A terra como material e poética

Beatriz Almeida
30 out 2025
Acima: Expedição da Joules & Joules em Poços de Caldas, Minas Gerais, para a fabricação da tinta "Amarelo Ocre Campo Alegre" © Cortesia Joules & Joules
O uso da terra como elemento nas artes visuais não é uma novidade. Desde as pinturas rupestres, há milhares de anos, a terra serve como pigmento, suporte e testemunha da relação humana com o mundo. Mas, se nas cavernas ela era instrumento de registro e ritual, na arte contemporânea ressurge como linguagem pictórica, crítica, poética e política — uma forma de reatar laços com o planeta em tempos de esgotamento. É a partir da própria terra como elemento e presença que artistas como Marlene Almeida (Almeida & Dale e Marco Zero), Carla Santana (Quadra) e Tito Terapia (Galatea), assim como a fábrica de tintas artesanais Joules & Joules, encontram matéria e sentido para suas criações.

“Museu das Terras Brasileiras”, no ateliê de Marlene Almeida, em João Pessoa, Paraíba © Fred Jordão / Cortesia Almeida & Dale

Amostras de tinta a óleo de terras naturais brasileiras da Joules & Joules © Cortesia Joules & Joules
A Joules & Joules, criada pelos artistas Bruno Dunley (Nara Roesler), Rafael Carneiro (Luciana Brito) e hoje com Daniel Xavier na sociedade, é uma das experiências mais singulares na relação entre arte e material. O trio conduz uma extensa pesquisa sobre a fabricação de tintas e possui uma linha de pigmentos naturais, realizando expedições pelo Brasil em busca de terras coloridas. Cada amostra é um fragmento de território e tempo — o resultado é uma paleta com dez tonalidades distintas, a linha de “terras naturais brasileiras”.

A terra utilizada para o "Laranja Ocre Alterosa," de São Gotardo, Minas Gerais © Cortesia Joules & Joules

Tinta a óleo "Laranja Ocre Alterosa" © Cortesia Joules & Joules
E o projeto vai além da fabricação: a Joules é também um espaço de formação e partilha. Na sede, artistas e pesquisadores participam de cursos e trocas sobre as propriedades dos pigmentos e a alquimia envolvida em transformá-los em tinta. Dunley e Carneiro percorrem universidades e ateliês em diferentes regiões, difundindo um saber que é, ao mesmo tempo, técnico e ancestral. Essa prática se fortalece com o apoio do consultor em tecnologia de materiais de arte Caetano Ferrari, cuja trajetória de pesquisa sobre tintas artesanais inspirou gerações. Ele também é o responsável pela ponte com artistas como Marlene Almeida, que há décadas faz da terra sua principal interlocutora.

Formação Barreiras no sul da Bahia © Beatriz Almeida
O trabalho de Marlene Almeida abriu caminhos para que outros artistas pudessem reconhecer na terra não apenas um material, mas um modo de pensar
— Beatriz Almeida
Marlene é artista, pesquisadora e filósofa. Desde muito jovem, atravessa as fronteiras entre política, ecologia e arte com a mesma naturalidade com que recolhe punhados de terra do solo. Parte da 36ª Bienal de São Paulo, ela é referência incontornável quando se fala em pigmentos naturais no Brasil. Em seu ateliê, abriga o “Museu das Terras Brasileiras”, uma coleção viva que reúne amostras e registros de décadas de “escuta” da terra. Para ela, “a terra não é um arquivo morto nem um simples local de coleta”, mas uma voz de luta, denúncia e ancestralidade. Ao longo da vida, percorreu o país em busca de diferentes formações geológicas, acompanhada do filho, o artista e geólogo José Rufino, e do marido, o engenheiro Antônio Augusto. Foi observando as camadas da Formação Barreiras — que se estende do norte ao sudeste litorâneo e atravessa João Pessoa, sua cidade natal — que Marlene iniciou sua jornada. Ali, entre as falésias e o mar, aprendeu a perceber o solo como corpo e memória. Seu gesto abriu caminhos para que outros artistas pudessem reconhecer na terra não apenas um material, mas um modo de pensar.

Retrato de Marlene Almeida em campo © Cortesia Almeida & Dale

Obra de Marlene Almeida, "Terra como Alcobaça", 2025 © Damian Griffiths / Cortesia Almeida & Dale
Entre esses artistas está Carla Santana, que também faz da terra o ponto de partida de uma poética expandida. Em sua prática, pintura, performance e escultura se entrelaçam como desdobramentos de um mesmo movimento de deslocamento e escuta. Na SP-Arte Rotas 2025, apresentou, com Gilson Plano, na galeria Quadra, trabalhos resultantes de uma viagem por territórios geológicos de Minas Gerais — uma espécie de travessia em que o ato de caminhar e coletar tornou-se parte do processo criativo. Carla iniciou sua pesquisa em pigmentos naturais em uma residência no Sertão Negro, em Goiás, organizada por Dalton Paula (Cerrado e Martins&Montero), e desde então constrói uma relação com a coleta e o preparo da terra como pigmento. Recentemente, passou por Marrocos e Portugal, onde aprofundou seu olhar sobre a presença da terra nos espaços públicos e nas construções arquitetônicas. Em Marrakech, percebeu como a cor do solo molda a arquitetura urbana; no Algarve, encontrou diferentes tonalidades na paisagem. Sua investigação se volta à pergunta: onde a terra se manifesta? Em que medida ela é cultura, tecnologia e sociedade? Cada amostra recolhida é também uma narrativa territorial.

Retrato de Carla Santana no ateliê © Cortesia Quadra Galeria

Obra de Carla Santana © Julia Thompson / Cortesia Quadra Galeria
Essa percepção de continuidade entre lugar e cor também atravessa o trabalho de Tito Terapia, artista da Zona Leste de São Paulo. “Vi aquele pigmento verde no trabalho da Carla Santana e pensei: queria encontrá-lo”, conta. O desejo de encontrar uma cor, um tom específico de terra, revela a dimensão afetiva e quase mística dessa busca. O artista também participou da SP-Arte Rotas com um solo no estande da galeria Galatea. Tito iniciou sua trajetória na pixação, gesto urbano e coletivo que logo se expandiu para a pintura em tela. A partir do convívio com artistas como Rodrigo Andrade (Almeida & Dale) e Link Museu (Izabel Pinheiro), começou a pintar ao ar livre e investigar pigmentos naturais, criando tintas a partir das terras coletadas em sua própria vizinhança.
Para Tito Terapia, coletar, moer e misturar terras é uma forma de resistência e preservação da memória de lugares que desapareceram
— Beatriz Almeida

Obra de Tito Terapia © Ding Musa / Cortesia Galatea

Obra de Tito Terapia © Ding Musa / Cortesia Galatea
No Ateliê da Rapa, com Evandro Cesar e Link Museu, produz tintas a partir de solos da cidade, sobretudo da Zona Leste. Cada cor carrega fragmentos de um território ameaçado pela especulação imobiliária. Coletar, moer e misturar essas terras é, para ele, uma forma de resistência e preservação da memória dos lugares que desapareceram. Muitos dos pontos, como campos de futebol e praças, onde recolheu amostras, já deram lugar a edifícios; as cores, então, tornam-se registros de uma paisagem extinta — testemunhos minerais de um tempo recente. Tito costuma dizer que anda pela cidade com o olhar atento, pronto para parar no meio da rua sempre que vê uma terra diferente — um gesto simples que transforma o cotidiano urbano em território arqueológico.

Retrato de Tito Terapia © Ding Musa / Cortesia Galatea
Entre o gesto ancestral de Marlene, a alquimia artesanal da Joules, as travessias geográficas de Carla e o olhar urbano de Tito, a terra aparece como uma linguagem comum. Em todos eles, há uma mesma intenção de reconexão: não se trata de uma volta romântica à natureza, mas de restabelecer uma aliança interrompida. A arte feita com terra é, antes de tudo, uma forma de pensar o tempo e o pertencimento — o tempo profundo das formações geológicas e o tempo urgente das lutas humanas; o pertencimento a um território e ao próprio planeta.

Ateliê de Marlene Almeida © Fred Jordão / Cortesia Almeida & Dale

Caderno de anotações de Marlene Almeida © Fred Jordão / Cortesia Almeida & Dale
Nas mãos desses artistas, a terra não é matéria-prima: é corpo, é história, é voz. Suas cores — ocres, verdes, marrons — lembram que ainda há solo sob nossos pés, mesmo quando esquecemos de olhar para ele. Em tempos de crise e exaustão, essas práticas propõem uma pausa, um respiro e um retorno à escuta. Pintar com a terra, escavá-la, moê-la, misturá-la — tudo isso se torna um modo de permanecer no presente e de renovar o pacto entre o ato de criar e a terra que o sustenta.

Carla Santana no ateliê © Cortesia Quadra Galeria
Beatriz Almeida é especialista em Museologia, Colecionismo e Curadoria, com pesquisa em curadoria acessível. Bacharela em Comunicação Social, com trabalho de conclusão voltado para grafite, ativismo e publicidade. Integra o grupo de estudos de história da arte com Rodrigo Naves e participa do curso de reflexão da pintura com Paulo Pasta. Há seis anos atua nas áreas de comunicação e design no setor cultural, com passagens por galerias, museus e acervos artísticos. Atualmente, é especialista em comunicação na SP-Arte.