Dez momentos em que a arte brasileira foi destaque no mundo

Dez momentos em que a arte brasileira foi destaque no mundo
É relativamente recente a inclusão do Brasil no mapa internacional das artes. O protagonismo das tradições europeias, que se estendeu até meados dos anos 1940, logo foi sucedido pela crescente influência estadunidense no cenário artístico global do pós-guerra. No entanto, seguindo o ritmo de integração econômica e cultural coordenado pelo processo de globalização, o que vemos a partir da década de 1970 é uma abertura em relação a expressões artísticas externas aos países centrais.
Dentre as causas desta mudança, a valorização de critérios estéticos no lugar do apelo à nacionalidade e o reconhecimento da legitimidade de práticas artísticas não-ocidentais trouxeram à tona a riqueza das produções latino-americanas, africanas, oceânicas e de muitas outras. É neste contexto que a arte brasileira passa a ter um trânsito maior no mundo, sendo recebida e aclamada por instituições de prestígio do sistema de arte global.
Nesta matéria, selecionamos dez momentos em que arte nacional foi destaque lá fora, irradiando a potência e a criatividade de nossos artistas ao exterior. O recorte, a partir dos anos 2000, coincide com o surgimento e consolidação da SP–Arte como espaço de intercâmbio artístico não apenas entre regiões brasileiras, mas também entre estas e o mercado internacional, inserindo o país no circuito global das feiras de arte.
Tunga no Musée du Louvre (2005)
Foi com a instalação “À la lumière des deux mondes” [À luz dos dois mundos] que o pernambucano Tunga (1952-2016) tornou-se o primeiro artista brasileiro a expor no icônico museu francês. Convidado pela instituição no contexto de uma mostra dedicada às representações de paisagens brasileiras nas telas do pintor holandês Frans Post (1612-1680), Tunga ocupou a famosa pirâmide do Louvre com um trabalho desconcertante.
Uma estrutura formada por bengalas, ganchos e tranças em fios de metal equilibrados por mecanismos de contrapeso é erguida no topo de uma coluna. Ao centro, um esqueleto decapitado repousa conectado aos dois extremos da instalação. De um lado, um conjunto de crânios em bronze e ouro pairam no ar. Do outro, cabeças retiradas dos depósitos estatuários do museu são engolidas pelas fibras dos trançados. O que Tunga faz é esgarçar os simbolismos ligados à luz e às noções de civilização com o intuito de acionar as funestas relações que marcaram o encontro entre velho e novo mundo, ditando o ritmo da descompassada dança macabra daí resultante.

Tunga, “À la lumière des deux mondes”, 2005. (Foto: Agnut Studio)

Ernesto Neto no Panthéon (2006)
No ano seguinte, era a vez do carioca Ernesto Neto (1964) chamar a atenção dos quarteirões parisienses com a monumental instalação “Léviathan Thot”, montada no saguão do Panthéon, importante prédio da cidade. A obra, comissionada pelo Ministério da Cultura francês, inaugurava a 35º edição do Festival de Outono de Paris. Do teto do edifício, que abriga os túmulos de nomes como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e Victor Hugo (1802-1885), despencam gigantescas estruturas de poliamida transparente preenchidas com bolinhas de isopor, areia e lavanda.
Neto dá forma ao corpo do monstro Leviatã – criatura bíblica mencionada no livro de Jó e também usada como metáfora do Estado absolutista no pensamento político de Thomas Hobbes (1588-1679) – ao qual o artista atribui os poderes de Thot, deus do conhecimento na mitologia egípcia. Estrutura arquitetônica e corpo escultórico são aqui postos em embate físico. O mesmo acontece com os binômios passado e presente, histórico e contemporâneo ou mesmo cultura e natureza, os quais passam a se confrontar nos limites do espaço ocupado pelas formas orgânicas de Neto.

Vista de Ernesto Neto, “Léviathan Thot”, 2006
Hélio Oiticica na Tate Modern (2007)
Ainda na primeira década do milênio, a obra do carioca Hélio Oiticica (1937-1980) voltava a ser prestigiada em Londres – local onde havia se exilado no final dos anos 1960 – com a exposição “The Body of Colour” [O corpo da cor]. Tratava-se da primeira retrospectiva de um brasileiro na Tate Modern e da primeira grande mostra de Oiticica na capital inglesa desde 1969. A influência da cidade no desenvolvimento de suas concepções tropicalistas contribuiu ainda mais para a recepção positiva por parte da crítica britânica.
As obras mostravam a habilidosa capacidade de Oiticica em dar vida às cores, libertando-as no espaço, tendo a curadora porto-riquenha Mari Carmen Ramírez como a responsável pela organização dos mais de 150 trabalhos apresentados. Entre exemplares dos “Metaesquemas”, “Bólides” e “Parangolés”, a mostra contou com “Tropicália” (1967), instalação habitável composta por areia, pedras, papagaios vivos e tecidos estampados, adquirida pela Tate Modern no contexto da exposição.

Detalhe de Hélio Oiticica, “Tropicália”, 1967. (Foto: Tate Modern)
Cildo Meireles na Tate Modern (2008)
Na virada de 2008 para 2009, a Tate Modern abria mais uma vez suas portas para um artista brasileiro, desta vez o carioca Cildo Meireles (1948), que adentrou as espaçosas galerias do museu com cerca de oitenta obras em dimensões contrastantes. Era o fascínio de Meireles pela escala e pela experiência multissensorial que estava em foco na mostra, a qual reuniu objetos cujas proporções iam do tamanho de um pequeno anel a instalações de 225 m².
“Babel” (2001), torre formada por centenas de aparelhos de rádios em variados estilos e sintonizados em diferentes estações, foi uma das obras selecionadas pelos curadores Vicent Todolí, então diretor do museu, Gui Brett e Amy Dickson para compor a mostra que iniciaria o que imprensa brasileira chamou de “mês Cildo” – uma série de eventos em torno do artista que incluiu a exibição da instalação “Ocasião” (1974-2004) no Chelsea College of Arts e uma versão da obra “Malhas da Liberdade”, também apresentada na Tate.

Vista e detalhe de Cildo Meireles, “Babel”, 2001. (Foto: Tate Modern)

Anna Maria Maiolino na Documenta de Kassel (2012)
A arte brasileira ocupava mais uma vez o centro das atenções internacionais, agora em solo alemão, com a participação da artista ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino (1942) na 13º edição da Documenta. Convidada pela diretora artística da mostra, a curadora nova iorquina Carolyn Christov-Bakargiev, a artista transformou uma casinha de jardineiro dos arredores do parque Karlsaue, em Kassel, em uma instalação site specific na qual argila modelada, aromas e sons convidavam os visitantes ao deleite da temporalidade doméstica.
“Here and There” [Aqui e Lá] ocupava toda a extensão da casa, do porão ao sótão, ligando os móveis e os objetos do espaço a centenas de pequenas estruturas padronizadas, vídeos e poemas declamados por gravações. Na obra, rolinhos feitos com poucos gestos manuais, porém intensamente repetidos, habitam e se reproduzem no interior da residência, sugerindo o constante refazer-se do labor doméstico na vida cotidiana.

Detalhe de Anna Maria Maiolino, “Here and There”, 2012
Lygia Clark no MoMA (2014)
Com “Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948–1988”, pela primeira vez a trajetória artística deste grande nome da arte neoconcreta brasileira era objeto de uma retrospectiva em um país da América do Norte. A mostra levou à cidade de Nova Iorque trezentos trabalhos da artista mineira, os quais cobriam as diferentes fases de Clark (1920-1988) em suas quatro décadas de produção artística. Luiz Pérez-Oramas, então curador de arte latino-americana do MoMA, esteve à frente da curadoria juntamente com Connie Butler, que na época atuava no Hammer Museum, em Los Angeles.
Três grandes temas conduziram a exposição: no eixo “abstração”, pinturas e desenhos das décadas de 1940 e 1950 mostravam como a moldura fora incorporada enquanto elemento plástico nas telas da artista. Já no núcleo “neoconcretismo”, as esculturas manipuláveis da década de 1960, das quais fazem parte a icônica série “Bichos”, revelavam a importância dada à interação do público com as obras. O terceiro segmento tratava do “abandono” da arte expresso nos anos finais da carreira de Clark, momento em que a artista se dedica às propriedades terapêuticas das experiências sensoriais e passa a desconsiderar seu trabalho dentro do escopo artístico.

Vista da exposição "Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948–1988”, no MoMA, 2014. (Foto: MoMA)
Beatriz Milhazes no Inujima Seirensho Art Museum (2018)
Em novembro daquele ano, a potência da arte brasileira era sentida no Extremo Oriente com a escultura “Yellow Flower Dream” [Flor Amarela dos Sonhos], obra criada pela carioca Beatriz Milhazes (1960) em um dos espaços do Inujima Seirensho Art Museum, museu a céu aberto localizado na Ilha de Inujima, no Japão.
A intervenção ocupou a galeria A-Art House, um dos cinco ambientes projetados pela arquiteta Kazuyo Sejima junto à diretora artística Yoko Hasegawa, cujas estruturas se organizam no formato de uma flor. O amarelo vibrante das bases tornava inconfundível a assinatura de Milhazes, a qual inseriu dezessete painéis de vidro revestidos com vinil adesivo nos vértices de cada pétala. A partir dessas superfícies, suas complexas formas geométricas, seus arabescos e suas famosas figuras florais se estenderam para todo o entorno da ilha, embalando com um dinamismo óptico e vitalidade cromática a natureza e os habitantes da região.

Beatriz Milhazes, “Yellow Flower Dream”, 2018
Jac Leirner no Museum Ludwig (2019)
Com os objetos coletados e ressignificados pela paulistana Jac Leirner (1961), a arte brasileira terminava o segundo decênio do século com muita pompa no circuito artístico mundial. Na abertura de sua retrospectiva no Museum Ludwig, na cidade de Colônia, Alemanha, Leirner foi aclamada com o prêmio Wolfgang Hahn, sendo a primeira artista sul-americana a receber da Gesellschaft für Moderne Kunst [Sociedade de Arte Moderna] esta gratificação.
Na mostra, o conceitualismo de Leirner e suas reflexões sobre os imbricamentos dos sistemas artístico, museológico e industrial eram colocados em evidência. Com esculturas construídas por colagens e instalações ready made – como “Museum Bags” (1985-2019) [Bolsas de Museu], obra composta por uma reunião de sacolas de diversas instituições museais, a qual passou a compor a coleção permanente do museu –, a artista questiona o estatuto da obra de arte, sua relação com o consumo e sua presença no dia a dia.

Vista da exposição “Jac Leirner”, no Museum Ludwig, 2019 (Foto: Museum Ludwig)
Janaina Tschäpe no Musée de l’Orangerie (2020)
Era a vez de Janaina Tschäpe (1973), artista alemã criada no Brasil, representar a produção artística nacional em uma instituição francesa. Seu vocabulário orgânico próprio da gramática natural dos vegetais e minerais foi escolhido pelo Musée de l’Orangerie, museu voltado às vertentes artísticas impressionistas e pós-impressionistas, para compor uma exposição dentro do programa Contemporary Counterpoint [Contraponto contemporâneo].
Para o projeto, que busca contrapor perspectivas artísticas contemporâneas à série pictórica “Nenúfares”, de Claude Monet (1840-1926), a artista apresentou um conjunto de desenhos e a videoinstalação “Blood, Sea”. As obras, que tinham a água e paisagens naturais como tônicas, propunham uma contemplação da natureza à la Monet (1840-1926), inspirando-se nos cadernos de rascunho do pintor e nos registros de suas observações do lago de Giverny.

Frames de Janaina Tschäpe “Blood, Sea”, 2007

Jaider Esbell na Biennale di Venezia (2022)
A última Bienal de Veneza também colocou o Brasil em posição de destaque no cenário da arte internacional. Com a maior presença de brasileiros em anos, a 59º edição da mostra, intitulada “The Milk of Dreams” [O leite dos sonhos], tinha o artista Jaider Esbell (1979-2021), indígena da etnia Makuxi, entre os 213 nomes das 58 nações participantes.
Era inédita a exibição de um artista indígena brasileiro na tradicional mostra italiana e foi com suas coloridas telas – dentre as quais as da notável série “Transformação/Ressurgência de Makunaimî” (2018), onde frutas, pássaros e variadas texturas conformam seres antropomórficos – que o legado de Esbell foi honrado no Corderie, espaço ao sul do importante salão Arsenale.

Jaider Esbell, da série “Transformação/Ressurgência de Makunaimî", 2018