Colecionadores e curadores debateram estratégias de fomento a jovens criadores

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04 abr 2025

Acima: Mesa com David Teplitzky e Ricardo Sadenberg. Foto: Divulgação/SP-Arte

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Dois debates no Palco SP-Arte desta quinta-feira (3) exploraram a dinâmica entre artistas e colecionadores, reunindo curadores, empresários e especialistas do setor. Os encontros abordaram formas concretas de fomentar a produção artística, o papel do investimento em novas linguagens para renovar o mercado e os processos curatoriais por trás das grandes coleções.


Os diálogos revelaram os bastidores dessa relação essencial para o ecossistema da arte, discutindo desde o apoio a criadores emergentes até a construção de acervos com impacto cultural duradouro. Em uma das conversas, o curador e autor francês Marc Pottier definiu o papel do colecionador atual como um "exercício de paixão pela arte".


Ele mediou o debate que reuniu Sandra Hegedüs, Beatriz Yunes Guarita, Diego Uribe e Cristina Chacón. Todos colecionistas experientes, responsáveis por empresas e projetos que buscam elevar o sentido da curadoria. “Arte é sedimentação”, é o que acredita a colecionadora Beatriz Yunes Guarita.


Ela, que é herdeira de uma dinastia de três gerações dedicadas ao colecionismo, com um acervo que vai do século 4 a.C. até 1970, também tem investido em uma coleção particular com nomes contemporâneos de peso.


Em um exercício constante de preservar o espírito ousado que formou a coleção Ivani e Jorge Yunes e ampliar horizontes de olho nas tendências, Guarita define que o patronato é mais relevante do que a acumulação, reforçando a relação do mecenato, que historicamente foi base para que a história da arte ocidental se consolidasse tal qual conhecemos hoje.


Esse espírito empreendedor também acompanha Sandra Hegedüs, brasileira radicada na França, que criou o SAM Art Projects para fomentar a arte contemporânea e intercâmbios culturais. “Vivo com a arte e os artistas do meu tempo”, disse, relacionando seu interesse à experiência artística e sua condição de imigrante.

Mesa sobre a parceria entre colecionadores e artistas com Sandra Hegedüs, Beatriz Yunes Guarita, Diego Uribes e Cristina Chacón mediada por Marc Pontier Foto: Divulgação/SP-Arte

Mesa sobre a parceria entre colecionadores e artistas com Sandra Hegedüs, Beatriz Yunes Guarita, Diego Uribes e Cristina Chacón mediada por Marc Pontier Foto: Divulgação/SP-Arte

Em 2025, ano cultural Brasil-França, a colecionadora promoverá parcerias com centros de arte franceses ao lado de artistas como Panmela Castro e Yan Carpenter. Segundo Potier, o trânsito de colecionadores, artistas e profissionais dedicados à curadoria é essencial para a formação de museus e acervos.


Para Diego Uribe e Cristina Chacón é preciso desmistificar alguns papéis dentro da engrenagem do mundo das artes e expandir o diálogo para outros setores da sociedade. “A ignorância é o maior inimigo da arte. Para conhecer, é preciso o contato”, afirmam.


O casal fundou o D+C Family Foundation em Miami em 2021, focando no apoio a artistas emergentes e no diálogo cultural. O programa busca criar impacto mútuo: “Aideia é que a comunidade afete os artistas e os artistas afetem a comunidade”, afirmaram, sobre o impacto positivo que a arte tem no grande arcabouço social.


“A arte não é um negócio, é toda uma indústria. Para ela funcionar, os criadores precisam de suporte”, afirmou a dupla. Durante a conversa, também foi destacado como a falta de fomento tem prejudicado artistas. “Temos todos esses ‘eus’ espalhados pelo mundo, a arte consegue que eles se unam como um ser único”, definiu Guarita.


Esse espírito de união também norteou a conversa entre David Teplitzky e Ricardo Sardenberg, que falaram sobre a necessidade de se apoiar novos talentos. Os dois, que planejam uma exposição para a próxima Bienal, se conheceram quando o colecionador visitou a galeria de Sardenberg e se encantou com as obras de Flora Rebollo. Para ele, a artista vai “mudar a paisagem da arte internacional”.


Teplitzky ingressou no mundo artístico há quatro décadas. Hoje, ele compartilha com seus mais de três milhões de seguidores no Instagram uma rotina de viagens – ao mesmo tempo em que se dedica a uma coleção com nomes de peso, como Andy Warhol, Robert Mapplethorpe e Keith Haring.

Público acompanha as conversas no Palco SP-Arte. Foto: Divulgação/SP-Arte

Público acompanha as conversas no Palco SP-Arte. Foto: Divulgação/SP-Arte

“Poucas coisas são ótimas, poucos artistas são ótimos. Tive a sorte de encontrar muitos deles no início de suas carreiras”, disse. O também influenciador digital (por que não?) foi contra ao que chamou de consultores que veem a arte como “comprar um brinquedo novo”. Teplitzky destacou que todo grande artista começou como emergente. Sobre aquisições, ele aconselha: “Compre algo de que você goste, assim você pode entender e apreciar aquela peça”.


Admirador da arte brasileira, Teplitzky coleciona nomes como Hélio Oiticica e afirma que o Brasil “não tem como separar a natureza da arte no país”. Entre seus artistas favoritos estão Luiz Zerbini, Felipe Cabral e, claro, Flora Rebollo. “A grande arte faz perguntas cujas respostas levam a um novo movimento”, defende o colecionador.


Para Teplitzky, o papel do colecionador e do curador é observar “como a arte fala por si mesma de geração a geração”. Para Sardenberg, que tem trabalhado com jovens artistas em sua galeria desde 2020, é preciso que haja sempre uma parceria entre curador e artista. “Eu digo o que vejo e cabe ao artista saber o que fazer a partir disso”.


Questionado sobre o impacto da internet nas relações artísticas, Teplitzky acredita que as redes sociais convencem os artistas de se reinventar constantemente. O que ele vê com certa desconfiança: “Mas o processo é devagar, uma grande luta. Toda arte é relevante se vem da alma”.


Teplitzky é direto ao passar sua mensagem, de olho no que vem acontecendo no mundo e por dentro das principais tendências artísticas. Sua conclusão sintetizou uma lição que pode ser aplicada para qualquer coleção, pensando sobre contexto e narrativa. “No mundo fraturado, pessoas discordam e não acham um ponto em comum. As pinturas podem existir em uma mesma parede passando diferentes mensagens”.

A arte não é um negócio, é toda uma indústria. Para ela funcionar, os criadores precisam de suporte

– Diego Uribe e Cristina Chacón

No mundo fraturado, pessoas discordam e não acham um ponto em comum. As pinturas podem existir em uma mesma parede passando diferentes mensagens

– David Teplitzky