Curadores refletem sobre os êxitos da feira Rotas Brasileiras

Curadores refletem sobre os êxitos da feira Rotas Brasileiras
Um dos atributos mais celebrados do Rotas Brasileiras é a qualidade dos projetos selecionados pela SP–Arte. A feira se sobressai no mercado nacional e internacional da arte ao reunir apresentações curadas, que se aprofundam nas pesquisas dos artistas e estabelecem diálogos nem sempre evidentes entre práticas distintas. Para alcançar a proposta sugerida pelo evento, muitas galerias contam com o olhar de curadores e curadoras no desenvolvimento de sua participação no Rotas, seja na escolha de um recorte temático, na seleção de obras e artistas ou mesmo na montagem do estande.
Convidamos quatro destes profissionais que atuaram no 3º Rotas Brasileiras para fazerem uma breve reflexão sobre como foi contribuir com essa edição. As impressões se dão com base na pergunta a seguir: “a partir da sua experiência, qual a importância de uma feira que pensa o Brasil e qual foi o aspecto que mais chamou sua atenção?”.
Confira os comentários:

Rotas Brasileiras
Bitu Cassundé
O Brasil é tão fascinante e tão desconhecido para o próprio Brasil. Isso é um importante dado para reflexão. Olha-se muito para fora e pouco para dentro, mas perde quem vive olhando para o outro e esquece de olhar para si. Então, é sempre importante trazer essas reflexões sobre os múltiplos territórios que nos compõem, seja por meio de uma exposição, feira, ou bienal. Acho ainda mais significativo pensar a dimensão do que se entende como ”cultura popular”, colocando-a no lugar certo, sem hierarquia ou preconceito. O Rotas surge como um bom exercício dessas distintas brasilidades. Conviver e se interessar por essas “outras rotas” é um aspecto importante para a arte brasileira.
Bitu Cassundé é curador de arte e assinou o projeto curatorial do estande da Marco Zero.

Rotas Brasileiras
Divino Sobral
Não se pode pensar o Brasil sem se deparar com sua enorme extensão, com sua história violenta, com sua complexa formação social. Reflexo deste contexto, a produção artística brasileira é essencialmente diversificada, alimenta-se de muitas fontes e se espraia por muitas modalidades. Entendo que a relevância do Rotas, como uma feira de arte, está no fato de acolher galerias descentralizadas, sabedoras de suas funções culturais, ampliando o campo de conhecimento e acesso às produções de alta qualidade que não integram o cânone ou que não participam com frequência do circuito sudestino, mostrando que existem muitos brasis dentro do Brasil. O que mais chamou minha atenção foram as obras de artistas que vivem e trabalham fora dos grandes centros, nos interiores e nas margens, que quase sempre foram taxados de periféricos e irrelevantes, mas que, na verdade, fazem trabalhos significativos para refletir sobre a emaranhada cultura brasileira.
Divino Sobral é curador de arte e assinou o projeto curatorial do estande da Cerrado Galeria.

Rotas Brasileiras
Khadyg Fares
Minha experiência foi bastante surpreendente, primeiro pela abertura do evento em se enveredar por vias muitas vezes pouco discutidas no campo das artes brasileiras, entre elas, a pesquisa em que tenho me voltado às relações do presente com as diásporas árabes. Consegui olhar para a feira como um terreno fértil para a educação, as trocas, as novas pesquisas e o intercâmbio de pensamentos que refletem de maneira imanente a arte brasileira.
Khadyg Fares é pesquisadora, educadora e curadora de arte e assinou o projeto curatorial do estande da GDA.

Rotas Brasileiras
Luciara Ribeiro
A feira tem um papel para além da comercialização e da circulação; é também um espaço expositivo. Ao reunir essas diversas variações da produção brasileira, ela assume um papel político: demonstrar a dimensão criativa e as dimensões expressivas das camadas de pensamentos que formam isso que chamamos de Brasil, incluindo suas contradições. O Brasil não tem uma história de harmonia, mas de conflitos, empasses e contrastes e a feira trouxe isso.
O Mirante foi um ganho desta edição. O Rodrigo Moura trabalhou de maneira profunda e cuidadosa, olhando para uma proposta contemporânea de arte brasileira em que as coisas cabem e não precisam se excluir, criando cruzamentos, encruzilhadas e encontros. Acho que, não à toa, a própria arquitetura do projeto Mirante estava criando uma encruzilhada no meio do galpão e eu acredito muito que ela tem um ponto central de união mas também de divergência, dali saem vários mundos e o Brasil é isso.
Luciara Ribeiro é curadora de arte e assinou o projeto curatorial do estande do Sertão Negro.