200 mil quilômetros de arte popular pelo Brasil

Meu interesse pela arte popular brasileira não veio de berço.
Foi um tempo depois que me mudei para São Paulo para cursar publicidade que, por acaso, visitei a exposição “Teimosia da imaginação”, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em 2012. Com curadoria de Germana Monte-Mór e Rodrigo Naves, a mostra exibiu a obra de dez artistas da chamada arte popular: Véio, Zé Bezerra, Dona Izabel, Francisco Graciano, Antônio de Dedé, Galdino, Getúlio Damado, Nilson Pimenta, Jadir João Egídio e Aurelino. Ali, só eu de ingênuo – não conhecendo nenhum dos nomes, entrei sem esperar nada e saí com a cabeça a mil.
Aos poucos, comecei a descobrir mais sobre esses e outros nomes em livros, conversando com amigos e nas informalidades com curadores e pesquisadores. As idas de ônibus ao trabalho na agência de publicidade, onde era assistente de arte, também serviam de espaço para devorar as poucas publicações sobre arte popular (usarei o termo, embora com ressalvas). O escritor uruguaio Eduardo Galeano a traduz como um complexo sistema de símbolos de identidade que o povo cria e preserva: gestado pela tradição, estimulado pelo viver cotidiano, permeado pelo inconsciente e repleto de um sentimento de coletividade. É memória escrita repleta de sotaques.

Com o artista Zé Bezerra. © Arquivo pessoal

Obras de Manuel Graciano, Itamar Julião, Véio e Artur Pereira na coleção de Renan Quevedo. © Arquivo pessoal
Foi em 2015, de maneira abrupta, que decidi fazer minha primeira viagem a campo. Em uma sexta-feira à noite, aluguei um carro e dirigi 14 horas durante a madrugada até chegar no Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, para conhecer uma ceramista que eu só conhecia dos livros: Noemisa Batista dos Santos. A dificuldade para acertar o caminho até sua casa, na zona rural, me tirou da rota certa algumas vezes e, quando finalmente cheguei, o encontro aconteceu permeado de curiosidade por sua produção.
Durou apenas 40 minutos – o tempo que eu tinha antes de voltar as 14 horas até São Paulo para trabalhar na segunda-feira de manhã. Foi tão transformador a ponto de marcar a mesma viagem para o mês seguinte. E fui. A segunda, depois a terceira, a quarta, a décima vez também (em tempo real: no total, foram mais de 40 idas ao Vale do Jequitinhonha até hoje).

Obra de Mestre Vitalino, que estará presente no estande do Novos Para Nós na edição de Rotas 2025. © Divulgação

Obras de Noemisa Batista dos Santos e Ulisses Pereira Chaves na coleção de Renan Quevedo. © Arquivo pessoal
Quando me dei conta, havia riscado o mapa em diferentes rotas para conhecer agentes da cultura popular
— Renan Quevedo

Com os artistas Seu Antonio e Irinéia. © Arquivo pessoal
Os 2.300 quilômetros de cada uma dessas viagens não faziam jus ao complexo contraste entre a narrativa e a vida de Noemisa. Aprendi que ela modelava, com o barro, cenas do cotidiano: ceramistas, caçadores, fiandeiras, costureiras, médicos, carros de boi, policiais, bailinhos. E também sonhos que, de alguma forma, deu conta de viver. Foi aí que me deparei com uma confissão: queria ter casado, e já que não havia sido possível, gostaria de ser enterrada de noiva. Era a primeira vez que ela contava isso para alguém. Entre as tantas dúvidas que surgiram na hora, havia uma certeza: ouvir as histórias por trás das obras me ajudava a compreender melhor o contexto local, as críticas atreladas, o denso repertório do artista.
Quando me dei conta, já havia riscado o mapa em diferentes rotas com o intuito de conhecer agentes da cultura popular. Assim aconteceram os encontros com Manuel Eudócio, Véio, Zé Bezerra, Espedito Seleiro, Maria Lira, Resêndio, Antônio de Dedé, Aberaldo, Vieira, Irinéia, Getúlio Damado, Francisco Graciano, Aurelino, Jadir João Egidío e outros artistas espalhados pelas cinco macrorregiões do país. As conversas revelavam incríveis relatos sobre as produções e a mala voltava com o que o restinho do salário desse conta de comprar. Com as reações dos meus amigos, que vinham em casa e ficavam curiosos com os objetos, percebi que havia um infeliz distanciamento entre a minha geração e o tema. E, ao passo que o interesse em ouvi-los aumentava, meu trabalho na agência de publicidade deixava de fazer sentido.

Pinturas de Ranchinho e esculturas de Zé Bezerra na coleção de Renan Quevedo. © Arquivo pessoal

Obras de Marcelo Conceição. © Arquivo pessoal
Tudo mudou quando, em 2017, inspirado por Lina Bo Bardi, Lélia Coelho Frota, Jacques Van de Beuque, Paulo Pardal, Ana Maria Chindler, Vilma Eid, Lalada Dalglish, Edna Matosinho, Angela Mascelani, Silvia Coimbra, Roberto Ruggiero, Ruth Cardoso, entre tantos outros, tomei a decisão mais difícil (e também a mais feliz): pedir demissão do meu emprego, entrar em um carro e iniciar um mapeamento de artistas populares por todo o Brasil. Decidi chamar essa pesquisa de Novos Para Nós. O nome incita um encorajamento a conhecermos (e revisitarmos), com mais profundidade, a produção brasileira, nossos artistas e suas histórias – sempre com olhos abertos e ouvidos atentos.
De lá pra cá, 8 anos depois do início do Novos Para Nós, acumulo mais de 200 mil quilômetros percorridos (de carro!) de norte a sul, de leste a oeste, do litoral ao sertão, dentro das florestas, sob o sol e as estrelas. Esse material ganhou corpo, é constantemente atualizado e dividido abertamente por meio das redes sociais do projeto: @novosparanos. De acordo com quem acompanha, traz um grande sentimento de orgulho da nossa cultura. Reverbero essa pesquisa por meio de curadorias para museus, galerias e instituições, como o Sesc, o Museu de Arte Sacra de São Paulo e as galerias Central e Luis Maluf; palestras, consultorias e projetos especiais para empresas que queiram dialogar com o tema, além de uma loja online que reúne produções recentes.

Obra de Manuel Eudócio, que estará presente no estande do Novos Para Nós na edição de Rotas 2025. © Divulgação

Com o artista Manuel Eudócio. © Arquivo pessoal
Ouvir as histórias por trás das obras me ajuda a compreender melhor o contexto local, as críticas atreladas, o denso repertório do artista
— Renan Quevedo

Mestre Cunha, “Parampalho”, sem data. A obra estará presente no estande do Novos Para Nós nesta edição de Rotas 2025. © Divulgação

Coleção de ex-votos na coleção de Renan Quevedo. © Arquivo pessoal
No meio de tudo isso, descobri que o colecionismo exige dedicação e que sou apaixonado pelos motores que incitam as criações. Formei uma coleção pessoal que abarca obras de Vitalino, Chico Tabibuia, Madalena Santos Reinbolt, Guarany, Ranchinho, Dona Izabel, Ulisses Pereira Chaves, Noemisa, Nino, Zé do Chalé, GTO, Agostinho Batista de Freitas, Véio, J.Borges, Efigênia Rolim, Itamar Julião, Artur Pereira, Nilda Neves, entre outros celebrados dentro e fora do Brasil em individuais e coletivas. Uma curiosidade: falando em Noemisa, consegui comprar pouquíssimas peças com ela mesma – o conjunto foi composto por meio de inúmeros garimpos que fiz com colecionadores e galerias.
Gosto de propor diálogos e trazer para dentro de casa obras de artistas que tive o prazer de conhecer pessoalmente no início de suas produções, criando um forte vínculo, como Marcelo Conceição, Jasson, Geraldo Antônio da Silva e Seu Felicidade. A disposição geralmente agrupa as obras por artista, abrindo espaço para habitarem os cômodos e estabelecendo narrativas entre elas. Penso que o movimento de colecionar também se trata de uma investigação e tentativas para melhor compreender a dimensão das produções artísticas. Para além de preservá-las, gosto que estejam circulando por exposições e à disposição das instituições, como já estiveram algumas vezes no Masp, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, no American Folk Art Museum de Nova York e no Mube.

Com os artistas Adaílton e Antonio de Dedé. © Arquivo pessoal

Noemisa Batista dos Santos, Casamento na igreja, escultura em cerâmica, década de 1990. © Arquivo pessoal. © Arquivo pessoal
Por fim, e não menos importante, pelo quarto ano seguido, participaremos da SP-Arte Rotas 2025 como um dos projetos especiais. O território do Vale do Jequitinhonha e seus artistas foi o eixo curatorial para 2022; no ano seguinte, mergulhamos em diferentes crenças brasileiras com o olhar voltado para o sagrado; e, em 2024, fazendo um contraposto à edição anterior, apresentamos o profano das festas nacionais.
Para este ano, o Novos Para Nós orgulhosamente apresenta O popular é pop, num aceno à exposição feita por Paulo Klein em 2002. A reunião dos trabalhos evidencia composições com acentuada predominância gráfica, formas nítidas, alto contraste e paleta cromática saturada, estreitando diálogos e tateando possíveis encontros com a Pop Art, as xilogravuras, as histórias em quadrinhos e o movimento armorial. Com a crescente inserção do tema nos aparelhos culturais e no mercado, o título também amplia a discussão se adicionarmos uma atentada interrogação: o popular é pop? Aí deixo para vocês. Nos vemos no stand D10, com essas e outras histórias bem brasileiras.

Com os artistas Getúdo Damado e Victor. © Arquivo pessoal

Noemisa Batista dos Santos, Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, 2016 © Renan Quevedo
Renan Quevedo já não sabe mais dizer quantas vezes sujou os pés pelo Catimbau ou contou as estrelas no sertão. Acredita que a arte, seja ela em qualquer vertente, nunca é opcional. É questão de profunda necessidade para o ser existir. O pesquisador e curador já realizou exposições, bate-papos e projetos com o intuito de celebrar a produção popular. Esteve por todo o Brasil com palestras em eventos como TEDx, Clube de Criação São Paulo, Casa Cor, Fenearte e Semana Criativa de Tiradentes.