Arena Iguatemi: Beatriz Milhazes compartilha seu processo criativo

04 abr 2025
Acima: A artista Beatriz Milhazes conversa com o curador Tiago Mesquita. Foto: divulgação/SP-Arte
As cores de Beatriz Milhazes tocam as pessoas. Carioca cria da Geração 80, ela é hoje um dos maiores nomes brasileiros a brilhar no panteão internacional das artes plásticas, tendo obras em coleções de importantes museus como o MoMA e o Guggenheim, em Nova York, a Tate Modern, em Londres, o Centre Georges Pompidou, em Paris, e o nosso Masp.
Com mais de quatro décadas de atividade, Milhazes compartilhou com o crítico Tiago Mesquita seus processos artísticos e falou sobre sua carreira numa Arena Iguatemi apinhada de gente nesta sexta-feira, 4. “A minha grande ambição é introduzir um pensamento na história da abstração”, disse a pintora.
Conhecida justamente pelas abstrações de figuras florais em cores arrojadas, Milhazes passou a limpo sua trajetória e explicou certas escolhas que foram decisivas para sua carreira decolar, lembrando de quando seu nome começou a crescer no universo das artes, no início da década de 1990. “A questão cromática, com certeza é primordial. A cor vem de locais diferentes e é infinita.”, disse, referindo-se ao seu repertório abstrato.
Outra decisão que considerou precursora foi a de permanecer no Rio de Janeiro naquela época, quando houve um boom de artistas latino-americanos na cidade de Nova York. Milhazes, então, resolveu priorizar o trabalho de ateliê. “Sempre achei muito importante manter meu eixo, e meu eixo estava no Rio de Janeiro.”, contou a pintora, que vem de uma família classe média de intelectuais de esquerda. “Me preocupava também com as condições que teria para trabalhar, porque o tempo é o ativo mais precioso”.

Sempre refletindo sobre o impacto de suas escolhas, ela mostrou como se manter centralizada em uma rotina de ateliê e universidade era algo desafiador. “A pintura sempre vai puxar um grau de energia. Cada vez fica mais difícil, é como a vida – vai ficando mais desafiadora com o passar do tempo. A coisa mais importante no processo criativo é o tempo. As coisas têm que dialogar conosco, com o nosso tempo, nossas reflexões e investigações.”, resumiu Milhazes.
Perguntada pelo curador sobre como organizar seus processos internos e os momentos de criação, Milhazes fez questão de exaltar o erro como algo muito significativo em suas criações. “É fundamental estar aberto ao acaso e tirar proveito disso. Não podemos deixar que a pintura e o trabalho tome conta do processo, é preciso estar focado em um diálogo para entender que os erros podem vir e ser utilizados positivamente.”
Atualmente em cartaz no museu Guggenheim de Nova York com a exposição Collection in Focus | Beatriz Milhazes: Rigor and Beauty, a artista lembrou do espanto que teve quando percebeu-se em exposição ao lado do mestre Piet Mondrian, no mesmo museu. Nesta nova mostra, a curadoria de Geaninne Gutiérrez-Guimarães reflete como a cultura e identidade do Brasil, os períodos barroco e colonial, o Carnaval, a Tropicália, a bossa nova e os modernistas, como Tarsila do Amaral, integram o repertório da artista.

A artista da Beatriz Milhazes participa do talks na Arena Iguatemi. Foto: divulgação/SP-Arte
Durante a conversa, Mesquita falou sobre os cortes diagonais característicos da pintura da artista. Cujas composições vibrantes com formas geométricas e orgânicas tornaram seu estilo inconfundível. “É algo desafiador, é fascinante quando você trabalha com cor. É um processo evolutivo, entra uma questão formal. De introduzir elementos figurativos e revisitar a estrutura abstrata”. E os processos mudam com o tempo.
“Da pandemia pra cá, comecei a fazer sketches para pinturas. Isso foi muito interessante e me fez pensar no planejamento feito para o desenho, que vai virar pintura. Eu nunca fui uma artista que abandona coisas. Já deixei obras de lado, que ficaram, às vezes, anos repousando, e eu retorno a elas. Para avançar em uma obra, a gente precisa de tempo. Tempo para ver coisas do acaso que seriam importantes”, ponderou Milhazes.
Sobre suas origens, a artista explicou como a experimentação é algo elementar em sua produção. Para ela, “a pintura informou muito para a gravura, para a colagem. Depois, isso se inverte. A colagem e a pintura realizam um diálogo concomitante, de idas e vindas.”
A minha grande ambição é introduzir um pensamento na história da abstração
– Beatriz Milhazes
É algo desafiador, é fascinante quando você trabalha com cor. É um processo evolutivo, entra uma questão formal: introduzir elementos figurativos e revisitar a estrutura abstrata
– Beatriz Milhazes