Claudia Andujar: uma mulher, sua missão

Eder Chiodetto, curador de fotografia, escreve sobre a trajetória de Claudia Andujar até culminar nas séries “A Sônia” e “O voo do watupari”, que serão apresentadas pela galeria Vermelho nesta edição da SP-Arte Rotas.
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Fotógrafa e ativista, Claudia Andujar nasceu em 1931 na Suíça. Refugiada do nazismo na Europa, onde viu parte de sua família morrer nos campos de concentração, adotou o Brasil como sua pátria em 1955, após uma temporada em Nova Iorque, onde se dedicou a estudar pintura.
Estimulada por Pietro Maria Bardi, fundador do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, e entusiasta da fotografia, Claudia começou a fotografar utilizando a câmera como dispositivo para se aproximar das pessoas e da cultura brasileira, antes de dominar a língua portuguesa. Nos anos 1960, seguiu frequentando o meio artístico de Nova Iorque, no momento de ascensão da contracultura, da psicodelia e da arte pop, que determinaria novos rumos para as artes visuais e outras linguagens. Neste contexto, conheceu o artista George Love (1937–1995), que se tornou seu companheiro e com quem passou a ter uma frutífera parceria criativa.

Claudia Andujar, "O voo do watupari", 1976–2024. © Filipe Berndt/cortesia Galeria Vermelho
A atuação de Claudia no Masp, de 1971 a 1976, dando aulas, organizando exposições e coordenando o Departamento de Fotografia, ao lado de Love, foi fundamental para que a fotografia fosse finalmente legitimada no Brasil dentro do campo da arte e começasse a ser incorporada nos acervos de museus. Além disso, as instalações do Masp tornaram-se um grande espaço de experimentações para o casal.
Visando ampliar o território expressivo da fotografia, eles fizeram uso de filmes infravermelhos, utilizaram imagens re-fotografadas com distorções e mutações de luzes e cores, usaram filtros monocromáticos, filmes revelados em altas temperaturas para craquelar a película e justaposições, entre outras estratégias. Criaram assim um renovado léxico para que a fotografia pudesse representar não apenas o visível, mas também o que estaria recalcado na mente humana, os sonhos, os desejos e outras manifestações do inconsciente.

Claudia Andujar, "Sem título 2", da série "A Sônia", 1971. © Claudia Andujar/cortesia Galeria Vermelho
As pesquisas que culminaram na mostra “Claudia Andujar: Cosmovisão” (Itaú Cultural, 2024), sob minha curadoria com assistência de Thaís Lopes, mostraram como esse período fecundo de experimentos foi de fundamental importância para que Claudia abrisse um portal na linguagem fotográfica para que décadas adiante ela conseguisse materializar em fotografias o maior dos seus desafios: a emanação espiritual e as imagens da miração dos Yanomami em seus transes xamânicos. É curioso pensar numa ponte que irá conectar as experiências de artistas dos anos 1970, visando a expansão da mente pelo uso de substâncias alucinógenas como o LSD, com os rituais xamânicos que Claudia irá conhecer mais tarde no convívio com os Yanomami.
Uma série emblemática das experimentações de Claudia, claramente em conexão com o espírito iconoclasta da época, é "A Sônia" (1971). Empolgada pela grande novidade tecnológica recém-lançada, o projetor de slides, que possibilitava exibir os registros fotográficos como um “quase cinema”, como apregoava Hélio Oiticica, Claudia exibiu "A Sônia", no Masp, no formato de uma projeção audiovisual criando um ambiente imersivo nada comum para a época.

Claudia Andujar na abertura do seu pavilhão em Inhotim, 2015. © Daniela Paoliello
Claudia começou a fotografar para se aproximar das pessoas e da cultura brasileira
— Eder Chiodetto
A Sônia, 1971
Em 1970, Sônia, mulher negra e baiana, sonhava em se estabelecer como modelo em São Paulo. Para tanto, necessitava de boas fotografias para levar nas agências de publicidade. Sem recursos, estava difícil conseguir algum profissional que a fotografasse. Claudia Andujar a socorreu e, então, fizeram um pacto. Claudia utilizaria parte das imagens para um projeto pessoal e Sônia teria as imagens que necessitava.
Após uma sessão fotográfica com 10 rolos de slides totalizando 360 imagens, Claudia selecionou cerca de 90 e submeteu-as a uma série de interferências: realizou cortes abruptos, utilizou filtros coloridos e, ainda insatisfeita, refotografou os cromos com o Repronar – equipamento da época que permitia reproduzir os cromos adicionando filtros coloridos, manipulando a exposição e justapondo imagens. A ideia era alcançar uma atmosfera onírica, um sonho.

Claudia Andujar, "Sem título 1 ", da série "A Sônia", 1971. © Claudia Andujar/cortesia Galeria Vermelho

Claudia Andujar, "Sem título 3", da série "A Sônia", 1971. © Claudia Andujar/cortesia Galeria Vermelho
Mulher independente, sem família, num mundo pautado pelo machismo em que a emancipação feminina andava a passos lentos, Claudia, perto de completar 40 anos, fez desse ensaio uma espécie de manifesto libertário. No primeiro número da Revista de Fotografia (1971), ela escreveu o seguinte comentário: “...é possível que, como mulher, ao realizar um ensaio estético sobre as formas físicas femininas, esteja procurando uma identificação reflexa e idealizada do que desconheço do meu próprio corpo”.
Em 2023, entusiasmada com a proposta da exposição “Claudia Andujar: Cosmovisão”, a artista aceitou nosso desafio de realizar uma nova obra. Após mais de 20 anos sem realizar um trabalho inédito, a artista voltou a usar a sobreposição de acrílicos translúcidos e coloridos sobre imagens em preto-e-branco. Assim nasceu “O voo do watupari” (2024).

Claudia Andujar na aldeia Catrimani, Roraima, 1984. © Carlo Zacquini
A atuação dela no Masp, ao lado de George Love, foi fundamental para que a fotografia fosse legitimada no Brasil
— Eder Chiodetto
O voo do watupari, 1976-2024
Viagem-catarse. Em 1976, cinco anos após conhecer os Yanomami, Claudia Andujar resolve deixar tudo para trás e parte da Avenida Paulista, em São Paulo, a bordo de seu fusca preto, para atravessar o Brasil em 16 dias até chegar na aldeia dos indígenas, em Roraima, com o objetivo de lá ficar por tempo indeterminado. Mas ela seria expulsa no ano seguinte pela Funai, então comandado pela ditadura militar.
Durante o trajeto, dois amigos a acompanharam: o missionário Carlo Zacquini, seu companheiro de trabalho, e a câmera Nikon, com a qual ela fotografou o Brasil que passava veloz pelas janelas do fusca, em ritmo de diário de viagem. Era como se o próprio carro se convertesse numa câmera fotográfica. Da metrópole até a aldeia indígena, Claudia flagra um Brasil que tropeça entre o prometido milagre econômico, que nunca aconteceu, e a natureza cada vez mais desertificada. Quando finalmente chegaram à aldeia, os Yanomami apelidaram o fusca preto de watupari, urubu na língua deles. Um urubu sem asas que, no entanto, voou de São Paulo até eles.

Claudia Andujar, "O voo do watupari", 1976–2024. © Filipe Berndt/cortesia Galeria Vermelho

Claudia Andujar, "O voo do watupari", 1976–2024. © Filipe Berndt/cortesia Galeria Vermelho
Em 2023, visando essa exposição, Claudia Andujar, aos 92 anos de idade, foi estimulada por mim a retomar essa série utilizando agora o recurso da sobreposição de peças acrílicas coloridas sobre as imagens, como ela já havia feito em trabalhos esporádicos na sua trajetória. A contrapelo dos problemas de saúde, Claudia demonstrou o mesmo prazer e rigor que sempre teve na execução de seus trabalhos.
Com recortes de celofanes de várias cores simulando o acrílico, ela montou, desmontou e remontou hipóteses até alcançar o resultado que lhe agradava. Eis que agora “O voo do watupari”, quase 50 anos depois, ganha uma nova configuração em technicolor para rememorar a travessia que fez dessa mulher estrangeira uma artista e ativista brasileira das mais importantes da nossa história.

Claudia Andujar, "O voo do watupari", 1976–2024. © Filipe Berndt/cortesia Galeria Vermelho
Eder Chiodetto (São Paulo, 1965) é mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo, curador de fotografia e publisher da Fotô Editorial. Foi membro do conselho de artes e curador de fotografia do MAM São Paulo entre 2005 e 2021. Como curador já realizou cerca de 200 exposições no Brasil, Europa, Estados Unidos e Japão. Suas pesquisas, que resultam em projetos curatoriais e editoriais, tem como foco as imbricações da fotografia nos processos históricos, políticos e sociais da sociedade brasileira.