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14/05/2008 - Colecionando para o país e o mundo
Veículo: Bravo / Veiculação: Impresso
link do veículo: www.bravonline.com.br

Colecionando para o país e o mundo

A Tate de Londres, que começou a comprar obras estrangeiras em 1917, já tem um acervo valioso de artistas brasileiros, entre eles Hélio Oiticica e Lygia Clark

por Tanya Barson

Como os museus devem funcionar no século 21? Como os acervos devem ser formados quando os museus estão, inevitavelmente, competindo com o forte poder de compra, a avidez e a flexibilidade dos colecionadores particulares? As instituições públicas deveriam colecionar arte ou simplesmente expor trabalhos de artistas e se preocuparem em reavaliar a obra por meio de formatos como a exposição temporária (operando, assim, como uma Kunsthalle em vez de um depósito de objetos)? Por que colecionar é importante? E, a quem se destina o acervo do museu? Essas são perguntas com que se depara um curador de museu. Evidentemente, os museus possibilitam ao público o acesso fundamental à arte. Mas, além disso, o ato de colecionar garante a criação de um registro, possibilitando que demonstremos nossa relação dinâmica com a arte de diferentes épocas, e não necessariamente estabelecer uma visão definitiva ou canônica. Os museus preservam objetos, assumindo o importante "dever" de cuidar das obras, que senão poderiam desaparecer. Como os museus trabalham tanto para formar acervos de estudo ou pesquisa quanto para exposição ao público, eles geralmente colecionam de modo diferente dos colecionadores particulares, escolhendo e acumulando obras com teor e textura diferentes das coleções particulares. Por sempre possibilitar o acesso contínuo, os museus também estabelecem um senso de afinidade ou propriedade compartilhada entre o público e o acervo: os visitantes vêm para ver suas obras "favoritas". Os museus também podem documentar as atitudes e avaliações da arte de nosso tempo; colecionar arte contemporânea pode ser um desafio, mas oferece também a oportunidade de dialogar com os próprios artistas.

A história da Tate inclui a história do museu e seu lugar na sociedade britânica, que tem mudado rápida e radicalmente nos últimos anos1. A Grã-Bretanha tem uma longa tradição em museus públicos financiados pelo governo. Inúmeros deles, incluindo a Tate, têm o status de “nacional” (dentre eles a National Gallery e o Victoria and Albert Museum, cada um com diferentes acervos). Uma das razões por que o acesso para ver o acervo permanente da Tate é gratuito é que ele (assim como os outros acervos nacionais) “pertence à nação” – ele foi comprado com o dinheiro público, portanto, o público não deve pagar duas vezes. Este é o epítome do compromisso da Tate com o valor fundamental do acesso universal. Entretanto, os tempos mudaram e o investimento público tem rareado (a verba para aquisições da Tate está congelada desde o início dos anos 1980). Assim, museus na Grã-Bretanha tiveram de buscar fontes alternativas de financiamento. A Tate tem se saído particularmente bem em encontrar fontes externas de fundos, mas museus menores, especialmente as instituições regionais, têm enfrentado mais dificuldades. A Tate é auto-suficiente em mais de 50% (com a geração de capital através da Tate Enterprises, cujas operações comerciais são separadas das doações e incluem publicações e merchandising, além de restaurantes e cafés funcionando nos museus etc.). Apenas 35% do museu são de fundos públicos, porém isto se deve à sua expansão em escala e atividades mais do que a qualquer outro fator; e isto não representa necessariamente uma mudança na cultura, já que, desde sua criação, a Tate tem incorporado um misto de fundos e apoio público e privado. O museu original em Millbank foi inaugurado em 1897 com o financiamento do empresário Sir Henry Tate (1819-1899), com a finalidade de abrigar as obras por ele doadas, uma coleção composta por 65 pinturas de artistas britânicos vivos na época, incluindo Ophelia 1851-2 de Millais. A Tate recebeu grandes doações durante sua história e neste ano foi aberta a “Artist Rooms”: 725 obras doadas por Anthony d’Offay, com a assistência da National Heritage Memorial Fund (nhmf), The Art Fund, e dos governos escocês e inglês. “Artist Rooms” pertencerá e será conjuntamente gerenciada pelas National Galleries of Scotland e a Tate em nome da nação.


Instalação The Body of Colour, de Hélio Oiticica,
montada no ano passado na Tate Modern, que já
promoveu exposições de outro brasileiro,
Cildo Meireles

A Tate iniciou sua coleção de arte moderna internacional em 1917. Um museu em Londres dedicado à arte moderna foi uma idéia primeiramente concebida já (ou apenas) nos anos de 1940. A Tate Modern foi finalmente inaugurada em maio de 2000, atraindo 6,5 milhões de visitantes em seu primeiro ano e mantendo um público de 4,5 a 5 milhões de visitantes por ano. Tal público é constituído por visitantes locais, nacionais e internacionais e reflete a natureza cosmopolita da cidade. Assim, desde a inauguração da Tate Modern, a Tate se preocupa particularmente em trabalhar sobre o acervo existente para torná-lo verdadeiramente global. É fato que, tradicionalmente, a Tate tem concentrado bastante suas atenções na Europa Ocidental e nos EUA. O desafio no século 21 é atualizar o acervo, expandi-lo em termos geográficos e também da mídia colecionada, incluindo assim a fotografia, os filmes e as novas tecnologias. A programação também segue essa meta e exposições individuais de artistas como Frida Kahlo, Hélio Oiticica e Cildo Meireles são sinais de tal expansão. Uma das primeiras iniciativas tomadas após a inauguração da Tate Modern foi o estabelecimento de um comitê de patronos para auxiliar o museu na aquisição de obras de arte latino-americanas: a Comissão de Aquisições da América Latina. Através desse comitê, assim como de outros financiamentos e doações, a Tate adquiriu obras de um grupo importante de artistas, incluindo: David Alfaro Siqueiros, Lygia Clark, Mira Schendel, Hélio Oiticica, Luis Camnitzer, Victor Grippo, Eugenio Dittborn, Liliana Porter, Cildo Meireles, Francis Alys, Doris Salcedo, Gabriel Orozco, Damian Ortega, Ernesto Neto, Jorge Pardo, Guillermo Kuitca, Maria Fernanda Cardoso, Carlos Garaicoa, Los Carpinteros, Rosângela Rennó, Rivane Neuenschwander, Ricardo Basbaum, Fernando Bryce, Leonilson, Vik Muniz, Adriana Varejão, Arturo Herrera, Oscar Munoz, Melanie Smith, Juan Araújo, Santiago Sierra, Armando Andrade Tudela, Sebastian Diaz Morales, Alexandre da Cunha, entre outros. Este é um começo importante na Tate para o estabelecimento de um compromisso sério e sustentável com a arte desse continente.

1 A Tate tem uma história complicada e ímpar que, nos 111 anos de existência, tem visto a organização crescer e constituir uma família de quatro museus. Em 1988, o segundo museu Tate foi inaugurado em Liverpool, norte da Inglaterra, seguido pelo terceiro, em 1992, em St. Ives. Em 2000, o quarto museu da família Tate foi inaugurado - o Tate Modern.

Tanya Barson é curadora internacional da Tate Modern.