Design voltado para a economia circular

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Regina Galvão

04 abr 2024

Acima: Design voltado para a economia circular

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Em editorial, Regina Galvão fala sobre produtos e ações têm o propósito de buscar o bem-estar do planeta


A primeira vez que deparei com o conceito da sustentabilidade foi em 2003, quando a redação de Casa Claudia, revista na qual eu trabalhava, organizou o Prêmio Planeta Casa, com o intuito de valorizar iniciativas e ações sustentáveis no segmento da arquitetura e do design.


Naquela época, sustentabilidade era um assunto pouco abordado pela imprensa e ainda menos uma prática empregada nas empresas brasileiras. Havia, porém, quem já estivesse atento a importância de se mostrar sustentável ambientalmente e socialmente, por isso, surgiu o desejo de enaltecer quem se empenhava em construir um mundo mais saudável e consciente, podendo, assim, incentivar mais pessoas a serem agentes de transformação.


Com o passar dos anos, acompanhei o aumento do interesse pelo tema na mesma proporção que fui vendo os desastres naturais afetarem significativamente o planeta. Secas, enchentes, calor excessivo, epidemias, queimadas… Nunca o mundo assistiu a tantos infortúnios como os da última década nem ouviu tantos alertas sobre as trágicas consequências provocadas pela crise climática.

Exposição "Tátil" na SP–Arte 2024. Foto: Cauê Ito/SP–Arte

Exposição "Tátil" na SP–Arte 2024. Foto: Cauê Ito/SP–Arte

Em 2021, ao visitar o Salão do Móvel, em Milão, me surpreendi com as marcas italianas fazendo questão de incluir em seus releases de lançamentos de produto, entregues aos jornalistas, como reaproveitariam os materiais dos estandes após o evento. Realmente aquela informação era uma novidade a ser propagada.


Apesar de certos avanços nessa questão em alguns setores da economia, sabemos que estamos longe de alcançar um desenvolvimento que proporcione sociedades mais justas e não afete os recursos naturais para as gerações futuras. Há muito a se fazer, é verdade, mas é certo também que existe um movimento crescente, motivado por diversos setores, como governos, fundações, empresas e organizações civis, para mudar o cenário atual que nos revela um destino ameaçador.


Vale aqui ressaltar a mudança de posicionamento do consumidor ao longo desses anos. A exigência por itens mais éticos, que se baseiam nos princípios da sustentabilidade: o social, o ambiental e o econômico, tornou-se essencial para a conscientização da importância de adotar ações sustentáveis pelo mercado.

Estande Novidário na SP–Arte 2024. Cauê Ito/SP–Arte

Estande Novidário na SP–Arte 2024. Cauê Ito/SP–Arte

Na área em que eu atuo, como jornalista do segmento de arquitetura e decoração, vejo cada vez mais exemplos de empresários a pesquisar soluções que promovem a conservação de recursos e energia e representem novos modelos de negócio.


Na SP–Arte, que inicia hoje para convidados, há vários exemplos a serem citados, como o da Novidário, empresa paulistana fundada há 14 anos e dirigida pela arquiteta Luciana Sobral e o designer José Machado. Determinados a implementar um modelo de economia circular desde o projeto inicial dos produtos, a dupla não poupou esforços para encontrar matérias-primas recicladas para a aplicação em móveis de escala industrial.


Além de placas ecológicas confeccionadas a partir de resíduos industriais de tubos de pasta de dente, empregadas na linha de área externa Jataí Solar, eles passaram a usar placas produzidas a partir da reciclagem de tampas de plástico, nomeadas Lynx, por causa da aparência que remete a constelações estelares.

Linha Trilha, da Novidário. Foto: Luiza Langeani

Linha Trilha, da Novidário. Foto: Luiza Langeani

No evento deste ano, a Novidário lança os tapetes modulares e costumizáveis Mapa, confeccionados com resíduos de garrafa PET, e a linha Trilha, composta de banco, feito com descarte de cadeira plástica de bar empilhável; poltrona, de sacolinhas plásticas, e mesa, de tampas de garrafas PET e de leite. A cadeira Pipa se origina a partir de tampas de xampus e cosméticos. Já a mesa Pic Nic, a partir de potes plásticos de cozinha.


Nos corredores do pavilhão da Bienal, a marca distribuiu cinco coletores de tampas plásticas que, posteriormente, servirão como matéria-prima para os lançamentos do próximo ano. “Nós, designers, criamos o problema do lixo. José e eu nos sentíamos incomodados com isso e decidimos buscar soluções que pudessem ajudar a resolver essa questão. É um grande desafio e uma aposta nossa no mobiliário de áreas de convivência que fabricamos”, afirma Luciana.


Em outra proposta inovadora, a fachada da SP–Arte na entrada do Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, recebe uma instalação de 50 m² feita com faixas de lã de PET reciclado, material leve e super-resistente que fez uso de 31.500 garrafas plásticas. O projeto é assinado pelo Superlimão Estúdio, que estende a proposta sustentável ao seu estande.

Instalação de 50 m² feita com faixas de lã de PET reciclado na fachada da SP–Arte 2024. Foto: Amanda Camera/SP–Arte

Instalação de 50 m² feita com faixas de lã de PET reciclado na fachada da SP–Arte 2024. Foto: Amanda Camera/SP–Arte

O trio de arquitetos apresenta a exposição “Reflexos”, formada por esculturas luminosas. Painéis modulares de PET em formato de casulo, compostos por 9.016 garrafas, também fornecidos pela Trisoft, uma das patrocinadoras da feira. “Esse é um material não só reciclado como reciclável, o que faz muito sentido em uma exposição temporária. Vamos aproveitá-lo depois da feira, estendendo o ciclo de vida do material e evitando que se torne resíduo”, diz o arquiteto e engenheiro Lula Gouveia, um dos sócios do Superlimão. Como a Novidário, a Trisoft terá coletores, distribuídos pelo edifício, para descartar as garrafas PET consumidas durante o evento.


No rol dos materiais reciclados presentes na SP–Arte, está a lã da ovelha descartada pela ovinocultura dos pampas gaúchos, por não atender o nível de qualidade na confecção de vestuário. A matéria-prima, sem tingimento ou clareamento químico, está presente na coleção de sofá, poltrona e banco assinados pela espanhola Patricia Urquiola para a marca Etel.


Resetar a Modernidade, Reinstituir a Natureza é o tema da empresa, que exibe outro grande destaque: as peças do Studio MK27, dos arquitetos Marcio Kogan e Diana Radomysler, como espelhos, banco e mesa de xadrez, desenhados a partir da provocação de incorporar os fragmentos de madeira da produção da marcenaria Etel, e ao mesmo tempo incorporar materiais nobres e naturais com a crina de cavalo presente nas molduras dos espelhos. As peças refletem a inquietação e a busca por soluções para o descarte, as sobras e os resíduos de pouco ou nenhum valor comercial nos processos industriais tradicionais.

Poltrona urquiola presente no estande da Etel. Foto: Ruy Teixeira

Poltrona urquiola presente no estande da Etel. Foto: Ruy Teixeira

No estande da d.Propósito, de São Paulo, materiais outrora descartados – madeira, taipa, plástico reciclado, resíduos audiológicos, automotivos e palha – transformam-se em produtos impulsionado pelo propósito ambiental da galeria, que resgata esses elementos e os eleva à categoria de peças artísticas.


O designer Valter Costa Lima, um dos sócios da empresa, apresenta duas novidades: a poltrona e a cadeira Aruanã, produzidas com madeira certificada e palha trançada por artesãos cearenses. Já Fabia Toqueti Pace lança uma coleção de bancos feito em parceria com o designer Bruno Camarotti, sempre explorando o significado e a essência dos materiais. Sofia Venetucci também levará uma peça para o espaço, cujo material protagonista é a palha de carnaúba, retirada e trançada por artesãos do Ceará, o que não apenas valoriza uma cultura ancestral como também fomenta a economia local, elevando a renda da comunidade.


“Surgimos do ímpeto de reunir artistas e designers que trabalham com propósito. Queremos estimular outros a pensar soluções regenerativas e apresentar, não só ao consumidor, mas também aos players e empresas, como o design e a arte podem contribuir para resolver os problemas sociais e ambientais que enfrentamos”, conclui Fabia, fundadora da galeria.

Poltrona Aruanã da marca d.Propósito. Foto: Reinaldo Ortlieb

Poltrona Aruanã da marca d.Propósito. Foto: Reinaldo Ortlieb