Das radiografias visuais africanas na SP–Arte

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Janaina Machado

04 nov 2026

Acima: "Circus fever, the story of the hummingbird" (2022), Austin Uzor (Foto: Maât Gallery)

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Saiba mais sobre a arte africana contemporânea através de galerias estreantes na SP–Arte

A tradicional feira de arte de São Paulo, mais conhecida como SP–Arte, chega a sua 19ª edição firmando seu compromisso com a difusão das artes visuais. Compreende-se que a importância da SP–Arte na divulgação do cenário artístico contemporâneo diz respeito não apenas a apresentação do panorama da arte global, mas também na missão de visibilizar a produção artística nacional.


Neste sentido, a feira configura-se como uma espécie de raio-x da multiplicidade das produções artísticas que têm movimentado a cena contemporânea na encruzilhada entre as criações locais e internacionais. Por este viés, pensar no teor de difusor da SP–Arte no contexto artístico leva-nos a vislumbrar as articulações éticas, estéticas e as narrativas visuais propostas por diferentes comunidades artísticas, que podem se entrecruzar ou não em relação aos assuntos, temáticas, abordagens e metodologias visuais.


Ao mencionar esse espaço de encruzilhada, especificamente, chamo a atenção para a produção artística de autoria negra, isto é, as criações artísticas dos artistas da diáspora brasileira e as produções dos artistas africanos que nesta edição da SP-Arte estão representados pelas galerias internacionais Nil Gallery e a Maât Gallery, ambas baseadas em Paris e estreantes no evento.

"Ele é dono do meu destino até o fim" (2022), Jaime Lauriano (Imagem: galeria Nara Roesler)

"Ele é dono do meu destino até o fim" (2022), Jaime Lauriano (Imagem: galeria Nara Roesler)

"Soldados" (2006), Rosana Paulino (Imagem: Mendes Wood DM)

"Soldados" (2006), Rosana Paulino (Imagem: Mendes Wood DM)

É válido dizer que a presença dessas galerias internacionais que têm se dedicado a difundir a produção contemporânea africana que é tão diversa e pulsante no contexto global reforça a importância de nos colocarmos em relação à fruição e as partilhas propostas por outros repertórios sensíveis e estéticos a partir de outras referências política e étnico-culturais.


Compreendendo que a arte como forma de conhecimento é também um fenômeno político, no âmbito da produção artística de autoria negra brasileira contemporânea percebemos uma criação artística que se ocupa em provocar debates críticos, políticos e estéticos que tornam inteligíveis as discussões engajadas nos circuitos tradicionais dessas pautas.


Dito de outra maneira, a produção artística de autoria negra que se ocupa na elaboração de discursos visuais em torno do debate das relações étnico-raciais e dos assuntos críticos-reflexivos pertinentes à contemporaneidade do ponto de vista da experiência social da diáspora negra expressa e evidencia de uma certa maneira uma espécie de radiografia social sobre o mundo. Ou seja, chamar a atenção para essas produções em torno dos temas, assuntos e repertórios estéticos-culturais organizados em suas poéticas é compreender que existe uma escolha política explícita desses artistas em produzir expressões artísticas que dialoguem com a sociedade a partir desse ponto de vista.

"Pedras portuguesas" (2017), Jaime Lauriano (Imagem: galeria Nara Roesler)

"Pedras portuguesas" (2017), Jaime Lauriano (Imagem: galeria Nara Roesler)

"Parede da memória" (1994/2015), Rosana Paulino (Imagem: Mendes Wood DM)

"Parede da memória" (1994/2015), Rosana Paulino (Imagem: Mendes Wood DM)

Ainda na verticalização do contexto brasileiro, percebemos que as poéticas-políticas de artistas contemporâneos como Moisés Patrício, Jaime Lauriano, Sidney Amaral (1973-2017), Mônica Ventura, Rosana Paulino e Lia D. Castro reescrevem narrativas históricas, epistemológicas e debates críticos e estéticos a partir de seus argumentos visuais propostos nas produções artísticas.


Esses artistas acima mencionados perpassam temas que debatem o problema político do racismo, raça, legado colonial, pensamento cultural do universo afro-religioso, ancestralidade, questões ligadas ao feminino negro, à transfobia, colonialidade e a representação da negritude na história da arte. Esses artistas travam debates e temas correlatos à problemáticas históricas a partir da complexidade das questões interseccionais levando em consideração a experiência social da negritude.


Os assuntos e temas assumidos nas poéticas-políticas desses artistas muitas vezes ganham uma roupagem e composição ético-estéticas que se deixam perceber pelo uso da materialidade afro-referenciada, assim também, a partir do debate estético-crítico em convergência às expressões artísticas manipuladas por cada artista.


Já em relação às produções artísticas contemporâneas africanas dos artistas ganense Prince Gyasi (1995-), Isshaq Ismail (1989-) e o nigeriano Austin Uzor (1991) representados pela galeria Maât e os artistas representados pela Nil, como o artista etíope Girma Berta (1990-), os artistas ganenses Isaac Ato Jackson (1994-), Caleb Kwarteng Prah (1994-) e o renomado artista egípcio Fathi Hassan (1957-), podemos aguardar produções artísticas contundentes e sofisticadamente elaboradas, que também tecem aberturas no sistema da arte suscitando debates críticos-estéticos e étnico-raciais no interstício da arte e da política que transpõe as fronteiras locais, uma que vez que suas criações propõe diálogos com o mundo e o momento presente a partir de suas práticas artísticas, temas, assuntos, métodos, subjetividades e repertório ético-criativos. Por este plano, pode-se dizer que é a complexidade crítica-estética traduzida por cada artista visual supracitado que põe em movimento a heterogeneidade de suas poéticas, evidenciando radiografias políticas-visuais que dinamizam os espaços de intersecção de criação proporcionados pela própria dinâmica contemporânea das artes visuais.

"Leveche" (2022), Gommar Gilliams (Foto: Nil Gallery)

"Leveche" (2022), Gommar Gilliams (Foto: Nil Gallery)

"Levanto" (2022), Gommar Gilliams (Foto: Nil Gallery)

"Levanto" (2022), Gommar Gilliams (Foto: Nil Gallery)

Das radiografias visuais africanas na SP–Arte

O talentoso artista ganense Prince Gyasi (1995) lança mão da prática fotográfica para criar um regime de imagens poderosas que expressam a grandiosidade da população local ganense. Em sua composição poética o artista tem apostado na exploração da potência das cores para trazer à superfície a faceta pulsante, bela e sensível pouco exibida a respeito das comunidades marginalizadas de Gana. Vitalidade e humanização são os preceitos chave que endossam a prática fotográfica de Gyasi. O artista oferece ao espectador novas possibilidades imagéticas sobre o universo de Acra, capital de seu país. Desafia, dessa maneira, uma economia de imagens que sempre enclausurou as “Áfricas” às imagens de subalternidade e escassez. Prince Gyasi restitui sensivelmente por meio de sua produção fotográfica uma outra maneira de relação com os sujeitos e paisagens africanos.


Já o artista Isshaq Ismail (1989-) lançando mão da linguagem da pintura e mídia digitais, expressa em suas poéticas-políticas temas ligados à complexidade social, no que se refere aos aspectos socioculturais e políticos em torno da identidade. A artista aposta na construção de retratos em que se percebe a representação de rostos e figuras expressivas que radiografam provocativamente distorções, beirando ao grotesco. A prática artística de Isshaq Ismail complexifica a construção de espaços imaginativos. Suas imagens impactantes e acentuadas pela paleta de cores vibrantes abrem espaços para eloquência sensível, permitindo aberturas para exploração de temas em torno da resiliência, poder, alegria, esperança e desejo.


Seguindo a perspectiva das radiografias visuais africanas, o artista nigeriano Austin Uzor (1991), tem ganhado merecido destaque no cenário artístico local e internacional. Falar da produção artística de Austin Uzor, é lembrar do “primoroso pintor e desenhista”. Em sua produção, o artista trata de questões em torno do desconhecido, espaços psicológicos e realidades alternativas. As narrativas visuais propostas por Austin Uzor suscitam diálogos com temas ligados aos traumas causados pelas experiências do deslocamento – visto que esse fenômeno é observado e experienciado pelo artista a partir de seu corpo-testemunha.

"The arrival" (2022), Prince Gyasi (Foto: Nil Gallery)

"The arrival" (2022), Prince Gyasi (Foto: Nil Gallery)

O exercício do pensamento ético-estético do artista deflagra-se em radiografias visuais sensíveis que entrecruzam intimamente o campo da arte às pautas políticas da contemporaneidade que tem impactado diretamente uma parcela significativa da população mundial. A produção poética de Austin Uzor é um convite ao espectador a compor seus testemunhos visuais como sujeitos que também se inscrevem enquanto corpo-testemunha do fenômeno social que se faz presente em diferentes realidades socioculturais. Nos termos do artista, a pretensão é que haja cada vez mais ouvintes visuais.


Na produção artística do artista visual etíope Girma Berta (1990-) observa-se a encruzilhada da técnica entre a fotografia e o designer gráfico, lugares ocupados por Berta com maestria em sua prática artística. Berta elabora suas radiografias visuais com base na investigação das mídias sociais, especificamente, o Instagram. A escrita visual de Girma Berta traz para o centro da representação a população local de Adis Abeba. As cenas cotidianas da cidade ganham outra dimensão nas lentes afiada de Berta, deslocando o que estava invisibilizado para o centro da percepção, chamando na atenção. Como um cronista visual, o artista Girma Berta narra de forma sensível cada detalhe da cidade, capturando aspectos que deslocam e estremece o que é considerado ordinário alçando-os ao campo do sublime.


A poética visual do artista ganês Isaac Ato Jackson (1994-) situa-se em torno da pintura. Sua radiografia visual propõe o entrelaçamento entre a abstração e a figuração como gesto pictórico crítico-reflexivo sobre a imagem e os regimes de representação na contemporaneidade, principalmente no campo das mídias sociais. A prática visual de Isaac Ato Jackson propõe reflexões sobre a representação do corpo, compreendendo que a produção de imagens no espaço virtual reconfigurou outra economia de circulação das imagens.

"L'entretien" (2022), Miles Debas (Imagem: Nil Gallery)

"L'entretien" (2022), Miles Debas (Imagem: Nil Gallery)

A produção visual do jovem artista ganense Caleb Kwarteng Prah (1994-) tem se destacado na cena artística contemporânea africana. Sua prática artística expressa testemunhos visuais que põe em cena a singularidade cultural ganense a partir da articulação de suas composições fotográficas. As criações de Caleb Kwarteng Prah abrem diálogos explícitos com a história da arte a partir de radiografias visuais africanas. Ou seja, o artista mobiliza um olhar estético-criativo da encruzilhada, lugar que atualiza processos de cruzamento de culturas e sistemas simbólicos.


Compondo o elenco da Nil Gallery, o artista egípcio Fathi Hassan (1957) agrega uma longa trajetória no cenário artístico. A prática artística do artista transita entre as linguagens da pintura, fotografia, instalação e desenho. A produção artística de Fathi Hassan comunica uma gramática visual poderosa que põe em cena indícios visuais da experiência da dominação colonial. Poeticamente, Fathi Hassan radiografa linguagens, símbolos, rostos e objetos que contam e narram histórias complexas a respeito do contato entre sujeitos e culturas. Suas radiografias visuais trazem à superfície e dão a ver outros epístemes culturais. A poética visual do artista é um convite à contemplação crítico-reflexiva.