20 anos de Inhotim: natureza, arte e vida em harmonia

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Gabriela Valdanha

18 jun 2026

Acima: “Tororoma”, de davi de jesus do nascimento, na Galeria Nascente. © Ícaro Moreno

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O Inhotim comemora seus 20 anos em 2026. As plantas que habitam o instituto contam histórias bem mais antigas, no entanto. São mais de 4,3 mil espécies — não apenas brasileiras, presentes no encontro entre o Cerrado e a Mata Atlântica, mas de outros cantos do mundo. Desde 2010, o parque é reconhecido como jardim botânico e atua na missão de conservar espécies, promover a sensibilização ambiental e a popularização da ciência.


Está lá a cica: semelhante a uma palmeira, é originária do Japão e pertence a uma família de plantas com características pré-históricas. Ou o agave-polvo, cujas folhas carnudas lembram os tentáculos do molusco. No México, seu país de origem, elas são usadas para criar escovas que liberam seu próprio sabão.

A espécie agave-polvo, do México, no Inhotim. © William Gomes

A espécie agave-polvo, do México, no Inhotim. © William Gomes

Elas ocupam os 140 hectares de visitação do parque (o equivalente a cerca de 100 campos de futebol). Projeto iniciado pelo empresário Bernardo Paz nos anos 1980, o museu a céu aberto recebeu, em 2025, em média 1.000 visitantes por dia: 365 mil no total, o maior público da história do Inhotim.


O mapa que o visitante retira ao chegar ao parque (ou acessa pelo aplicativo oficial do museu) oferece três rotas principais: amarela, laranja e rosa, cujas trilhas passam por obras ao ar livre, pavilhões e destaques botânicos — também não é má ideia se deixar perder para encontrar os oásis que o local proporciona.


A maioria das áreas verdes temáticas fica no eixo laranja, caso do Jardim de Todos os Sentidos. Lá, o visitante passeia em meio a espécies tão presentes no cotidiano urbano que é fácil esquecer que elas vêm da terra. A estévia, há séculos, era utilizada pelos indígenas guarani do Brasil e do Paraguai para adoçar o chá mate. A vick tem folhas que podem ser usadas de diferentes formas (frescas, secas ou na forma de chá, por exemplo) como descongestionante nasal.

Uma das áreas verdes temáticas do parque é o Jardim de Todos os Sentidos. © Bruno Figueiredo

Uma das áreas verdes temáticas do parque é o Jardim de Todos os Sentidos. © Bruno Figueiredo

As plantas também contam histórias sobre a nossa história. Reza a lenda que, no século 18, um padre usou uma trepadeira de ora-pro-nóbis para fazer uma cerca ao redor de sua igreja. Os escravizados perceberam que essa planta tinha um sabor parecido com o da couve e passaram a utilizá-la para incrementar suas refeições. Cerca desfeita, colheita proibida. Mas a lista de santos era grande e a longa ladainha do “Ora pro nobis” (“Orai por nós”, em latim) foi a brecha que encontraram para pegar a folha e tornar o angu mais robusto já que, além de saborosa, é rica em nutrientes.


Mas é impossível setorizar a natureza da experiência imersiva do parque: ela é onipresente.


No "Sonic Pavilion", desenvolvido especialmente para Inhotim e inaugurado em 2009, o artista Doug Aitken instalou um sistema sonoro a 200 metros de profundidade no solo para que fosse possível ouvir, no interior do pavilhão circular e de vidro, o som da terra. Os microrruídos amplificados e contínuos soam como o prenúncio de um terremoto.


Na Galeria Fonte, Pipilotti Rist exibe “Homo sapiens sapiens”. Gravado em 2004 nos jardins do museu, antes da abertura do Inhotim ao público, o vídeo é apresentado pela primeira vez em Brumadinho. Depois de deixar os sapatos na entrada, o visitante deita-se sobre almofadas no chão para ver, no teto, imagens da artista integrada à paisagem, com partes do seu corpo que por vezes se transformam em flores e vice-versa.

É impossível setorizar a natureza da experiência imersiva do parque

— Gabriela Valdanha

Instalação “Homo sapiens sapiens”, de Pipilotti Rist, em exibição na Galeria Fonte. © Ícaro Moreno

Instalação “Homo sapiens sapiens”, de Pipilotti Rist, em exibição na Galeria Fonte. © Ícaro Moreno

A interlocução entre natureza, arte e vida também é evidente nas exposições que o museu inaugurou neste ano para comemorar o seu vigésimo aniversário.


A Galeria Mata recebe a primeira panorâmica da carreira de Dalton Paula. Ao seu redor, a obra concebida pelo Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, fundado por Dalton em Goiânia, em parceria com o próprio instituto, consistiu na plantação de espécies vegetais de proteção e limpeza, comuns em terreiros religiosos, como a espada-de-são-jorge, a guiné e o peregum.


Em “Tororoma”, na Galeria Nascente, davi de jesus do nascimento cria o seu próprio sorvedouro, aquela parte em que o rio forma um redemoinho e leva para o fundo tudo o que chega perto. No centro da sala escura, vê-se uma carranca e ouve-se a água que sai do topo da sua cabeça e cai de volta na grande poça ao seu redor.


Já a obra criada por Lais Myrrha em “Contraplano” altera o horizonte mineiro. Ela “devolve” o concreto e o aço à terra de onde foram extraídos em forma de uma estrutura que se associa à forma das cavas de mineração à céu aberto e aos brise-soleils (quebra-sol) usados por Oscar Niemeyer (1907-2012) no seu prédio para a praça da Liberdade, construção que hoje é atração turística em Belo Horizonte.

“Tororoma”, de davi de jesus do nascimento, na Galeria Nascente. © Ícaro Moreno

“Tororoma”, de davi de jesus do nascimento, na Galeria Nascente. © Ícaro Moreno

“Contraplano”, de Lais Myrrha, obra inaugurada em comemoração aos 20 anos do Inhotim.  © Ícaro Moreno

“Contraplano”, de Lais Myrrha, obra inaugurada em comemoração aos 20 anos do Inhotim. © Ícaro Moreno

“No Inhotim, a relação entre arte e natureza não aparece como tema, mas como condição para a experiência. As exposições de Dalton Paula, davi de jesus do nascimento e Lais Myrrha partem de pesquisas muito distintas, mas todas estabelecem diálogos com o território e com a história, trazendo para o centro de suas poéticas a relação das culturas com a biodiversidade, em interações humanas e não humanas", diz Julia Rebouças, diretora-artística do instituto.


“São trabalhos que partem de um solo mineral, do interior do Brasil, para debater ancestralidade, cura, organicidade, natureza e transformação, ao mesmo tempo em que se relacionam de maneira muito particular com o contexto de Inhotim e com Brumadinho", completa.


Entre as ações que conectam Inhotim ao seu entorno estão iniciativas como o LAB Jardim, voltado à capacitação de moradores de Brumadinho em práticas de jardinagem, e o Seminário Internacional Transmutar, que amplia o debate sobre os desafios socioambientais e acaba de realizar a sua 3ª edição.

Queremos que o Inhotim seja referência em conservação

— Paula Azevedo, presidente do Inhotim

O projeto LAB Jardim é voltado à capacitação de moradores de Brumadinho em práticas de jardinagem. © Acervo Inhotim

O projeto LAB Jardim é voltado à capacitação de moradores de Brumadinho em práticas de jardinagem. © Acervo Inhotim

“A vocação botânica do Inhotim sempre esteve presente, mas nos últimos anos ela ganhou ainda mais centralidade e ampliou sua atuação na instituição. Com 75 hectares de fragmentos florestais preservados de uma área total de 140 hectares e inserido em uma área de transição entre Cerrado e Mata Atlântica, o Inhotim reúne condições únicas para contribuir com a conservação da biodiversidade”, afirma a presidente da instituição, Paula Azevedo.


Mais um projeto é o Ser do Cerrado, cuja primeira edição foi realizada entre 2022 e 2023 e a segunda entre 2025 e 2026, em parceria com o Ministério Público do Estado de Minas Gerais. De 2001 a 2025, Minas foi o quinto estado com maior desmatamento no cerrado, respondendo por 13% da área destruída. Os dados são do Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Foram 43 mil quilômetros quadrados, o equivalente a área do estado do Rio de Janeiro.


Neste contexto, a iniciativa surge como forma de conscientização sobre a importância da preservação do Cerrado por meio da inclusão de plantas do bioma no parque e ações educativas.


“O Cerrado é sinônimo de biodiversidade e resistência, características que o definem de forma muito forte. É um território onde encontramos a beleza dos ipês, a diversidade das bromélias, o sabor do pequi e de outras frutas nativas, além de inúmeras espécies fundamentais para a conservação desse bioma”, observa Sabrina Carmo, gerente de natureza no Inhotim.

Seminário Ser do Cerrado, realizado em 2026. © Marcela Christo

Seminário Ser do Cerrado, realizado em 2026. © Marcela Christo

Uma destas espécies é a Constantia cipoensis, uma pequena orquídea que ocorre em regiões de campos rupestres e hoje é reconhecida na categoria “em perigo” pelo CNCFlora, órgão responsável por avaliar o grau de ameaça da flora brasileira. Segundo Carmo, essa flor, até o momento, só é conhecida em Minas Gerais, em áreas acima de 900 metros de altitude. Ela possui uma abelha responsável por sua polinização e uma relação estreita com as velósias, outro grupo também ameaçado pela coleta predatória e pelos incêndios.


“Para nós, a existência dessa planta aqui funciona como um banco genético vivo mantido fora do seu ambiente natural. Isso nos dá a oportunidade, no futuro, de apoiar pesquisas, produzir mudas e até permitir ações de reintrodução, criando novas possibilidades para a conservação da espécie em suas áreas naturais”, explica Carmo.


“Queremos que o Inhotim seja cada vez mais reconhecido como uma referência em conservação e natureza para o Brasil e para o mundo", finaliza Azevedo.



Gabriela Valdanha é coordenadora de comunicação da SP-Arte. Jornalista, é mestre em Estudos Culturais pela USP com experiência na área cultural e passagens por Folha de S.Paulo, Masp, Flip e outros.

A "praça mágica" de Hélio Oiticica na paisagem de Inhotim. © Brendon Campos

A "praça mágica" de Hélio Oiticica na paisagem de Inhotim. © Brendon Campos