Por Isabela Galvão
Olá a todos, meu nome é Isabela Galvão e sou fundadora e diretora da London Art Walk. Nossa missão é criar experiências significativas com a arte por meio de visitas personalizadas a museus, galerias e instituições culturais no Brasil e no Reino Unido. Nossas visitas guiadas equilibram rigor e acessibilidade, com uma boa dose de leveza, e uma compreensão abrangente das forças de mercado que moldam o ecossistema da arte. A London Art Walk também atua como consultoria de arte. Desde colecionadores experientes até pessoas comprando sua primeira obra, adaptamos nosso trabalho às necessidades dos clientes, atendendo a diferentes faixas de orçamento.
Hoje, vou conduzir vocês por uma jornada pela SP-Arte 2026, compartilhando algumas das minhas impressões e percepções sobre esta edição. Este audioguia está dividido em quatro capítulos. Na primeira parte, falarei sobre a feira, contextualizando-a dentro de sua história e das dinâmicas atuais do mercado de arte, tanto no âmbito nacional quanto global. No segundo capítulo, compartilharei algumas ideias sobre o que observar no mercado secundário — dos grandes nomes do modernismo brasileiro aos pioneiros da arte cinética latino-americana. No terceiro capítulo, faremos um mergulho em algumas das minhas principais escolhas do mercado primário, uma mistura vibrante de artistas emergentes e nomes consolidados da contemporaneidade. Para encerrar nosso percurso, falarei sobre alguns dos meus designers favoritos que participam desta edição da feira.
PARTE 1: SP-Arte 2026 – UMA FEIRA BRASILEIRA COM OLHAR GLOBAL
Este ano marca a vigésima segunda edição da feira, que começou em 2005. Desde sua criação, ela se consolidou como a feira mais importante e com maior vocação internacional do Brasil. Eu mesma frequento a SP-Arte há vários anos e tem sido fascinante acompanhar sua evolução, sua resiliência e a maneira como lidou com os altos e baixos do mercado.
Uma das minhas partes favoritas de visitar a SP-Arte é sua localização deslumbrante. Na minha opinião, é um dos melhores lugares para ver arte. Refiro-me, claro, ao Pavilhão da Bienal, um amplo complexo localizado no coração do Parque Ibirapuera. O pavilhão foi originalmente construído em 1954 pelo mestre da arquitetura brasileira Oscar Niemeyer. Desde sua inauguração, já recebeu diversas edições da SP-Arte e da Bienal de São Paulo. O edifício é uma verdadeira obra-prima, uma estrutura que parece flutuar no espaço, em contraste com a arquitetura mais rígida de muitos espaços expositivos. Ao caminhar pelo pavilhão, você sentirá uma forte conexão com a arte e com a natureza ao redor. Por isso, antes de mergulhar nas obras, recomendo que você observe o espaço: repare nas rampas amplas, nas curvas características e no uso extensivo do vidro, que permite um diálogo constante com o exterior.
A edição deste ano reforça o alcance e a vocação internacional da feira, com 104 galerias participantes, sendo 16 internacionais. Ainda assim, a maioria continua sendo brasileira. Isso pode ser atribuído aos efeitos da pandemia, à complexidade do sistema alfandegário brasileiro e aos altos impostos de importação. Fora do Brasil, em centros tradicionais como Nova York e Londres, muitas galerias enfrentam um cenário econômico instável. O relatório Art Basel UBS 2026, de Clare McAndrew, aponta um ambiente de altos custos, com aumento de impostos nos Estados Unidos, além da elevação dos custos de viagem, hospitalidade, embalagem e transporte. Os preços do petróleo também subiram desde o início da guerra no Irã. Como resultado, galerias têm vendido mais localmente do que internacionalmente. Embora esse não seja um modelo sustentável a longo prazo, demonstra a capacidade de adaptação do mercado.
No Brasil, o cenário é mais positivo, com o mercado em crescimento e um clima otimista. O mesmo relatório mostra que o Brasil cresceu 21%, enquanto o mercado global cresceu apenas 4% no último ano.
Apesar dos desafios, é admirável ver uma feira reafirmando seu compromisso com uma mentalidade internacional. O mercado de arte é movido pela confiança, e a SP-Arte se destaca no engajamento com colecionadores, gerando entusiasmo.
PARTE 2: DESTAQUES DO MERCADO SECUNDÁRIO
Agora, vamos mergulhar em alguns destaques do mercado secundário. A SP-Arte 2026 apresenta uma excelente seleção de grandes nomes do modernismo brasileiro. Para começar, destaco dois artistas bastante conhecidos: Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, ambos apresentados pela galeria Almeida e Dale, no estande A1, no primeiro andar.
Tarsila do Amaral é uma das principais pintoras históricas do Brasil. Nascida em 1886, desenvolveu um estilo singularmente brasileiro, incorporando elementos das vanguardas europeias. Foi destaque na exposição Brasil! Brasil! The Birth of Modernism, na Royal Academy of Arts, em Londres, em 2025, e também teve uma grande retrospectiva no Museu de Luxemburgo, em Paris, no mesmo ano. Na feira, o público poderá ver sua pintura A Feira Dois (1925), que retrata a vitalidade da vida cotidiana brasileira dentro de sua linguagem estética única, pertencente à fase Pau-Brasil.
Ao lado de Tarsila, está Di Cavalcanti, figura essencial do modernismo brasileiro e protagonista da Semana de Arte Moderna de 1922. Sua pintura Serenata (1925) mostra figuras femininas volumosas ao som de instrumentos como violão e pandeiro, capturando a musicalidade do povo brasileiro.
Avançando no tempo, destaco duas artistas extraordinárias: Lygia Pape e Maria Martins. Pape, presente no estande da Mendes Wood (E7), foi uma das principais artistas do neoconcretismo, movimento que buscava uma abordagem mais sensorial e orgânica da abstração. Já Maria Martins, exposta pela Flexa (A3), trabalhou com escultura e foi influenciada pelo surrealismo, combinando-o com referências amazônicas.
Outra artista contemporânea de destaque é Adriana Varejão, também na Flexa. Sua obra Monocromo Branco #11, 12 e 13 (2000) explora superfícies fissuradas, evocando as marcas da história colonial brasileira.
Entre os artistas latino-americanos, destaco Wilfredo Lam (Galeria Sur, A5), cuja obra Mujer Caballo funde elementos do cubismo com referências afro-cubanas, e Carlos Cruz-Diez (Galeria RGR, F2), pioneiro da arte cinética, cuja série Physichromie explora a percepção da cor como algo mutável.
PARTE 3: DESTAQUES DO MERCADO PRIMÁRIO
Entre os destaques do mercado primário, começo com Miguel Afa e Panmela Castro, ambos com origens no graffiti. Afa, representado pela A Gentil Carioca (E4), trabalha com corpos marginalizados de forma poética e política. Já Panmela Castro, na Luisa Strina (E3), apresenta o retrato Lélia Gonzalez Dois, homenageando uma importante líder do movimento negro no Brasil.
Ainda na Luisa Strina, destaco Ile Sartuzi, cujo trabalho envolve questões de ilusão, teatro e crítica institucional.
Encerrando esta parte, menciono Daniel Lannes (Orma, E13), cuja série Safe Sex combina elementos do cotidiano com referências históricas em composições intensas e provocativas.
PARTE 4: DESIGN BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO
Para finalizar, vamos ao setor de design, que cresceu significativamente nos últimos anos. Entre os destaques está Percival Lafer, na Etel (DS14), com novas peças que celebram seus 90 anos.
Na seção Design Now, dedicada ao design independente, destaco Lilian Malta, que trabalha com porcelana bone china, e Vinicius Siega, que apresenta peças em jacarandá maciço — material raro e precioso.
CONCLUSÃO
E assim chegamos ao fim do nosso audioguia. A versão completa estará disponível no site da SP-Arte, com link na descrição do episódio.
Espero que tenham gostado deste panorama! A ideia foi oferecer uma amostra do que é viver com arte — e você pode fazer parte disso.
Desejo a todos uma excelente feira e que aproveitem ao máximo esta edição tão especial.
Até breve,
Isa Galvão
