Acervos de artistas: preservar a memória, ampliar o acesso

Beatriz Almeida
25 jun 2026
Acima: Galpão de Esculturas da Oficina Francisco Brennand, Recife. © Oficina Francisco Brennand
Em uma gaveta podem estar guardados os vestígios de uma trajetória inteira. Guardanapos rabiscados, fotografias, cartas, desenhos e documentos ajudam a contar histórias que não aparecem nas obras. Reunidos nos acervos de artistas, esses materiais compõem um universo pouco conhecido do público geral, mas essencial para pesquisadores, curadores e historiadores da arte.
No centro deste trabalho está a preservação da memória. Marilucia Bottallo, diretora técnica do Instituto de Arte Contemporânea (IAC), em São Paulo, explica: “Nossa preocupação principal é a preservação e a comunicação da memória dos artistas. E falamos em memória não num sentido saudosista, mas como ativação ou retomada do trabalho deles". O IAC reúne cerca de 20 acervos de artistas como Regina Silveira, Iole de Freitas e Carmela Gross.
A compreensão da memória como matéria viva aparece de diferentes formas quando o tópico é conservação. Mais do que guardar obras e documentos, os acervos permitem que trajetórias artísticas continuem sendo pesquisadas, reinterpretadas e apresentadas a novos públicos.

Documentos do Acervo Antonio Dias no IAC. © Equipe IAC

Documentos do Acervo Regina Silveira no IAC. © Equipe IAC
Gustavo Possamai, responsável pelo acervo da Fundação Iberê, em Porto Alegre, conta que a fundação nasceu de um projeto de vida de Maria Coussirat Camargo [1915-2014], esposa de Iberê Camargo [1914-1994], que foi compartilhado pelo artista. “Os dois compreendiam que preservar um artista significava preservar muito mais do que suas pinturas. Se esse conjunto se dispersasse, perderíamos não apenas obras, mas a possibilidade de compreender o artista em toda a sua complexidade”, afirma.
“Arquivo” é outro termo que aparece de forma recorrente. Embora frequentemente associados à guarda de obras de arte, os acervos são formados, em grande parte, por fotografias, correspondências, documentos, livros, anotações e objetos que ajudam a compreender os percursos, as relações e os processos de trabalho de um artista. Para Bottallo, esse material só ganha sentido quando volta a circular: “O arquivo não é arquivo se ele for só um papel guardado numa gaveta. Ele faz sentido apenas se entrar nesse sistema, se voltar a uma outra vida.”
Se, para Bottallo, o arquivo só existe quando volta a circular, para Marinez Teixeira, gerente de acervo e documentação da Oficina Francisco Brennand, em Recife, ele também é o que sustenta boa parte das pesquisas produzidas a partir de um acervo. “Falamos muito das obras de arte expostas, mas nem sempre falamos do que acompanha aquilo ali, que é a documentação. Ela dá subsídio para muitas pesquisas, para projetos curatoriais, para ações educativas. O acervo existe para gerar mais pessoas produzindo a partir dele", defende Teixeira.

Vista da exposição “Iberê Camargo: Quem sabe, o tempo…”, com curadoria de Carmela Gross, na Fundação Iberê em 2026. © Anderson Astor

Vista da exposição “Ivan Serpa - Documental: 1923-2023”, 2023, no IAC. © IAC
Em uma gaveta podem estar guardados os vestígios de uma trajetória inteira
— Beatriz Almeida
Como ressalta Possamai, pequenas descobertas podem transformar a compreensão de uma exposição: “Uma carta ajuda a datar uma pintura. Uma fotografia revela um detalhe perdido. Um desenho explica como determinada composição foi resolvida. É um trabalho silencioso, mas é justamente ele que torna possível tudo aquilo que chega ao público.”
Teixeira lembra que Francisco Brennand (1927-2019) mantinha cuidadosamente seus documentos, fotografias, desenhos e recortes de jornais, movido pelo desejo de que esse material permanecesse acessível ao público e disponível para pesquisa. Bottallo observa que essa preocupação vêm se tornando cada vez mais presente entre os artistas, atentos ao legado que deixarão para as próximas gerações.
Nem sempre, porém, esse processo acontece em vida ou de forma estruturada. Nesses casos, as famílias assumem um papel decisivo na preservação dos arquivos. É muitas vezes nessa passagem entre gerações que se decide o futuro de um acervo: sua dispersão ou sua preservação.

Francisco Brennand, "21 temas para pintar", 1959. © Celso Pereira Júnior / Acervo Oficina Francisco Brennand

Francisco Brennand, "Coluna", 2000. © Celso Pereira Júnior / Acervo Oficina Francisco Brennand
No caso da Fundação Iberê, esse papel foi desempenhado por Maria Coussirat Camargo. “Costumo dizer que Dona Maria não foi apenas a companheira de Iberê, mas também a grande arquivista de sua obra. Foi graças à dedicação dos dois que hoje conseguimos reconstruir processos de criação, acompanhar a circulação das obras e compreender aspectos da vida e do pensamento do artista que dificilmente sobreviveriam apenas por meio das pinturas. A memória de um artista também faz parte de sua obra”, sustenta Possamai.
No Brasil, diferentes iniciativas vêm se dedicando à preservação de acervos de artistas. Criado em 1979, o Projeto Portinari é considerado um dos pioneiros nesse campo e mantém seu acervo aberto ao público no Rio de Janeiro, assim como o Projeto Hélio Oiticica. Há também instituições que recebem pesquisadores mediante agendamento, como o Acervo Ivald Granato, em São Paulo, e o Instituto Amilcar de Castro, em Nova Lima (MG). Em ambiente digital, a Associação Cultural Lygia Clark e o Instituto Pintora Djanira disponibilizam ao público imagens e informações sobre obras catalogadas de suas artistas.
Ao preservar documentos e obras, os acervos possibilitam a produção de conhecimento. É nesse ponto que a preservação encontra a dimensão do acesso. Tanto o IAC quanto a Oficina Francisco Brennand, por exemplo, desenvolvem programas de bolsas de pesquisa, funcionando de maneiras diferentes, mas com um objetivo comum: a democratização.
Ao abrir espaço para pesquisadores, estudantes e jovens profissionais, essas iniciativas permitem o acesso a conhecimentos que muitas vezes permaneceriam restritos a ambientes institucionais.

Maria Coussirat Camargo, Iberê Camargo e o gato Martim na residência da rua Lopo Gonçalves, Porto Alegre, 1983. © Acervo documental Fundação Iberê Camargo

Registro de Iberê Camargo e Regina Silveira, artista que foi sua aluna de pintura no curso “Encontros com Iberê”, dezembro de 1960. © Acervo documental Fundação Iberê Camargo
Um acervo cumpre sua função quando a preservação se transforma em pesquisa, formação e acesso
— Beatriz Almeida
Embora atuem de maneiras distintas, as instituições citadas compartilham a mesma compreensão: um acervo só cumpre plenamente sua função quando a preservação se transforma em pesquisa, formação e acesso.
O IAC recebe pesquisadores, mas também promove exposições, encontros e apresentações de pesquisas desenvolvidas a partir de suas bolsas. Nestes projetos, obras e documentos são apresentados em conjunto, revelando aspectos menos conhecidos de suas produções.
Já a Oficina Francisco Brennand é um museu. Exposições, ações educativas e visitas mediadas funcionam como formas de aproximar diferentes públicos da obra do artista e de sua trajetória e mantê-las em circulação. O espaço coloca em prática um desejo do próprio Brennand: que as pessoas pudessem experienciar oficina da mesma forma que ele. A frase do pintor italiano Carlo Levi lembrada por Marinez Teixeira parece resumir o espírito que atravessa a instituição: “O futuro tem um coração antigo”.
Trechos do vídeo de reabertura dos Salões de Esculturas da Oficina Francisco Brennand, 2023. © Oficina Francisco Brennand

Fundação Iberê, Porto Alegre. © Nilton Santolin
A ideia de que um acervo deve permanecer ativo e acessível também está no trabalho realizado pela Fundação Iberê. A instituição mantém uma programação de exposições tanto dedicada à obra de Iberê Camargo quanto ao diálogo de sua obra com artistas contemporâneos. “Depois de quase vinte anos trabalhando na fundação, a principal lição que aprendi é que um acervo não preserva apenas o passado. Ele preserva possibilidades futuras de conhecimento. Uma obra continua viva quando segue produzindo perguntas, novos olhares e novas conversas”, diz Possamai.
Ao conservar obras, documentos e histórias, os acervos de artistas desempenham uma função que ultrapassa a esfera individual de seus criadores. Eles preservam não apenas a memória do passado, mas também a possibilidade de novas leituras, pesquisas e formas de acesso à arte. Em um país onde tantos registros se perdem, preservar e manter esses acervos em circulação é também uma forma de ampliar o acesso à arte e as histórias que ela carrega.

Gustavo Possamai na reserva técnica da Fundação Iberê. © Roberta Amaral

Reserva técnica da Oficina Francisco Brennand. © Guilherme Licurgo
Beatriz Almeida é especialista em Museologia, Colecionismo e Curadoria, com pesquisa em curadoria acessível. Bacharela em Comunicação Social, com trabalho de conclusão voltado para grafite, ativismo e publicidade. Integra o grupo de estudos de história da arte com Rodrigo Naves. Há sete anos atua nas áreas de comunicação e design no setor cultural, com passagens por galerias, museus e acervos artísticos. Atualmente, é Especialista em Comunicação da SP-Arte.