Por Adélia Borges
Olá, sou Adélia Borges. Atuo na área do design há quatro décadas, como jornalista, curadora de exposições no país e no exterior, autora de livros, professora de história de design e diretora de documentários.
Estou aqui para apresentar a vocês o setor de design da SP-Arte 2026, que este ano completa uma década de existência!!! E a gente só tem a comemorar isso. Enquanto outros países investem muito em políticas públicas e ações de divulgação do design, no Brasil esta é uma área que ainda carece de visibilidade.
Por isso a importância do setor de design da SP-Arte. Ele começou com 23 expositores, e ao longo desse tempo foi se expandindo, dando oportunidade para que designers e empresas da área sejam cada vez mais conhecidos e, portanto, mais reconhecidos. É um efeito de mão dupla. Porque a feira cresce e fortalece o design, e o design cresce e fortalece a feira. E quem ganha com tudo isso somos nós, apreciadores do design!
[PARTICIPANTES DESDE 2016]
Bom, este ano o setor terá 70 expositores!!! Eu selecionei alguns destaques entre eles. E vamos começar pinçando algumas galerias e estúdios que participam desde 2016., desde o início.
Bom, essa é uma feira de arte E design, né? Mas tem muitos participantes em que essas fronteiras estão bem diluídas ou mesmo inexistem.
Esse é o caso da Jacqueline Terpins (que está no estande DS 1). Ela começou nas artes plásticas, com exposições em galerias importantes e migrou para o design levando para ele a pulsão da arte. Jac traz uma retrospectiva que evidencia a evolução de sua pesquisa ao longo desses últimos dez anos. O estande terá peças apresentadas em diferentes edições — como a mesa de centro Fontana, o banco Preguiça e a luminária Papiro, ao lado de novos lançamentos em cristal e cobre. O conjunto revela a permanência de questões centrais na trajetória dela: o diálogo entre luz e matéria, vazio e presença, solidez e fluidez, todos tendo como pano de fundo os conceitos de finitude e impermanência – esses últimos, alias, ela vem trabalhando à luz da cultura japonesa, pela qual vem se interessando muito ultimamente.
Outro estúdio em que as fronteiras entre design e arte são indistintas é o da ,ovo (estande DS 18), da dupla Luciana Martins e Gerson de Oliveira. Eles trazem uma seleção de peças da última década e também obras inéditas, como biombos e poltronas da série Dança, No material de divulgação Gerson e Luciana citam um texto que escrevi em 2012 para um livro deles, e que continua válido. Eu digo ali que a ovo tem “... uma produção que instiga e confunde a nossa percepção, fazendo com que o nosso relacionamento com os objetos não seja de consumo (uso imediato e tantas vezes alienado), mas de fruição (que não se estanca no primeiro contato mas, antes, vai trazendo novas nuances à medida em que o tempo passa).” “Objetos para guardar – naquele sentido original do verbo, de preservar, manter, conservar.” E essas palavras se aplicam a muitos outros criadores em que não existe uma separação rígida entre arte e design.
A Teo (DS 7) traz sua tradicional seleção de mobiliário das décadas de 1930 a 1970, em que marcam presença nomes como Tenreiro, Gillon, Jorge Zalszupin e o italiano Mario Bellini, mas este ano com uma novidade: vai contrapor a essas peças a cerâmica contemporânea de Célia Cymbalista, em exposição curada por Lorette Coen. Vale lembrar que a cerâmica e também os têxteis foram historicamente desvalorizados e invisibilizados, contudo vêm conquistando uma valorização crescente nos últimos anos aqui no Ocidente – digo Ocidente porque nas culturas orientais nunca houve essa estratificação entre supostamente uma arte maior, as fine arts, e uma arte menor, ou arte aplicada.
A Passado Composto Século XX (bem ao lado, na DS 6) vai apresentar a mostra “Genaro – 100 anos – Bordando a Bahia”, inaugurando as homenagens ao centenário de nascimento do artista Genaro de Carvalho, que é comemorado este ano. Genaro foi pioneiro da tapeçaria no Brasil, além de pintor e desenhista. Com curadoria de Denise Mattar e colaboração de Graça Bueno, foram selecionadas oito obras entre desenhos e pinturas, — e seis tapeçarias, que evidenciam a profunda inspiração do mestre em sua terra natal. A Graça, diretora da Passado Composto, sempre se pauta por pesquisar profundamente os artistas que representa e por mostrar o resultado disso no estande, por meio de fotografias e documentos históricos que contextualizam a contribuição do artista. Isso enriquece muito a apresentação. A galeria foi uma das primeiras a entrar no segmento de móveis brasileiros vintage e daí entrou com força no segmento da tapeçaria. No estande, essas duas áreas comparecem, com móveis originais de Joaquim Tenreiro e reedições de Jean Gillon, entre outros.
Já a Etel (na DS 14) fará uma homenagem ao paulista Percival Lafer, nome incontornável quando a gente fala no design vinculado à indústria no Brasil. Logo após se formar em Arquitetura pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, ele precisou assumir a Lafer, empresa de móveis aberta por seu pai, onde fez um trabalho incrível marcado pela inovação tecnológica. Ele vai completar 90 anos de idade no dia 12 de abril, durante a feira!!! Um fato notável é que o Percival continua muito ativo, participando de debates, contando sua experiência às novas gerações e criando! A ETEL lançará uma peça inédita recém projetada por ele — um gesto que reafirma a vitalidade de seu pensamento e a permanente atualidade de sua obra. O espaço também acolhe reedições de peças de Oscar Niemeyer, lançadas pela primeira vez pela ETEL, reiterando o compromisso da marca com a preservação e a difusão de legados fundamentais do modernismo. A curadoria e a concepção do ambiente são da Lissa Carmona.
[FORA DOS INICIAIS]
Saindo agora do campo dos veteranos da SP-Arte, vamos para participantes mais recentes da feira – o que não significa necessariamente que tenham menos anos de estrada.
Um exemplo é LinBrasil (na DS 45), a iniciativa de maior longevidade no Brasil no que tange à reedição de móveis modernistas mediante licenciamento do autor e/ou de sua família, dentro de critérios técnicos rigorosos de produção. A empresa é dedicada exclusivamente à edição de uma linha de móveis do carioca Sergio Rodrigues, um dos grandes expoentes do mobiliário moderno no mundo. Sergio desde o início trilhou um caminho próprio, fazendo da expressão da identidade brasileira uma procura deliberada. A LinBrasil este ano está comemorando 25 anos de existência! Gisèle Schwartsburd chuartsburdi, idealizadora e diretora da marca que tem sede em Curitiba, reposicionou a produção do grande mestre como objeto de desejo na cena nacional e internacional do design, com venda por lojas em várias cidades tanto do Brasil quanto do exterior.
Na SP-Arte a Lin vai lançar nove móveis, criados por SR entre 1956 e de 2010, ou seja, num arco de 54 anos, desse que foi um dos designers mais prolíficos da história do design brasileiro. Entre eles a cadeira Paiol, que ele criou originalmente para o teatro paiol em Curitiba. Esses lançamentos se juntam a ícones como a poltrona Mole, a Kilim, a Diz e o banco Mocho, do catálogo da LinBrasil. Lembrando que em 2027 haverá o centenário de nascimento deste grande mestre. Como integrante do Conselho Curador do Instituto Sergio Rodrigues, estamos muito felizes com o reconhecimento crescente da genialidade do mestre.
Uma dupla que se juntou para essa edição da SP-Arte é a que reúne Domingos Tótora e Gabriel De La Cruz (no estande DS 3). Este é um diálogo intergeracional: Tótora, aos 66 anos, e Gabriel, aos 38, vem construindo uma amizade nos últimos tempos, em sucessivas idas de Gabriel, que mora em SP, a Maria da Fé, cidadezinha na Serra da Mantiqueira, em Minas, onde Domingos vive. Disso resultou a série Sobrepor, com mesas, cadeira, banco, bar, bufê e luminárias desenvolvidos realmente em co-criação entre os dois e suas equipes. A série reúne um material singular projetado por Domingos a partir de papelão descartado, terra e água, contrapondo-o a madeira de demolição –um ipê tabaco O raciocínio projetual é baseado na sobreposição de materiais e na depuração formal. Como diz o release deles, “materiais preexistentes retornam sob desempenhos e leituras formais diferentes, afirmando a transformação como método criativo”.
O Gabriel De La Cruz tem seu estúdio na Galeria Metrópole, no centro histórico de SP, onde pulsa um movimento de talentos emergentes do design. É de lá que vem também o nosso próximo designer, o Pedro Luna (que fica na DS 41). No ano passado ele recebeu o prêmio de designer revelação concedido pelo concurso da Abimóvel – a Associação Brasileira de Indústria de Mobiliário. A Linha Trama, que ele apresenta na SP-Arte, marca um novo desdobramento na investigação que ele vem fazendo sobre objetos cotidianos e suas lógicas construtivas. O ponto de partida é a observação de uma prática difundida em diferentes regiões do Brasil: a tecelagem manual de tapetes em palha de taboa. O gesto central da coleção é o deslocamento da trama vegetal para o metal. A textura entrelaçada da fibra é registrada com precisão em superfícies metálicas, fundidas em alumínio ou latão. O que antes era flexível torna-se rígido; o que era leve ganha peso; o que era superfície utilitária transforma-se em plano estrutural. A operação, diz o Pedro, não busca estilizar o artesanato nem reproduzi-lo de forma meramente decorativa, mas registrar sua lógica construtiva em outro meio.
A gente está falando muito aqui de móveis, mas a SP Arte também tem vários estandes dedicados a iluminação. Cito aqui a Lumini, no DS 20. Lá a gente vai ver a luminária tempo, criada por claudia moreira salles, que conquistou no mês passado um ouro do if design award, um prêmio internacional muito importante, com sede em hanover, Alemanha. duas chapas circulares, dispostas em camadas, ocultam a fonte luminosa e permitem que a luz escape apenas pelas bordas, de modo controlado. Ela constrói uma atmosfera, valorizando a penumbra e as transições de luz. É a gente que, ao girar o ‘ponteiro’, regula tanto a intensidade luminosa quanto a temperatura de cor. O projeto fez jus a esse cobiçado prêmio internacional! A Lumini vai lançar ainda uma luminária criada pelo grande arquiteto paulo mendes da rocha, prêmio pritsker de arquitetura, que ele projetou diretamente numa obra, em diálogo com o serralheiro, sem registro formal de desenho. A peça é feita em reedição em colaboração com a metro arquitetos
Uma iniciativa excelente da SP-Arte é organizar ela própria uma exposição coletiva sobre design, algo que portanto transcende os estandes. A exposição Existe uma Árvore, no Térreo XXX, presta uma homenagem à rica diversidade de madeiras brasileiras e sua centralidade no nosso design, trazendo à consciência de que, antes do móvel, antes do desenho, existe uma árvore. A curadora Lívia Debanné aborda a trajetória do design moderno e contemporâneo no Brasil como uma história das árvores do nosso território. A mostra agrupa tanto nomes do design moderno, como Joaquim Tenreiro, Sergio Rodrigues e Zanine Caldas, quanto a segunda e a terceira gerações – por exemplo Carlos Motta, Fernanda Barretto, Fernando Mendes, Maurício Azeredo, Morito Ebine e Rodrigo Calixto.
Em comum, estes designers compartilham o fato de serem marceneiros ou terem suas trajetórias conectadas à marcenaria artesanal. No ano passado a Livia já tinha abordado esse assunto da origem da matéria na mostra Inteligência Material. Essa questão da matéria-prima está mais do que nunca na ordem do dia – e essa reflexão deveria envolver não só quem projeta, quem produz e quem vende, mas também todos nós consumidores. As escolhas dos materiais dos objetos com que nos cercamos em nosso cotidiano podem resultar em melhoria ou em agravamento da emergência climática com que nos defrontamos hoje.
Lívia Debbané também estará à frente da curadoria de uma novidade da SP-Arte deste ano: a DesignNOW, no terceiro andar, XXX uma nova área que pretende ser um retrato da cena independente do design brasileiro - independente pois são todos designers que, além de projetar, conduzem seus próprios negócios, sem uma indústria nem uma grande estrutura comercial por trás. Esse é um modelo bastante comum no Brasil e que permitiu parte do boom de design autoral que vivemos hoje, diz Livia, que tem Patricia Dranoff como parceira de curadoria.
Nessa área estarão, entre outros, o EDEL-STEIN, do Rodrigo Edelstein XXX. Acompanho de perto as criações dele, já há alguns anos. Rodrigo é um dos meus prediletos na Galeria Metrópole. O trabalho dele se lastreia numa pesquisa contínua sobre síntese formal, precisão construtiva e função essencial. Ele se distingue também pelo material que usa: o aço, explorando suas possibilidades com técnicas e processos industriais. O Rodrigo vai apresentar um painel composto pelas Gavetas C/D , que são um dos carros-chefe de seu estúdio. Mas na SP-Arte esses pequenos módulos de armazenamento se tornam um dispositivo expositivo: organizadas em grid, as gavetinhas contêm pequenos e reconhecíveis objetos do cotidiano, para demonstrar a escala, uso e potencial de organização do módulo. O visitante é convidado a abrir as gavetas e explorar seu conteúdo.
O Vinicius Siega é outro nome da DesignNOW XXX. Ele mora em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, o principal polo moveleiro do Brasil. O Vinícius desenha para várias empresas de móveis, como a Decameron, a Saccaro e a Carbono, mas também tem um trabalho totalmente autoral, feito à mão. Na SP-Arte ele apresenta apenas duas peças únicas feitas com um pequeno lote de jacarandá maciço que ele encontrou numa madeireira gaúcha, com certificado do Ibama. Essa é uma madeira nobre, escassa e hoje praticamente inacessível. Ele conta que lidar com a raridade do achado foi um trabalho de precisão, responsabilidade e respeito. A estante Tem é inspirada na fluidez sugerida por uma ampulheta, fazendo com que o desenho articule simbolicamente a densidade do tempo carregada pela matéria — o jacarandá leva cerca de 200 anos para atingir seu ponto de amadurecimento. Já a escrivaninha Master remete aos mestres do mobiliário brasileiro, para quem essa espécie botânica foi decisiva.
Se Vinícius trabalha com um material raro e precioso, o cearense Érico Gondim dá nova vida a um resíduo abundante nas cidades, mas até agora visto como imprestável: tubos e conexões descartados da rede de saneamento básico. A criação é desdobramento de pesquisa desenvolvida por um projeto em parceria com a Companhia de Água e Esgoto do Ceará. A linha composta por estante, aparador, mesa e banquinho rearranja os canos, reconfigurando-os em peças de design contemporâneo que unem rigor técnico, responsabilidade ambiental e potência estética. “A coleção é matéria em segundo ciclo, diz ele . É o design como prática consciente. É um convite para tornar visível aquilo que sustenta e repensar o futuro a partir do que já existe.”
Achei excelente essa iniciativa da SP-Arte de apostar na cena independente do design brasileiro. Mas atenção: a maioria do setor de design vai estar no térreo, enquanto o DesignNow vai ocupar parte do terceiro andar do Pavilhão da Bienal. Então suba a rampa e não deixe de ver.
Lá no 3º andar também estarão o palco da SP-Arte para as inúmeras conversas programadas e outros participantes, como alguns museus. Entre eles – e aqui puxando a brasa para a minha sardinha -a Loja MASP, da qual sou curadora há uma década. Num ano em que o MASP tem seu eixo curatorial voltado para Histórias Latino-Americanas, a Loja MASP apresenta na SP-Arte uma seleção inédita de obras de criadores de sete países – Bolívia, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru e Venezuela – além do Brasil . O conjunto escolhido por nós privilegia a autoria feminina em suportes têxteis e em cerâmica, mostrando um diálogo entre estéticas e técnicas tradicionais do continente relidas na contemporaneidade.
[DESPEDIDA]
Bons giros pela SP-Arte pra você que me ouviu, muito obrigada pela companhia. Aproveite essa oportunidade de ver num só espaço criações dos grandes mestres até os novos talentos. E descubra também os vários outros nomes que não deu tempo de abordar aqui. E fica o recado: o roteiro completo do setor de design está disponível no site da SP-Arte e o link direto você encontra na descrição do episódio. Vale a pena consultar com calma esse material antes, durante ou depois de ir, pois tem muuuuuuuuuuitos nomes excelentes para você conhecer, caminhos plurais que a gente só tem a celebrar.
Boa visita!
