A cena artística contemporânea do Goiás

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Beatriz Almeida

29 mai 2025

Acima: Miriam Inez da Silva, "Sem título", 1974. Foto: cortesia Cerrado Galeria

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Sim, do Goiás, como se diz popularmente. O estado da terra vermelha, do cerrado e do sertanejo dá também exemplos de colaborações frutíferas entre artistas de diferentes gerações. A cena artística é vibrante, para além da música. Neste texto, selecionamos alguns destaques do passado e do presente para mostrar que Goiás respira arte nos mais diversos meios.



FEIRA DE ARTE


Desde 2017, a capital, Goiânia, conta com a FARGO, Feira de Arte de Goiás, como um ponto de encontro para quem é do meio. Neste ano, ela aconteceu de 14 a 18 de maio e homenageou os artistas Sáida Cunha e Antonio Poteiro, figuras conhecidas da região. O evento reúne galerias de arte, instituições como a Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás e ateliês coletivos de artistas como o RENKA, formado por André Morbeck, Danilo Itty, Douglas de Castro, Ebert Calaça, Mateus Dutra e Renato Reno. Esses artistas têm um passado rico para referenciar.

Feira de Arte de Goiás, FARGO, 2025. Foto: cortesia FARGO

Feira de Arte de Goiás, FARGO, 2025. Foto: cortesia FARGO

Estande do ateliê coletivo RENKA na FARGO 2025. Foto: cortesia FARGO

Estande do ateliê coletivo RENKA na FARGO 2025. Foto: cortesia FARGO

A presença de uma universidade federal com um curso de artes visuais é um motor para manter o cenário ativo

— Beatriz Almeida

PASSADO E PRESENTE


Miriam Inez da Silva (1937-1996), artista de Trindade, cidade no interior goiano, iniciou sua produção na xilogravura e migrou para a pintura. Ao retratar manifestações religiosas, de cultura popular e outros temas, acabou por reunir em sua obra um testemunho da modernização do Brasil no século 20. Antes vista como “naïf”, a artista passa hoje por um processo de reposicionamento, acompanhada de outros nomes que, no passado, foram relegados à categoria de popular e receberam críticas por vezes enviesadas de seus trabalhos.


Outra referência para as artes visuais não só da região mas nacionalmente é Siron Franco, 77 anos, artista que nasceu, cresceu e vive em Goiânia e é representado pelas galerias Cerrado, na capital goiana e em Brasília, e Paulo Darzé, em Salvador. O artista carrega anos de produção em pintura, escultura, gravura e desenho, com uma linguagem predominantemente pictórica que flerta com o surrealismo e a abstração. Suas obras também oferecem uma leitura sobre cenas da cultura brasileira e goiana, além de críticas sociais. Siron é ainda colecionador e mecenas de artistas da cena local. O artista dará nome a um instituto que está em construção. O espaço será vizinho à galeria Cerrado, em Goiânia.

Siron Franco, "O chefe", 1992/2022. Foto: cortesia Cerrado Galeria

Siron Franco, "O chefe", 1992/2022. Foto: cortesia Cerrado Galeria

Com um papel no fomento e na descentralização das artes visuais no país, a Cerrado Galeria, com sedes em Goiânia e Brasília, foge do eixo tradicional das galerias ao priorizar, entre seus objetivos, a formação de público. A galeria, inaugurada em 2023, conta com uma equipe educativa e recebe visitas de escolas da região para promover o acesso à arte moderna e contemporânea na cidade, algo incomum entre as galerias de arte. Os artistas representados são de todas as partes do Brasil, mas a maior parte vem do estado goiano.

Cerrado Galeria, em Goiânia. Foto: cortesia Cerrado Galeria

Cerrado Galeria, em Goiânia. Foto: cortesia Cerrado Galeria

ARTISTAS EM DIÁLOGO


Alguns nomes em especial contribuem para a expansão da cena das artes visuais em Goiás. É o caso de Dalton Paula, 43 anos, que vive em Goiânia e é formado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás. Representado pelas galerias Martins&Montero (São Paulo) e Cerrado, Dalton é um dos artistas mais influentes no Brasil. Juntamente com sua companheira Ceiça Ferreira, ele fundou, em 2021, o Sertão Negro, um ateliê-escola que se apresenta como um quilombo: um espaço de criação, vivência e interação com o meio ambiente, além de residência artística.


Artistas como Manuela Costa Silva e Genor Sales, ambos representados pela Cerrado Galeria, passaram pelo Sertão em momentos diferentes e destacam como essa experiência transformou a percepção e o envolvimento deles com a arte.

Retrato de Dalton Paula. Foto: cortesia Cerrado Galeria

Retrato de Dalton Paula. Foto: cortesia Cerrado Galeria

Visita mediada no Sertão Negro com Dalton Paula. Foto: Jhony Aguiar/cortesia Cerrado Galeria

Visita mediada no Sertão Negro com Dalton Paula. Foto: Jhony Aguiar/cortesia Cerrado Galeria

Manuela Costa Silva, 31 anos, natural de Goiânia, tem sua pesquisa poética profundamente ligada ao natural e ao sobrenatural; à vida, à morte e à beleza que as atravessa. Sua arte reflete também sua conexão com a natureza, a magia e o desejo de “encontrar o mar em mim”, como ela diz. Influenciada por artistas como Ana Mendieta, Tunga e Farnese de Andrade, segundo ela, “a magia é dispor elementos, colocar intenções, ainda que seja inconsciente, e fazer agentes de significados”. Ela participou do início do Sertão Negro, de 2019 a 2022, e leva consigo o aprendizado desse período como um legado, passando agora seus ensinamentos a uma artista que estagia em seu ateliê.

Manuela Costa Silva, "Floema", 2022. Foto: Paulo Rezende/cortesia da artista

Manuela Costa Silva, "Floema", 2022. Foto: Paulo Rezende/cortesia da artista

Manuela Costa Silva, "Piravá", 2022. Foto: Paulo Rezende/cortesia da artista

Manuela Costa Silva, "Piravá", 2022. Foto: Paulo Rezende/cortesia da artista

Genor Sales, 41 anos, também de Goiânia, frequentou o Sertão de 2022 a 2024 e foi lá que nasceu sua pesquisa “Peixe fora d’água”, que aborda o corpo que se sente deslocado de seu lugar de origem. O artista, indicado ao Prêmio PIPA 2025, também aborda questões sociais, raciais e alimentares em suas obras. Genor reconhece e dá continuidade ao aprendizado adquirido no Sertão por meio de um projeto coletivo com outros artistas do quilombo. Junto com Abraão Veloso, Lucélia Maciel, Tor Teixeira, William Maia e Xica fundou a Associação Jatobá Nascente, um ateliê-casa e centro de arte-educação, localizado ao lado do Sertão Negro. Este espaço materializa a herança do Sertão e dá continuidade à força dos coletivos e dos espaços culturais independentes.


Outros movimentos que merecem atenção na cena goiana são os salões de arte, como o Anapolino, o mais conhecido atualmente. Contudo, outros salões, como o de Jataí, também desempenham um papel crucial na formação dos artistas goianos. O Salão Anapolino, que começou com um foco regional, expandiu-se para o cenário nacional. Atualmente, possui um acervo de obras e atua como uma espécie de agente de formação para novos artistas, como é o caso de Talles Lopes, nascido em Anápolis e também representado pela Cerrado Galeria.

Genor Sales, série "Dos peixes", 2024. Foto: Paulo Rezende/cortesia do artista

Genor Sales, série "Dos peixes", 2024. Foto: Paulo Rezende/cortesia do artista

Talles Lopes, 27 anos, também é um jovem artista de destaque. Formado em arquitetura, realizou diversas residências artísticas, incluindo na Delfina Foundation, em Londres, e foi assistente de Dalton Paula. Sua pesquisa está intimamente ligada à arquitetura e busca representar o interior do Brasil, sempre com uma crítica à manutenção das heranças coloniais no país. Ao lado dos artistas Joardo Filho e Valdson Ramos, fundou o Barranco Ateliê, em Anápolis, que também promove exposições, residências artísticas e conversas. O Barranco Ateliê se configura como mais um espaço de troca, formação de público e apoio à cena artística local.


O Barranco Ateliê, assim como outros ateliês, residências, feiras e espaços culturais, é mais um local para conhecer novos artistas e explorar outras perspectivas sobre a arte contemporânea.

Talles Lopes, "Excedente Monumental", 2020. Foto: Ricardo Miyada/cortesia do artista

Talles Lopes, "Excedente Monumental", 2020. Foto: Ricardo Miyada/cortesia do artista

Barranco Ateliê. Foto: cortesia do ateliê

Barranco Ateliê. Foto: cortesia do ateliê

SILÊNCIO SERTANEJO


Uma dessas perspectivas, mote constante na obra de diversos artistas, é o silêncio sertanejo. Jesus José, 42 anos, de Trindade (terra natal de Miriam Inez da Silva), é um dos nomes que aborda esse silêncio em seus trabalhos. José teve pinturas expostas no estande da galeria Claraboia na última edição do Rotas, em 2024, e no estande da galeria Arte Plena na FARGO 2025.


O artista, que hoje vive em São Paulo, utiliza a matéria na pintura para mostrar e ao mesmo tempo esconder, criando figuras indefinidas, quase abstratas, indizíveis e misteriosas, que transmitem o silêncio da vida no interior de Goiás. Jesus dialoga com o povo sertanejo: o trabalho árduo e repetitivo, quando a conversa fica para o final de semana e se torna música e causos; essas histórias contadas nos interiores do Brasil. Outros artistas também expressam esse silêncio em suas obras, muitos deles encontrando eco nas formas musicais.

Jesus José, "Pois as palavras foram", 2024. Foto: cortesia do artista

Jesus José, "Pois as palavras foram", 2024. Foto: cortesia do artista

Jesus José, "Alegria de viver", 2025. Foto: cortesia do artista

Jesus José, "Alegria de viver", 2025. Foto: cortesia do artista

O silêncio sertanejo aparece em vários trabalhos: quando a conversa fica para o final de semana e se torna música e causos

— Beatriz Almeida

O estado goiano configura-se assim como um ponto de inspiração para pensar em outras formas de fazer arte. Neste contexto, a presença de uma universidade federal com um curso de artes visuais é um motor para manter o cenário ativo. A pesquisa e o espaço da universidade contribuem para o fomento à arte, como é o caso do Centro Cultural da Faculdade de Artes Visuais da UFG, que de maio a junho deste ano apresenta a exposição "Não vou negar: artes visuais, território e música sertaneja", com curadoria de Paulo Duarte-Feitoza. A mostra reúne diversos artistas estabelecidos e emergentes, propondo um diálogo profundo entre a arte e a música sertaneja, expressando não só silêncio peculiar mas também a força da vida no Centro-Oeste brasileiro.

Vista da exposição "Não vou negar: artes visuais, território e música sertaneja". Foto: Beatriz Almeida

Vista da exposição "Não vou negar: artes visuais, território e música sertaneja". Foto: Beatriz Almeida

Beatriz Almeida é especialista em Museologia, Colecionismo e Curadoria, com pesquisa em curadoria acessível; bacharela em Comunicação Social, com trabalho de conclusão voltado para grafite, ativismo e publicidade; e integra o grupo de estudos de história da arte com Rodrigo Naves. Há seis anos atua nas áreas de comunicação e design no setor cultural, com passagens por galerias, museus e acervos artísticos. Atualmente, é Especialista em Comunicação da SP-Arte.