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14/05/2008 - Um lugar para a arte de todos os tempos
Veículo: Bravo / Veiculação: Impresso
link do veículo: www.bravonline.com.br

Um lugar para a arte de todos os tempos

Mais antigo museu da cidade, a Pinacoteca do Estado, criada em 1905, prepara-se para uma nova fase com a construção de um edifício que vai abrigar obras contemporâneas

por Marcelo Mattos Araújo


Pinacoteca do Estado de São Paulo
A Pinacoteca do Estado de São Paulo, criada pelo governo do Estado em 1905, é o mais antigo museu de arte da cidade. Ao longo dos seus cem anos de existência, testemunhou e acompanhou uma mudança radical no perfil de atuação dos museus de arte. De um espaço de visitação restrita a especialistas, transformou-se em espaço de inclusão, recebendo os mais diferentes segmentos da sociedade. Da apresentação de uma única e imutável exposição, evoluiu para um programa de mostras temporárias sobre as mais variadas questões de arte e da cultura, associado a mostra de longa duração com trabalhos de seu acervo. De um corpo funcional composto por um conservador, como estipulava seu regulamento de 1911, passou a contar com um quadro com mais de cinqüenta técnicos e cerca de cem funcionários, todos da maior qualificação. Incorporou em suas estratégias de comunicação a linguagem virtual e a televisão, o marketing e a propaganda. Redimensionou sua relação junto à escola formal, conquistando um papel de aliança e complementaridade. No lugar do trabalho amador, ainda que dedicado, colocou a museologia, a história da arte e a educação como referenciais para a proposição e implementação de suas políticas. De uma iniciativa isolada do Estado, constituiu-se em ação articuladora das esferas públicas e privadas.

Ao longo destes cem anos de atividades, o balanço de realizações da Pinacoteca do Estado é significativo: um acervo de cerca de 7 mil obras, em diversas técnicas, de autoria de mais de mil artistas diferentes, que oferece uma abrangente visão da arte brasileira dos séculos 19 e 20; alguns milhões de visitantes (mais de um milhão, somente nos três últimos anos); dois prédios com área total de mais de 20 mil m2, ambos projetados por Ramos de Azevedo, apresentando as necessárias instalações técnicas para o desenvolvimento de todas as atividades museológicas - o centenário edifício da Luz, na avenida Tiradentes, inteiramente restaurado por Paulo Mendes da Rocha e, mais recentemente, o antigo prédio do Deops, atual Estação Pinacoteca, recuperado segundo projeto de Haron Cohen -; publicações que se constituem em referência básica da história de nossas artes visuais; centenas de exposições que revelaram e consagraram criadores e produções as mais distintas; conhecimento e experiência consolidados em todas as áreas de atuação do campo museológico, da conservação e restauro à educação para públicos especiais.

Desde 2006, o Museu vem sendo administrado por sua Associação de Amigos - na qualidade de Organização Social da Área da Cultura, assim reconhecida pelo governo do Estado de São Paulo - em uma pioneira experiência de um novo modelo de gestão do patrimônio cultural no Brasil, mais adequado aos requisitos de profissionalização, agilidade e transparência, hoje exigências imperiosas de uma economia altamente competitiva. Este novo contexto institucional contribuiu para implantação e fortalecimento de diversas políticas de atuação, com especial destaque para o programa de aprimoramento do acervo museológico.

O acervo museológico forma, juntamente com o edifício e o projeto cultural, a tríade determinante da natureza de todo e qualquer museu. Seu constante aprimoramento - seja em termos de conservação, documentação e divulgação, seja em termos de ampliação - constitui-se, portanto, em um dos pontos obrigatórios de uma ação museológica consistente. No caso da Pinacoteca do Estado, esta ampliação vem sendo procurada, nos últimos anos, por meio de diferentes estratégias. Em relação à produção histórica, temos buscado unir o incentivo a doações por parte de colecionadores com aquisições pelo governo do Estado; estas, infelizmente, sempre severamente limitadas pelas restrições orçamentárias e ausência de vontade política. O maior sucesso, nesta área, entretanto, tem sido o da articulação com outras organizações detentoras de expressivos acervos, que logrou, até o momento, o recebimento em comodato da coleção da Fundação José e Paulina Nemirovsky - uma das mais destacadas coleções de arte moderna brasileira - e a recente doação, pela Fundação Estudar, de São Paulo, da Coleção Brasiliana, um inestimável conjunto de cerca de 500 obras, dentre pinturas, gravuras e desenhos, produzidos por artistas viajantes que estiveram no Brasil, em sua grande maioria ao longo do século 19.

A criação contemporânea brasileira tem recebido especial atenção em nossos programas de ação. Numerosas exposições, principalmente mostras individuais de artistas com produções já consolidadas, têm nos permitido acumular reflexão crítica que serve de parâmetro para a seleção de obras a serem incorporadas ao acervo, graças à doação sempre generosa dos próprios artistas ou de colecionadores, ou por meio de aquisições realizadas por nossa Associação de Amigos, viabilizadas por patrocínios obtidos graças aos incentivos da Lei Federal de Apoio à Cultura - Lei Rouanet. No final de 2007, por exemplo, uma significativa contribuição do Banco Crédit Suisse nos permitiu, em iniciativa que contou com a preciosa colaboração de numerosas galerias paulistas, a aquisição de um importante conjunto de obras de autoria de Beatriz Milhazes, Carlos Zílio, Carmela Gross, Daniel Senise, Efraim Almeida, Marepe, Rosangela Rennó e Valeska Soares, todos artistas ausentes ou insuficientemente representados em nosso acervo. Consolida-se assim uma trilha que parece se apresentar como uma possibilidade real de superação - ao menos em nosso contexto - de um dos maiores e mais graves problemas de nossa realidade museológica: a recorrente fragilidade dos acervos dos museus brasileiros.

No enfrentamento desta questão, e de toda a complexa problemática que se coloca no panorama contemporâneo, a Pinacoteca do Estado reafirma sua natureza preservacionista e educativa, ou seja, de constituição de patrimônio, e construção e comunicação de valores, por meio de processos dialógicos caracterizados pela proposição de um tempo que se contrapõem ao consumismo do imediato e do instantâneo.

Nesta perspectiva, a Pinacoteca do Estado prepara-se ainda para concretizar mais uma etapa fundamental na consolidação de seu percurso, com a construção de um terceiro edifício, para abrigar especialmente seu acervo de arte contemporânea. Projeto integrante de uma série de iniciativas culturais do atual governo do Estado de São Paulo, este novo espaço certamente contribuirá de maneira decisiva para atingirmos nossos objetivos de educação do olhar e de sensibilização do espírito, requisitos essenciais para o exercício da cidadania.

Marcelo Mattos Araújo é diretor-executivo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.