Dez momentos em que a arte brasileira foi destaque no mundo

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Yan Catuaba

25 jul 2023

Acima: Detalhe de Ernesto Neto, “Léviathan Thot”, 2006.

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Dez momentos em que a arte brasileira foi destaque no mundo

É relativamente recente a inclusão do Brasil no mapa internacional das artes. O protagonismo das tradições europeias, que se estendeu até meados dos anos 1940, logo foi sucedido pela crescente influência estadunidense no cenário artístico global do pós-guerra. No entanto, seguindo o ritmo de integração econômica e cultural coordenado pelo processo de globalização, o que vemos a partir da década de 1970 é uma abertura em relação a expressões artísticas externas aos países centrais.


Dentre as causas desta mudança, a valorização de critérios estéticos no lugar do apelo à nacionalidade e o reconhecimento da legitimidade de práticas artísticas não-ocidentais trouxeram à tona a riqueza das produções latino-americanas, africanas, oceânicas e de muitas outras. É neste contexto que a arte brasileira passa a ter um trânsito maior no mundo, sendo recebida e aclamada por instituições de prestígio do sistema de arte global.


Nesta matéria, selecionamos dez momentos em que arte nacional foi destaque lá fora, irradiando a potência e a criatividade de nossos artistas ao exterior. O recorte, a partir dos anos 2000, coincide com o surgimento e consolidação da SP–Arte como espaço de intercâmbio artístico não apenas entre regiões brasileiras, mas também entre estas e o mercado internacional, inserindo o país no circuito global das feiras de arte.



Tunga no Musée du Louvre (2005)

Foi com a instalação “À la lumière des deux mondes” [À luz dos dois mundos] que o pernambucano Tunga (1952-2016) tornou-se o primeiro artista brasileiro a expor no icônico museu francês. Convidado pela instituição no contexto de uma mostra dedicada às representações de paisagens brasileiras nas telas do pintor holandês Frans Post (1612-1680), Tunga ocupou a famosa pirâmide do Louvre com um trabalho desconcertante.


Uma estrutura formada por bengalas, ganchos e tranças em fios de metal equilibrados por mecanismos de contrapeso é erguida no topo de uma coluna. Ao centro, um esqueleto decapitado repousa conectado aos dois extremos da instalação. De um lado, um conjunto de crânios em bronze e ouro pairam no ar. Do outro, cabeças retiradas dos depósitos estatuários do museu são engolidas pelas fibras dos trançados. O que Tunga faz é esgarçar os simbolismos ligados à luz e às noções de civilização com o intuito de acionar as funestas relações que marcaram o encontro entre velho e novo mundo, ditando o ritmo da descompassada dança macabra daí resultante.

Tunga, “À la lumière des deux mondes”, 2005. (Foto: Agnut Studio)

Tunga, “À la lumière des deux mondes”, 2005. (Foto: Agnut Studio)

Ernesto Neto no Panthéon (2006)

No ano seguinte, era a vez do carioca Ernesto Neto (1964) chamar a atenção dos quarteirões parisienses com a monumental instalação “Léviathan Thot”, montada no saguão do Panthéon, importante prédio da cidade. A obra, comissionada pelo Ministério da Cultura francês, inaugurava a 35º edição do Festival de Outono de Paris. Do teto do edifício, que abriga os túmulos de nomes como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e Victor Hugo (1802-1885), despencam gigantescas estruturas de poliamida transparente preenchidas com bolinhas de isopor, areia e lavanda.


Neto dá forma ao corpo do monstro Leviatã – criatura bíblica mencionada no livro de Jó e também usada como metáfora do Estado absolutista no pensamento político de Thomas Hobbes (1588-1679) – ao qual o artista atribui os poderes de Thot, deus do conhecimento na mitologia egípcia. Estrutura arquitetônica e corpo escultórico são aqui postos em embate físico. O mesmo acontece com os binômios passado e presente, histórico e contemporâneo ou mesmo cultura e natureza, os quais passam a se confrontar nos limites do espaço ocupado pelas formas orgânicas de Neto.

Vista de Ernesto Neto, “Léviathan Thot”, 2006

Vista de Ernesto Neto, “Léviathan Thot”, 2006

Hélio Oiticica na Tate Modern (2007)

Ainda na primeira década do milênio, a obra do carioca Hélio Oiticica (1937-1980) voltava a ser prestigiada em Londres – local onde havia se exilado no final dos anos 1960 – com a exposição “The Body of Colour” [O corpo da cor]. Tratava-se da primeira retrospectiva de um brasileiro na Tate Modern e da primeira grande mostra de Oiticica na capital inglesa desde 1969. A influência da cidade no desenvolvimento de suas concepções tropicalistas contribuiu ainda mais para a recepção positiva por parte da crítica britânica.


As obras mostravam a habilidosa capacidade de Oiticica em dar vida às cores, libertando-as no espaço, tendo a curadora porto-riquenha Mari Carmen Ramírez como a responsável pela organização dos mais de 150 trabalhos apresentados. Entre exemplares dos “Metaesquemas”, “Bólides” e “Parangolés”, a mostra contou com “Tropicália” (1967), instalação habitável composta por areia, pedras, papagaios vivos e tecidos estampados, adquirida pela Tate Modern no contexto da exposição.

Detalhe de Hélio Oiticica, “Tropicália”, 1967. (Foto: Tate Modern)

Detalhe de Hélio Oiticica, “Tropicália”, 1967. (Foto: Tate Modern)

Cildo Meireles na Tate Modern (2008)

Na virada de 2008 para 2009, a Tate Modern abria mais uma vez suas portas para um artista brasileiro, desta vez o carioca Cildo Meireles (1948), que adentrou as espaçosas galerias do museu com cerca de oitenta obras em dimensões contrastantes. Era o fascínio de Meireles pela escala e pela experiência multissensorial que estava em foco na mostra, a qual reuniu objetos cujas proporções iam do tamanho de um pequeno anel a instalações de 225 m².


“Babel” (2001), torre formada por centenas de aparelhos de rádios em variados estilos e sintonizados em diferentes estações, foi uma das obras selecionadas pelos curadores Vicent Todolí, então diretor do museu, Gui Brett e Amy Dickson para compor a mostra que iniciaria o que imprensa brasileira chamou de “mês Cildo” – uma série de eventos em torno do artista que incluiu a exibição da instalação “Ocasião” (1974-2004) no Chelsea College of Arts e uma versão da obra “Malhas da Liberdade”, também apresentada na Tate.

Vista e detalhe de Cildo Meireles, “Babel”, 2001. (Foto: Tate Modern)

Vista e detalhe de Cildo Meireles, “Babel”, 2001. (Foto: Tate Modern)

Anna Maria Maiolino na Documenta de Kassel (2012)

A arte brasileira ocupava mais uma vez o centro das atenções internacionais, agora em solo alemão, com a participação da artista ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino (1942) na 13º edição da Documenta. Convidada pela diretora artística da mostra, a curadora nova iorquina Carolyn Christov-Bakargiev, a artista transformou uma casinha de jardineiro dos arredores do parque Karlsaue, em Kassel, em uma instalação site specific na qual argila modelada, aromas e sons convidavam os visitantes ao deleite da temporalidade doméstica.


“Here and There” [Aqui e Lá] ocupava toda a extensão da casa, do porão ao sótão, ligando os móveis e os objetos do espaço a centenas de pequenas estruturas padronizadas, vídeos e poemas declamados por gravações. Na obra, rolinhos feitos com poucos gestos manuais, porém intensamente repetidos, habitam e se reproduzem no interior da residência, sugerindo o constante refazer-se do labor doméstico na vida cotidiana.

Detalhe de Anna Maria Maiolino, “Here and There”, 2012

Detalhe de Anna Maria Maiolino, “Here and There”, 2012

Lygia Clark no MoMA (2014)

Com “Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948–1988”, pela primeira vez a trajetória artística deste grande nome da arte neoconcreta brasileira era objeto de uma retrospectiva em um país da América do Norte. A mostra levou à cidade de Nova Iorque trezentos trabalhos da artista mineira, os quais cobriam as diferentes fases de Clark (1920-1988) em suas quatro décadas de produção artística. Luiz Pérez-Oramas, então curador de arte latino-americana do MoMA, esteve à frente da curadoria juntamente com Connie Butler, que na época atuava no Hammer Museum, em Los Angeles.


Três grandes temas conduziram a exposição: no eixo “abstração”, pinturas e desenhos das décadas de 1940 e 1950 mostravam como a moldura fora incorporada enquanto elemento plástico nas telas da artista. Já no núcleo “neoconcretismo”, as esculturas manipuláveis da década de 1960, das quais fazem parte a icônica série “Bichos”, revelavam a importância dada à interação do público com as obras. O terceiro segmento tratava do “abandono” da arte expresso nos anos finais da carreira de Clark, momento em que a artista se dedica às propriedades terapêuticas das experiências sensoriais e passa a desconsiderar seu trabalho dentro do escopo artístico.

Vista da exposição "Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948–1988”, no MoMA, 2014. (Foto: MoMA)

Vista da exposição "Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948–1988”, no MoMA, 2014. (Foto: MoMA)

Beatriz Milhazes no Inujima Seirensho Art Museum (2018)

Em novembro daquele ano, a potência da arte brasileira era sentida no Extremo Oriente com a escultura “Yellow Flower Dream” [Flor Amarela dos Sonhos], obra criada pela carioca Beatriz Milhazes (1960) em um dos espaços do Inujima Seirensho Art Museum, museu a céu aberto localizado na Ilha de Inujima, no Japão.


A intervenção ocupou a galeria A-Art House, um dos cinco ambientes projetados pela arquiteta Kazuyo Sejima junto à diretora artística Yoko Hasegawa, cujas estruturas se organizam no formato de uma flor. O amarelo vibrante das bases tornava inconfundível a assinatura de Milhazes, a qual inseriu dezessete painéis de vidro revestidos com vinil adesivo nos vértices de cada pétala. A partir dessas superfícies, suas complexas formas geométricas, seus arabescos e suas famosas figuras florais se estenderam para todo o entorno da ilha, embalando com um dinamismo óptico e vitalidade cromática a natureza e os habitantes da região.

Beatriz Milhazes, “Yellow Flower Dream”, 2018

Beatriz Milhazes, “Yellow Flower Dream”, 2018

Jac Leirner no Museum Ludwig (2019)

Com os objetos coletados e ressignificados pela paulistana Jac Leirner (1961), a arte brasileira terminava o segundo decênio do século com muita pompa no circuito artístico mundial. Na abertura de sua retrospectiva no Museum Ludwig, na cidade de Colônia, Alemanha, Leirner foi aclamada com o prêmio Wolfgang Hahn, sendo a primeira artista sul-americana a receber da Ge­sellschaft für Mod­erne Kunst [Sociedade de Arte Moderna] esta gratificação.


Na mostra, o conceitualismo de Leirner e suas reflexões sobre os imbricamentos dos sistemas artístico, museológico e industrial eram colocados em evidência. Com esculturas construídas por colagens e instalações ready made – como “Museum Bags” (1985-2019) [Bolsas de Museu], obra composta por uma reunião de sacolas de diversas instituições museais, a qual passou a compor a coleção permanente do museu –, a artista questiona o estatuto da obra de arte, sua relação com o consumo e sua presença no dia a dia.

Vista da exposição “Jac Leirner”, no Museum Ludwig, 2019 (Foto: Museum Ludwig)

Vista da exposição “Jac Leirner”, no Museum Ludwig, 2019 (Foto: Museum Ludwig)

Janaina Tschäpe no Musée de l’Orangerie (2020)

Era a vez de Janaina Tschäpe (1973), artista alemã criada no Brasil, representar a produção artística nacional em uma instituição francesa. Seu vocabulário orgânico próprio da gramática natural dos vegetais e minerais foi escolhido pelo Musée de l’Orangerie, museu voltado às vertentes artísticas impressionistas e pós-impressionistas, para compor uma exposição dentro do programa Contemporary Counterpoint [Contraponto contemporâneo].


Para o projeto, que busca contrapor perspectivas artísticas contemporâneas à série pictórica “Nenúfares”, de Claude Monet (1840-1926), a artista apresentou um conjunto de desenhos e a videoinstalação “Blood, Sea”. As obras, que tinham a água e paisagens naturais como tônicas, propunham uma contemplação da natureza à la Monet (1840-1926), inspirando-se nos cadernos de rascunho do pintor e nos registros de suas observações do lago de Giverny.

Frames de Janaina Tschäpe “Blood, Sea”, 2007

Frames de Janaina Tschäpe “Blood, Sea”, 2007

Jaider Esbell na Biennale di Venezia (2022)

A última Bienal de Veneza também colocou o Brasil em posição de destaque no cenário da arte internacional. Com a maior presença de brasileiros em anos, a 59º edição da mostra, intitulada “The Milk of Dreams” [O leite dos sonhos], tinha o artista Jaider Esbell (1979-2021), indígena da etnia Makuxi, entre os 213 nomes das 58 nações participantes.


Era inédita a exibição de um artista indígena brasileiro na tradicional mostra italiana e foi com suas coloridas telas – dentre as quais as da notável série “Transformação/Ressurgência de Makunaimî” (2018), onde frutas, pássaros e variadas texturas conformam seres antropomórficos – que o legado de Esbell foi honrado no Corderie, espaço ao sul do importante salão Arsenale.

Jaider Esbell, da série “Transformação/Ressurgência de Makunaimî", 2018

Jaider Esbell, da série “Transformação/Ressurgência de Makunaimî", 2018