Colecionismo brasileiro: aquecimento e entraves

A SP-Arte chega à 21ª edição em um momento de crescimento do colecionismo no Brasil. De acordo com uma pesquisa da Abact e ApexBrasil, o mercado movimentou R$ 2,9 bilhões em 2023, um aumento de 21% em relação ao ano anterior. Um relatório da UBS e da Art Basel revela que, no país, apesar da pandemia, o setor dobrou na última década. Enquanto as aquisições abaixo de US$ 100 mil caem globalmente, Brasil, Suíça, Hong Kong e Itália se destacam por manter transações em patamares mais altos, consolidando suas posições no cenário internacional.
Nesse contexto de crescimento e maior amadurecimento do mercado, colecionadores como Mara e Marcio Fainziliber ressaltam que colecionar não se resume a simplesmente “copiar” as escolhas de outros colecionadores. Para eles, o segredo para descobrir o que entra em seu acervo é simples: “visitar, visitar”. “Você tem que ir a museus, galerias, bienais, à Documenta, conhecer documentos”, explica Marcio.
Mara descreve sua relação com a arte como mais intuitiva, enquanto ele adota uma abordagem racional. “O Marcio quer saber o currículo do artista, se está em leilões etc.”, diz ela. Já ele observa: “A Mara tem uma sensibilidade muito forte. Olha para as obras e fala que quer comprá-la.”
O acervo do casal se concentra no mercado primário, com foco em artistas contemporâneos. Quando se interessam por artistas históricos, enfrentam mais dificuldades no Brasil, especialmente pela falta de informações sobre a proveniência. “Até as famílias que autenticam as obras de artistas mortos são suspeitas”, ressalta Marcio.
“Quando você tem a proveniência, consegue verificar a origem e checar os dados. As casas de leilão raramente erram, são mais cuidadosas. Nos EUA e na Europa, há muito mais confiabilidade — o mercado é mais sério.”

Os colecionadores Mara e Marcio Fainziliber. Foto: divulgação
Altos e baixos no colecionismo
Aloísio Cravo, leiloeiro com mais de 40 anos de experiência, afirma que “A última coisa que você precisa para comprar arte é dinheiro”. Cravo observa que, entre os endinheirados, a quantidade de pessoas dispostas a investir em arte é pequena.
“Porque isso é uma questão de formação”, afirma. “Existe uma série de atitudes mentais e culturais que você precisa ter para dizer ‘vou comprar arte para embelezar a minha vida’.”
O colecionador Paulo Vieira, presidente do conselho internacional da Tate, entende os nós para o fortalecimento do colecionismo no Brasil de forma mais ampla e acredita que o desenvolvimento do ecossistema de arte é essencial. Para ele, falta “uma visão de longo prazo, holística, para que o sistema se torne mais saudável”.
Vieira defende que, além da arte nas escolas, é necessária maior autorregulação nas galerias, com governança e compliance, além de tecnologias que rastreiem o histórico de propriedade das obras. Vieira também questiona o papel do colecionador, dividindo-o em três categorias: os que compram e guardam, os que exibem em casa e os que mostram suas coleções em espaços públicos.
Ele acredita que alguns colecionadores podem se tornar “agentes culturais”, apoiando instituições financeiramente e se envolvendo na governança dessas instituições. “Quando o colecionador faz isso, ajuda a fortalecer as instituições culturais, tanto de direito público quanto privado”, conclui.
Para Mara e Marcio Fainziliber, o segredo para descobrir o que entra em seu acervo é simples: “visitar, visitar”

O colecionador Paulo Vieira. Foto: divulgação
Mais do que colecionador
Assim como o próprio Vieira, Georgiana Rothier é um exemplo de colecionadora que se coloca como agente cultural. Ela integra conselhos como o da Pivô Arte e Pesquisa (São Paulo e Salvador) e o do Solar dos Abacaxis (Rio), além de ser membro do International Leadership Council do New Museum.
Junto ao marido, Bernardo Faria, com quem iniciou sua coleção há mais de 15 anos, Georgiana fundou o projeto de residência artística Ybytu em São Paulo. “A gente tinha o contato com as galerias, com as instituições, e na nossa maneira de colecionar, faltava o contato com os artistas. Então construímos esse tripé”, afirma Georgiana.
O Ybytu patrocina e incentiva projetos artísticos, incluindo publicações de livros. Atualmente, Georgiana afirma que as aquisições para a coleção são relativamente menores. “O nosso orçamento é muito mais direcionado para apoio a artistas”, diz.
A coleção, que inicialmente se concentrou em artistas brasileiros contemporâneos e arte conceitual, começou a se internacionalizar em 2017. Hoje, inclui artistas nacionais e estrangeiros em igual medida.

A colecionadora Georgiana Rothier. Foto: divulgação
Obras de artistas internacionais
Para Katia Mindlin Leite-Barbosa, Presidente da Sotheby’s Brasil, colecionadores como Georgiana, que internacionalizaram seus acervos, enfrentam dificuldades com os impostos de importação. “Aqueles que conseguem progredir em suas coleções são tipicamente colecionadores mais maduros e que vêm construindo suas coleções há anos, senão décadas”, assinala.
O interesse desses colecionadores, segundo Katia, está voltado para produções contemporâneas europeias, americanas e asiáticas. São pessoas bem-informadas sobre o mercado global de arte. “Seus radares estão voltados para o segmento NOW, uma divisão dedicada a obras do século XXI, que reúne desde artistas com uma trajetória consolidada até os menos conhecidos fora do circuito das galerias”, afirma.
Katia aponta a miopia do atual regime tributário em relação à proteção do mercado de arte. Ela afirma que a arrecadação é insignificante em termos absolutos, pois poucos colecionadores estão dispostos a pagar impostos tão altos. “Os números cresceriam com alíquotas mais razoáveis, que também ajudariam a enriquecer e diversificar os acervos do Brasil”, sugere.
Nos últimos anos, o mercado tem celebrado o crescimento de jovens colecionadores, que buscam artistas contemporâneos, até mesmo de sua faixa etária, e que lidam com temas atuais. O estudo da UBS aponta que “obras de artistas novos e emergentes compuseram a maioria das coleções em 11 dos 14 mercados, com o maior nível no Brasil (63%)”. Além disso, o Brasil e Cingapura lideram o gasto com obras de artistas emergentes entre os ultra-ricos.
Bruno Baptistella, 42 anos, administrador de empresas, é um jovem colecionador que segue uma tendência diferente. Seu acervo, iniciado há 15 anos, é dominado por obras históricas e modernistas, que compõem mais da metade da coleção.
Com um foco maior em pintura, Baptistella criou dois núcleos: um brasileiro e um internacional. As obras adquiridas fora do Brasil ficam em sua casa em Miami. “Quase não dá para trazer para cá. Imagina você ter que quase 100% de imposto por um bem cultural que, se isso estivesse no Brasil, acho que ajudaria muito a nossa cena cultural local”.

Katia Mindlin Leite-Barbosa, Presidente da Sotheby’s Brasil. Foto: divulgação

O colecionador Bruno Baptistella. Foto: divulgação
Arte como investimento
Uma questão que tem surgido entre os jovens colecionadores é a obra de arte como ativo de investimento. Teodoro Bava, sócio da Kura Arte, consultoria especializada, discorda dessa visão. Para ele, a arte é um investimento de “altíssimo risco”. Embora possa ser uma consequência de uma aquisição, a arte deve, antes de tudo, proporcionar “bem-estar, felicidade, conforto e inspiração”, afirma.
Bava acredita que os jovens colecionadores serão os grandes nomes do futuro e incentiva sua participação nas instituições culturais, cumprindo o papel de agentes culturais. “Precisamos de museus com o apoio de jovens colecionadores, assim como os mais velhos fizeram há 30, 40 anos”, conclui.
João Paulo Siqueira Lopes, fundador da Panorama Art Advisory, acredita que o colecionismo atravessa um momento “mais calmo e bem informado”, distante da aceleração vivida após a pandemia até 2023. As aquisições são agora mais ponderadas, tanto por colecionadores jovens quanto consolidados. “Às vezes são compras até mais caras, de obras mais importantes”, avalia.
Para o art advisor, há menos impulsividade em relação a modismos, como a onda de artistas afro-diaspóricos ou indígenas. “Esse gatilho para um revisionismo histórico foi muito positivo para o sistema de uma forma geral. Mas o fato é que, nesse momento, o interesse não recai só sobre a agenda, e, sim sobre a qualidade da produção. Há uma decantação natural”, conclui.

O art advisor Teodoro Bava, sócio da Kura Arte. Foto: Mariana Valente
Paulo Vieira acredita que alguns colecionadores podem se tornar “agentes culturais”, apoiando instituições financeiramente e se envolvendo na governança dessas instituições

O art advisor João Paulo Siqueira Lopes, fundador da Panorama Art Advisory. Foto: divulgação
*O jornalista Eduardo Simões nos deixou em 2025.