A era do design

Por Debora Mateus
07 mar 2025
Acima: Lucas Recchia, coleção “Elemental Echos” na Bossa Furniture. Foto: Joe Kramm
É inexorável, o design se reconfigura, impelido por novas perspectivas globais e nacionais. Nos ecos contemporâneos que esculpem o futuro, a relação entre forma e função se reinventa, à luz das macrotendências recentes. Movimentos que redefinem a maneira de pensar e criar neste campo, em resposta às exigências de um tempo em constante transformação. O design evolui para ressignificar a forma como vivemos o mundo no contexto de múltiplas conexões que atravessam cultura, soluções sustentáveis inovadoras, tecnologia e coletividade.
Em toda a sua pujança cultural, a SP-Arte se firma como catalisadora da confluência entre arte e design. Este setor, presente na feira desde 2016, alça um patamar significativo em 2025. Arena profícua para novas abordagens, ao mesmo tempo que preserva o legado histórico do design brasileiro.
No cenário global, as apostas preconizadas por circuitos como a Semana de Design de Milão (Salone del Mobile e Fuorisalone), e a feira Ambiente, em Frankfurt, para os próximos anos, versam sobre o aprimoramento da vida cotidiana ancorada na essência humana.
Emoção e criatividade evoluem no entremeio da investigação material, alavancada pela inovação sustentável. Artesania e tecnologia resgatam o primor das técnicas ancestrais ao mesmo tempo que contam com recursos digitais, como impressão 3D e cortes de precisão. A interação entre físico e digital melhora lares e cidades. Os interiores celebram a autenticidade. Trocas culturais devem impulsionar abordagens inclusivas. Elementos naturais, como cerâmica, argila e madeira, ganham maior amplitude, pelo apelo ambiental e tátil -, que também reforça as criações têxteis inovadoras.

Um dos lançamentos da Etel, a mesa central "Tomie", criação de Ruy Ohtake em 1969, adaptada em reedição por Rodrigo Ohtake. Foto: Ruy Teixeira
A valorização da produção nacional cresce, tanto no Brasil quanto no mundo, e fomenta o diálogo entre as expressões contemporâneas e modernistas. Nesta edição da mostra, a Etel consolida seu papel como uma das maiores embaixadoras do design brasileiro, com a apresentação de móveis inéditos que reverenciam tradição, excelência da artesania e o legado dos grandes autores.
Entre os destaques, a mesa central Tomie Ohtake, concebida por Ruy Ohtake - em concreto (1969), ganha adaptação em madeira na reedição por Rodrigo Ohtake, uma homenagem à herança familiar que atravessa três gerações.
Móveis de mestres modernos como Joaquim Tenreiro dialogam com lançamentos de Percival Lafer. Somam-se ainda criações contemporâneas, que fundem madeira e metal, criadas pelo studio mk27 e por Claudia Moreira Salles, primeira designer a trabalhar com a marca.
O design evolui para ressignificar a forma como vivemos o mundo no contexto de múltiplas conexões que atravessam cultura, soluções sustentáveis inovadoras, tecnologia e coletividade

Raras criações de Giuseppe Scapinelli são exibidas pela Galeria Teo. Foto: André Scarpa
A galeria Teo lança a exposição curada por Francesco Perrotta-Bosch, que revela a dimensão escultórica do mobiliário assinado por Giuseppe Scapinelli (1911-1982), designer italiano radicado no país desde 1947. O acervo de peças inéditas adquiridas em importantes residências paulistas, destaca a delicadeza de seus desenhos e a trajetória no país, tanto no design de mobiliário quanto nos interiores. Móveis e objetos raros, como banquetas com sofisticados encaixes de ferro e latão, além de criações esculpidas em caviúna e jacarandá desvelam uma nuance menos conhecida de sua obra.
As tendências nacionais ressoam nas globais. No Brasil, amálgamas exploratórios nutrem o processo de parte da nova geração de designers, que encontra na Barra Funda, polo criativo em ascensão em São Paulo, um espaço de expressão. Ao se libertarem das amarras tradicionais, eles investigam as primazias técnicas de correntes anteriores, mas incorporam suas visões conceituais.
Surgem novas linguagens reflexivas e instigantes. A dissolução entre design e arte revoluciona ao empregar formas que surpreendem. Mais radical, a questão sustentável alicerça os processos produtivos. Texturas e materiais também alimentam esse matiz experimental.

Alex Rocca intensifica o estudo iniciado na série "Altar" em nova coleção de tapeçarias. Foto: Felco

Pedro Ávila (Aalvo Gallery), mesa lateral "Cáravo". Foto: Rafaeo Paiva
Pedro Ávila, com ateliê na Barra Funda e representação da galeria Aalvo, tem presença internacional na Europa, Oceania e Estados Unidos. Para sua estreia na SP-Arte, exibe A Delicadeza e a Brutalidade: móveis esculturais que revelam a dualidade das forças opostas.
Pedra, mármore, inox e papel pergaminho evocam contradições essenciais ao ato de criar, uma crítica à extração e transformação da matéria, em permanente tensão entre nascimento e destruição. A poética transita entre o pós-moderno e o ancestral, o imponente e o efêmero.
Alex Rocca enaltece a riqueza cultural das joias crioulas. A coleção Herança, incorpora vidros e pedrarias às suas tapeçarias, que ganham profundidade religiosa. Parte de uma nova faceta criativa que investiga as raízes afro-brasileiras e se debruça sobre tesouros desconhecidos, mas preservados em museus, como tronos, mantos e outros artefatos - reflexo da potência de uma herança ancestral.
Para sua individual, Lucas Recchia exibe a série Eche. Peças escultóricas em bases de bronze se associam a estofados artesanais, com tecidos e lã natural da italiana Loro Piana. Outras obras inéditas que aprofundam a plasticidade do bronze em combinações com o vidro, elemento central em sua pesquisa, também convidam a refletir sobre o papel do design colecionável como território artístico, em diálogo contínuo entre técnica, matéria e função.

Rodrigo Ohtake para a Granistone, banco "Ritmo": blocos de 100kg esculpidos na rocha Speranza e assento de couro preso por botões de inox. Foto: Divulgação

Attom exibe peças sustentáveis que evidenciam primazia construtiva e atemporalidade, a exemplo da cadeira "Mantik". Foto: Layla Motta
No Brasil, amálgamas exploratórios nutrem o processo de parte da nova geração de designers, que encontra na Barra Funda, polo criativo em ascensão em São Paulo, um espaço de expressão
Novos objetos em cerâmica, papel machê e estofados perpassam a pesquisa de Humberto da Mata, centrada na construção manual e nas possibilidades que surgem a partir da exploração dos materiais. A coleção Orgus, iniciada há seis anos, evoluiu ao incorporar o papel machê, ampliando as possibilidades criativas de seu trabalho.
Após seis anos de sua estreia no Brasil e na SP-Arte, Vera Odyn retorna com a exposição “Vibrant”. Os objetos esculturais aprofundam a interação matérica e a plasticidade das formas, como a Clipchair e as criações #8, #9 e #10. A obra revela a transformação da argila e do alumínio, flui entre o escultórico e o funcional, capturando a essência sensorial da natureza.

Humberto da Mata, "Orgus N.45". Foto: Giuliana Ramaglia

Vera Odyn x Form, "Clipchair". Foto: Eduardo Cecílio