A experiência de uma artista Xukuru

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Juliana Xukuru

03 nov 2022

Acima: Festa de Mãe Tamaín, Povo Xukuru de Cimbres. Foto: Cortesia da artista

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A experiência de uma artista Xukuru

Nasci no território indígena Xukuru Ororubá e pertenço à etnia Xukuru de Cimbres, ambos situados na cidade de Pesqueira – Pernambuco, Brasil. Escrever sobre meu trajeto como uma artista indígena que chegou à universidade é como observar a navegação sobre as águas de um rio que sobe ao invés de descer. É relembrar que, enquanto estivermos em meio a um atípico movimento em busca de nossa rota, não podemos perder de vista nossa estrela. Sentir o que ela nos diz, lembrar o quanto demoramos para encontrá-la e entender, a partir disso tudo, o sentido da nossa viagem.


Para se aproximar do universo indígena Xukuru e principalmente da etnia Xukuru de Cimbres é necessário lançar um voo nas asas do Uru, pássaro sagrado que tem a penugem de seu rosto pintada de vermelho. Para isso, temos que “subir” em suas asas, olhar lá de cima do céu da Serra do Jucá ou da Serra do Ororubá e avistar o nosso “Mapa Limolaygo”, nome dado à imagem que elaborei durante as várias caminhadas em nossos territórios no intuito de evidenciar a sua forma de “útero”. Em Brobo, língua materna Xukuru, o termo Limolaygo se refere ao nome que damos à Mãe Terra/ território ancestral. Partindo de uma perspectiva mais poética, por meio do “Mapa Limolaygo” é possível compreender os territórios xucurus como este grande útero que também envolve a urbanidade da cidade de Pesqueira e que abrange tanto as áreas demarcadas quanto territórios não-indígenas no município.

Festa de Mãe Tamaín, Povo Xukuru de Cimbres. Foto: Cortesia da artista

Festa de Mãe Tamaín, Povo Xukuru de Cimbres. Foto: Cortesia da artista

Os povos Xukurus habitam desde as imediações da Serra do Jucá, às margens do sagrado Rio Ipanema, onde está localizado o território indígena Xukuru de Cimbres, até a Serra do Ororubá, onde está se situa o território indígena Xukuru Ororubá. A crença na natureza Sagrada, em Mãe Tamaín (padroeira do povo Xukuru), bem como em pai Tupã e nos Encantados de Luz são a base para nossa vida e nossas relações e dão força para nossos territórios sagrados. De acordo com a cosmovisão indígena Xukuru, quando nos defrontamos com determinada experiência, ou com lugares especiais que acabamos por ser imbuídos de ocupar, podemos entender tal experiência como um chamado. O chamado envolve um sentimento que trazemos dentro de nós algo que nos diz para seguir adiante, mesmo depois de termos passado por situações de risco, como em um processo de cura. Essa sensação de ter que cumprir um trajeto acaba se tornando vital para nós e mesmo para os vários envolvidos.


Iniciei minha trajetória acadêmica no ano de 2007 no curso de Comunicação Social ao ser contemplada pelo Programa Universidade Para Todos (PROUNI). Neste período, não havia um sistema específico de seleção para indígenas na Universidade Federal de Pernambuco, como temos em 2022. O acesso ao curso de Comunicação Social representava uma alternativa enquanto eu esperava pela oportunidade de cursar o que eu desejava: Artes Visuais em uma universidade pública. Nos anos anteriores, eu já havia passado por duas tentativas de ingresso na Universidade Federal de Pernambuco, mas dadas as instabilidades com o término do Ensino Médio e o assassinato de meu pai, entrar e manter um curso de quatro anos em uma capital parecia quase impossível. Foram muitas as idas e vindas entre Pernambuco e Paraíba em meio às tentativas e quase desistências de terminar o curso de Comunicação Social.


Neste sentido, também comparo a minha experiência do acesso à universidade com a experiência da subida íngreme do percurso da parte baixa do nosso Rio Ipanema até o alto da nossa Serra do Jucá, pois, da aldeia até a universidade, e principalmente, da universidade à aldeia, há todo um esforço que significa o nosso comprometimento com o verdadeiro sentido dessa caminhada. Meu acesso à universidade se aproxima dos percursos de outros jovens indígenas Xukurus de nossos territórios, e mais precisamente dos jovens de minha aldeia Mãe Maria, localizada no território Indígena Xukuru de Cimbres. É este sentido de comprometimento coletivo que nos faz sentir e ser Xukuru e que também nos alimenta e fortalece para sermos nós mesmos.

Questionamentos: a graduação em artes visuais, 2010

A graduação em Artes Visuais teve um significado muito especial para mim, uma vez que representava a realização de um sonho alimentado desde a infância, sobretudo por influência de meu pai. Em 2010, enquanto ainda cursava comunicação, consegui iniciar essa nova trajetória no curso de Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Federal da Paraíba. Nesse período, tanto a ajuda de uma família adotiva quanto as encomendas que eu recebia para a pintura de retratos foram meus principais meios de manutenção.


Desde o início vivenciei muitos embates. Eu começava a sentir algumas das contradições desse espaço de conhecimento em que eu tanto queria estar. Dentre os sentimentos havia a sensação de que quase tudo o que eu produzia, os meus trabalhos em arte que eu fazia desde muito tempo, estavam sempre sendo comparados ao que me era apresentado nos livros de Crítica e de História da Arte. Me acompanhavam também, dúvidas sobre como corresponder, como artista que passava por uma formação acadêmica, às expectativas dos espaços de inserção e legitimação como galerias de arte e museus; principalmente os de arte contemporânea. Embora nada chegasse a me desmotivar, eu pensava sobre como eu deveria me “encaixar” e me perguntava como poderia me revelar naquele espaço.


Outra pergunta que repetidas vezes me fazia, era: por que nós, alunas e alunos de licenciatura em Artes Visuais, ficamos muito mais instigados com a ideia de expor nossos trabalhos como artistas do que com a oportunidade de realizar um trabalho educativo nos museus. Essas ponderações me ocorriam ao cursar as disciplinas de Educação, que eram exatamente aquelas nas quais eu me sentia mais livre para questionar alguns sentidos desse processo de formação que eu estava vivenciando. Esses questionamentos me moveram pelas experiências nos diferentes estágios obrigatórios, pela participação no Programas de Iniciação à Docência (PIBIDI) e pela oportunidade que tive de trabalhar com curadoria educativa em um importante museu de cultura, ciências e artes.

Despertar: o mestrado em artes visuais, 2016

As diferentes experiências vividas foram partes essenciais para meu outro ponto de chegada: o Mestrado em Artes Visuais na Universidade Federal da Paraíba, em um Programa de Pós-Graduação Associado à Universidade Federal de Pernambuco. Ali, como pesquisadora no mestrado, comecei a compreender melhor o poder colonizador das/pelas imagens e de como o sistema da colonialidade as mantém e se isenta de suas responsabilidades. Por que narrativas, imagens ou aquilo que constitui o que entendemos como memória não são consideradas suficientemente boas para ser divulgadas, preservadas, compartilhadas de forma acessível, mesmo para a posterioridade? Comecei a entender melhor como as práticas de apagamento alimentam as diferentes estruturas de dominação. Dessas estruturas, participam aqueles que controlam e legitimam o que deve ou não deve ser mostrado, preservado e ativado.


Neste sentido, passei a pensar sobre o lugar que as diferentes instituições, como os museus de Artes Visuais ocupam enquanto propositoras de processos de mediação cultural. Se um museu não compreende, por exemplo, a relevância de ter em seu acervo obras/trabalhos de artistas mulheres indígenas, negras ou racializadas, ele acaba corroborando os processos de dominação.

"Kiplé - mapa da vida" (2019), colagem digital, Juliana Xukuru. Foto: Cortesia da artista

"Kiplé - mapa da vida" (2019), colagem digital, Juliana Xukuru. Foto: Cortesia da artista

A universidade como território para as ciências dos povos originários

Foi nesse contexto que comecei a considerar a cosmovisão e cosmogonia indígena do meu povo Xukuru como principais referenciais para meus processos de pesquisa e poética, seja na prática da criação teórica ou na materialização das formas pelos diferentes meios que utilizo em meus trabalhos.


A nossa crença ou nossa ciência baseada nos Encantados e na Natureza Sagrada nos ensina que existem muitas outras direções além das que foram apontadas pela “bússola” do homem branco, mesmo que não consigamos ver ou perceber. Colocar a percepção de um único indivíduo como centro do mundo não faz sentido diante dos diferentes conhecimentos elaborados por vários povos, comunidades, cada uma com seus próprios referenciais.


Foi a partir dessa forma de compreender o mundo e da inseparável relação entre sociedade e natureza que nasceram as “Cartas Celestes”, uma série de trabalhos em grafismos, desenho e pintura por meio dos quais materializei a cosmovisão Xukuru. Foi em meio a esse processo de pesquisa do mestrado que compreendi que elas poderiam ser aplicadas para pensar as intrínsecas relações entre sociedade, museu e Artes Visuais.


No contexto do território Xukuru de Cimbres, tanto a arte quanto a educação exercem um papel especial, dado que nossas lideranças atuam também como mestres em nossa escola. Ali, as disciplinas se entrelaçam e dialogam entre si por meio da arte indígena. Nosso espaço escolar é o próprio território e não apenas os espaços entre as paredes e muros das salas de aula. É a partir desse nosso entendimento de “escola” e da nossa arte Xukuru que a nossa educação acontece de forma intrínseca e diferenciada (bem como em outros territórios indígenas no Brasil).


É durante o cotidiano que nossa crença nos Encantados e na Natureza Sagrada, bem como em nosso pai Tupâ e Mãe Tamaín, repercutem na forma como entendemos nossa relação com o território, com nosso povo e com todo corpo mãe terra. Nosso compartilhamento de saberes envolve nossos referenciais culturais, desde a nossa língua materna, o Brobo (em processo de revitalização), até a prática de nossos rituais, a exemplo do Toré, ensinado desde a infância, ou a Busca da Lenha; esta última unida às comemorações a nossa Mãe Tamaín, padroeira de toda a nação Xukuru.

Esse ensino diferencial indígena é construído e mantido graças a um esforço coletivo de fortalecimento, no qual pensamos, definimos e realizamos nossas ações com participação de toda a comunidade, tanto os Opipes (mais jovens) quanto os Toypes (mais velhos). Trata-se de um “lugar” que nos mantém ativos numa rede de fortalecimento contínua que nos alerta para a vida que precisamos enfrentar fora do nosso território. Neste sentido, tanto a educação como a arte indígena representam um instrumento de lutas, de reafirmação de nossa etnia e de nossa cultura pensada como instrumento necessário para a manutenção da nossa vida dentro e fora do território, se estendendo ainda para contribuição do contexto que o homem branco chama de sociedade.


Nosso modo de vida, bem como ocorre em outros povos originários do Nordeste, continua sendo atacado o tempo todo pelas nuances de um sistema colonial ainda não findado; mesmo em meio aos cenários que o homem branco chama de “desenvolvimento global”. Embora não tenhamos mais que nos esconder para falar nossa língua materna e realizarmos nossos rituais, entendemos que é necessário todo um esforço para que nossos referenciais continuem vivos, e por isso, continuaremos em posição de defesa diante das atuais formas de dominação.


A universidade tem sido um lugar de extensão para mim, enquanto artista e pesquisadora indígena e, consequentemente, para meu povo e nossa aldeia. Acredito que as ciências dos povos originários possam ter seu lugar de fortalecimento dentro da academia, diante do amadurecimento desse espaço de conhecimento que aos poucos vai reconhecendo o seu papel e responsabilidade junto às lutas sociais.


Compreendo também que é na universidade que nós, povos originários, aprendemos a fortalecer nossas formas de sobrevivência para além de nosso território. Trata-se, ali, de entender que a preservação da memória e a expansão dos conhecimentos originários é importante não apenas para nós, os povos originários, mas para todos que habitam nosso planeta Terra, pois, é sabido que aceitar a perpetuação de um único sistema de pensamento hegemônico que não deu conta de considerar e tratar do nosso meio ambiente e sua intrínseca relação vital para com a humanidade é o mesmo que, ignorar “O desabar do céu” que vem acontecendo diante dos nossos olhos, como bem nos lembra Davi Kopenawa.



Histórias do presente

O contexto indígena das etnias do povo Xukuru pode nos oferecer um bom exemplo de como os povos indígenas do Nordeste tiveram e continuam tendo, de forma muito atuante, um lugar na história do Brasil. O direito ao território demarcado e o direito de exercermos nossa cultura de forma independente conforme cada povo e território deriva dessas lutas.


Além das diversas maneiras de perceber o mundo e se relacionar com ele conforme crenças, rituais e sistema de educação próprios, é a partir das várias formas de organização territorial que os povos indígenas do Nordeste garantem a sobrevivência frente às estruturas de dominação e aos enfrentamentos presentes na conjuntura atual do Brasil: mineração, invasões, grilagem e tentativas de extermínio de diferentes etnias.

"Colhendo estrelas" (2021), fotoperformance, Juliana Xukuru. Foto: Cortesia da artista

"Colhendo estrelas" (2021), fotoperformance, Juliana Xukuru. Foto: Cortesia da artista

Entre as principais lutas de nossos povos indígenas do Nordeste está o direito ao acesso a espaços de conhecimentos e espaços políticos. Compreendo que é por meio da imersão nesses espaços que estaremos garantindo nossos direitos, nossa memória e uma possível modificação das arquiteturas coloniais de poder. Atualmente, percebo que a universidade vem se esforçando para abrir e otimizar caminhos a fim de garantir que jovens indígenas não apenas tenham acesso à mesma, mas que possam concluir de maneira digna seus estudos sem que, para isso, tenham que se afastar por muito tempo de seus territórios e da comunidade.


No que se refere ao contexto Xukuru de Cimbres, a nossa presença na universidade representa a oportunidade de trabalhar um dos princípios mais importantes de nossa prática diferenciada de ensino: a descolonização do imaginário. A história única nos mostra que, por muito tempo sofremos com a colonização do imaginário pelo branco, que insiste em dizer que a nossa história parou no passado, ou que o que fazemos não é arte, ou que temos uma só cara, um só jeito de ser indígena. Por isso, cada vez mais entendemos que são os vários sentidos de Ser Xukuru, oriundos da nossa ancestralidade, que queremos passar para nossos “opipies”, nossas crianças e jovens.


É por meio de alianças afetivas cada vez mais intensas entre muitos movimentos dos povos originários do Nordeste, seus aliados e apoiadores que essas problemáticas vem ganhando visibilidade. Na Marcha das Mulheres Indígenas, em 2021, diferentes propostas inspiradas pelo tema “Reflorestar as mentes” foram compartilhadas e posteriormente continuadas no Acampamento Terra Livre, que trouxe como tema “Aldear a Política”. Nesse sentido, temos como resultado o fortalecimento da visibilidade de candidaturas de mulheres indígenas, assim como a relevância dessa ativação, por meio da qual lideranças de diferentes territórios originários do Brasil estão sendo “convocadas” por seus povos, a lutarem por pela participação na construção de uma outra arquitetura de país.

"Toype Mãe Kalu" (2019), colagem digital, Juliana Xukuru. Foto: Cortesia da artista

"Toype Mãe Kalu" (2019), colagem digital, Juliana Xukuru. Foto: Cortesia da artista

Neste ano de 2022, tivemos a conquista do curso de interculturalidade na Universidade Federal de Pernambuco. Para a nossa aldeia, foram destinadas duas vagas a partir de um primeiro processo de seleção direcionado a indígenas. Para nós, povo Xukuru de Cimbres, isso sinaliza um exemplo de como a universidade vem se atentando ao debate dos direitos indígenas. Embora tenhamos ainda um longo caminho para cultivar, podemos considerar que o acesso ao Ensino Superior tem trazido diferentes benefícios para nossa comunidade, uma vez que temos em nosso território professores, advogados, médicos e outras diferentes profissões que já estão sendo exercidas pelo nosso próprio povo.


Ao recuperarmos essa história é possível observar como as culturas dos povos indígenas do Nordeste e de todo o Brasil se fortaleceram e se ampliaram diante das investidas de apagamento e genocídio do período colonial e entender como os corpos dos nossos povos acompanham ou respondem às constantes atualizações das estratégias de dominação do sistema colonial, que ainda permanecem.