As melhores expos de 2022

Jornalistas e críticos de arte indicam e comentam as exposições que, para eles, marcaram o ano de 2022
Retomada é a palavra que melhor descreve o ano de 2022. Tanto o circuito comercial de galerias quanto museus e instituições de arte começaram a passos lentos, ainda num processo de recuperação das suspensões provocadas pela pandemia. Com o passar dos meses, o ano comprovou o vigor que o campo das artes tem no Brasil, dos novos talentos que surgiram a retrospectivas de peso.
O calendário também foi marcado por duas importantes efemérides nacionais – o centenário da Semana de Arte Moderna e o Bicentenário da Independência. Muitas das necessárias revisões que surgiram em torno dessas datas foram importantes ao darem destaque para o que há de mais fresco na arte contemporânea atual, numa espécie de encontro de vanguardas separadas no tempo.
Convidamos os jornalistas e críticos/as de arte Beta Germano, Nô Mello, Oliver Basciano e Wanessa Yano para indicar duas exposições que, para eles, marcaram o calendário.
Confira a lista completa:
Beta Germano
Ayrson Heráclito: Yorùbáiano (abr-ago)
Estação Pinacoteca
Num ano marcado por muitas exposições coletivas que revisitaram e questionaram a Semana de Arte Moderna, que completou 100 anos em 2022, foram grandes e necessárias individuais que chamaram minha atenção. A começar por Ayrson Heráclito: Yorùbáiano, exposição curada por Amanda Bonan, Ana Maria Maia e Marcelo Campos e que reuniu 63 obras do artista baiano na Estação Pinacoteca.
Conhecido por elaborar trabalhos que são, também, processos de cura de nosso violento passado colonial, Ayrson se apropria de elementos das religiões de matriz africana para criar instalações, fotografias, vídeos e performances. O maior destaque da mostra foi a instalação Regresso à pintura baiana, de 2002, composta por uma maquete da Igreja do Rosário dos Pretos e uma parede inteira do museu coberta de azeite de dendê — o elemento característico da culinária baiana e protagonista nas práticas do Candomblé é recorrente em seu trabalho representando, na maioria das vezes, os fluidos do corpo humano (pense em sangue, saliva, suor ou sêmen). Aqui, o artista questiona, entre outras coisas, a história da pintura no século 20 — desde o muralismo até o minimalismo monocromático — e o colonialismo que formou a Bahia e fomentou sua escola de pintura local.
Anna Maria Maiolino – psssiiiuuu… (mai-jul)
Instituto Tomie Ohtake
O ano também foi marcado por Anna Maria Maiolino – psssiiiuuu… exposição que apresentou, no Instituto Tomie Ohtake, cerca de 300 obras divididas em três grandes blocos: “ANNA”, onde o público teve a oportunidade de conferir um conjunto de trabalhos mais bibliográficas e íntimos, diretamente ligados à condição de uma artista mulher que é, também, filha, mãe, cidadã, amante, amiga, escritora e imigrante; “Não Não Não”, sala composta por obras que sugerem discussões sobre o totalitarismo, censura, repressão, desigualdade, a fome e a miséria; e, “Ações Matéricas”, espaço repleto de trabalhos onde a matéria e o gesto são tomados como ponto de partida, unindo a produção artística e as ações cotidianas à ideia de nascimento da humanidade.
O título da mostra era sugestivo: psssiiiuuu é uma figura de linguagem comum com pequenas alterações em diferentes línguas (ponto importante para uma artista que viveu em constante condição de deslocamento) e pode significar um “assobio, chamado, flerte, pedido de silêncio, segredo ou sinal”, como explicou o curador Paulo Miyada.

"Osun com abebé e ofá" (2020), Ayrson Heráclito (Foto: Pina)

Vista da exposição de Anna Maria Maiolino no Instituto Tomie Ohtake (Foto: Divulgação)

Vista da exposição de Anna Maria Maiolino no Instituto Tomie Ohtake (Foto: Divulgação)

Abertura da exposição "Yorùbáiano", de Ayrson Heráclito (Foto: Levi Fanan)
Nô Mello
Looking for Langston: I Dream a World (maio)
Inhotim
Com essa mostra, Isaac Julien nos dá uma oportunidade incrível de mergulhar no universo particular de Langston Hughes (1902-1967), poeta, ativista social, romancista, dramaturgo e colunista afro-americano que foi figura-chave do renascimento do Harlem nos anos 1920 e do movimento queer.
Os pássaros de fogo levantarão voo novamente. As formas tecidas de Jacques Douchez e Norberto Nicola (dez 2021–mar 2022)
Museu de Arte Moderna de São Paulo
Em sintonia com o hype da arte têxtil e com as comemorações em torno do bicentenário da Semana de Arte Moderna, essa mostra do MAM traz merecidamente de volta o vasto (e esquecido) legado de Jacques Douchez e Norberto Nicola como sucessores do movimento modernista.

Vista da mostra "Os pássaros de fogo levantarão voo novamente" (Foto: Karina Bacci / Estadão)

"Assemblage (Looking forLangston Vintage Series)" (1989/2016), Isaac Julien (Foto: cortesia do artista e Victoria Miro)
Oliver Basciano
Reabertura do Museu do Ipiranga (setembro)
Achei que os conflitos culturais dos últimos anos talvez pudessem diminuir em 2022, mas o grito de guerra da estupidez e do mórbido haraquiri cultural parece ter ficado mais forte. Consequentemente, não foi uma mostra de arte em si que me chamou a atenção, mas a reabertura do Museu do Ipiranga. De maneira geral, os curadores da instituição fizeram um ótimo trabalho ao contextualizar as obras históricas em torno de uma narrativa decolonial, sensível quando necessário e contundente em outros momentos.
Especificamente, foi um conjunto de ferramentas doadas o que mais me comoveu. Quando Enedino Vieira Telles morreu em Socorro (SP) em 2010, aos 88 anos, a filha não suportou vender as alfaias do seu ofício de ferreiro, guardou-as e elas entraram para o acervo do museu como símbolo da cultura vernacular. Os martelos, cinzéis, picaretas e os cabos desgastados pelo uso estão alinhados em um armário de vidro, um santuário para uma pessoa comum que teve a alegria de criar algo do zero e remetem a crença de que as ideias podem ser expressas por meio da criação. Longe de toda a política e carreirismo, é isso que quero manter firme ao pensar em arte no ano novo.

Batedeiras de uso doméstico expostas no Museu do Ipiranga (Foto: Heloisa Bortz)

Vista do Museu do Ipiranga (Foto: Heloisa Bortz)
Wanessa Yano
Raio que o parta: ficções do moderno no Brasil (fev-ago)
Sesc 24 de Maio
Apesar de acontecer no coração de São Paulo, na República, a exposição trouxe à cidade a possibilidade de observar a pluralidade modernista por meio de múltiplas narrativas e linguagens, desafiando o ideal modernista fomentado ao longo da história da arte do Brasil.
Dalton Paula: Rota do algodão (out 2022–jan 2023)
Pinacoteca
Conhecido no Brasil como ouro branco, o algodão fez parte das mercadorias de maior produção e exportação no século 19. Dalton Paula nos convida para revisitar a rota do produto do Grão-Pará aos atuais rios Mississippi (Louisiana) e Itapecuru (Maranhão), remontando a história do algodão na contemporaneidade, para além da produção têxtil.

Mostra "Raio que o parta" (Foto: divulgação)

"Rota do algodão" (2022), Dalton Paula (Foto: Paulo Rezende/Divulgação)

Obra de José Antonio da Silva na mostra "Raio que o parta" (Foto: Divulgação)