinham suas estruturas subvertidas: crianças, jovens e idosos negros, agora em posição de poder, usufruem de seu direito à cultura e à arte, circulando livre e espontaneamente por espaços de prestígio historicamente restritos.

Vista de “New Power”. Crédito: Aurélien Mole/cortesia do artist e Palais de Tokyo.
Barbara Wagner e Benjamin de Burca no New Museum (2022)
Com "Five Times Brazil" [Cinco vezes Brasil], meia dezena de versões da cultura e da sociedade brasileiras eram anunciadas pela dupla Bárbara Wagner (1980) e Benjamin de Burca (1975) aos nova-iorquinos. A primeira retrospectiva dos artistas nos EUA, que contou com curadoria da estadunidense Margot Norton ao lado do brasileiro Bernardo Mosqueira, exibia no terceiro piso do New Museum um total de cinco filmes realizados a partir de 2015, em que se capturam ritmos, sons e costumes do país, mas também a turbulência sociopolítica enfrentada pela nação.
Nas projeções, era a multiplicidade dos modos de ser, agir e sentir de diferentes comunidades brasileiras que se propagava pelos ambientes do museu. Em "Faz que vai" (2015), o duo se aliava a quatro dançarinos pernambucanos em uma investigação sobre o lugar do Frevo frente às novas sonoridades na região. Já em "Estás vendo coisas" (2016) era o Brega recifense e suas manifestações que atraiam as lentes de Wagner e Burca. "Terremoto Santo" (2017) adentrava a seara do gospel de Pernambuco, sondando o dia a dia de jovens pastores e cantores de zonas rurais. Em "Swinguerra" (2019), que dois anos antes havia representado o Brasil na 58a Bienal de Veneza, competições de dança das periferias recifenses estão no foco do olhar da dupla. O quinto vídeo, "Fala da Terra" destacava práticas ativistas nacionais, como o Coletivo Banzeiros, que com membros do MTST demonstra a força da luta pela almejada reforma agrária e o tão desejado arrefecimento das disparidades sociais.

Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, still de "Faz que vai", 2015. Crédito: Bárbara Wagner & Benjamin de Burca/cortesia de Fortes D’Aloia & Gabriel
Claudia Andujar no The Shed (2023)
Após uma longa viagem com paradas no Instituto Moreira Salles (São Paulo), Fundação Cartier (Paris) e Barbican Centre (Londres), "The Yanomami Struggle" [A luta Yanomami], mostra com fotografias de Claudia Andujar (1931), desembarcava no centro cultural The Shed, em Nova Iorque, sob curadoria de Thyago Nogueira e orientação do Yanomami Davi Kopenawa. Na cidade, a exposição ganhou novos contornos, alargando sua extensão com mais 80 desenhos e pinturas, além de vídeos feitos por membros do grupo homenageado.
As obras se somavam às mais de duzentas fotografias de Andujar, artista que desde a década de 1970 utiliza suas lentes em prol da defesa dos povos indígenas Yanomami. Ampliando as perspectivas e narrativas presentes no trabalho da suíça naturalizada brasileira, o diálogo proposto entre a produção artística indígena e a extensa obra de Andujar consagrou, a nível internacional, a longa história de amizade e colaboração, bem como de luta e resistência, entre um dos maiores grupos indígenas da região amazônica e a fotógrafa nonagenária.

VIsta da instalação "The Yanomami Struggle", The Shed, New York. Crédito: Adam Reich/cortesia Fundação Cartier