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14/05/2008 - Acervo particular, patrimônio de todos
Veículo: Folha de S. Paulo / Veiculação: Impresso
link do veículo: www.folha.com.br

Acervo particular, patrimônio de todos

Em princípio, uma coleção só merece ser chamada como tal se tiver coerência interna e caráter público, exigindo do comprador mais que o exercício do olhar

por Maria Hirszman

O colecionismo, ao contrário do que indicam alguns perfis caricatos, não é uma atividade solitária. Raros são aqueles que conseguem, numa redoma de vidro, descobrir, selecionar, adquirir e gerenciar um conjunto de obras que mereça o nome de coleção. Um investidor pode até fazer uma escolha acertada especulando na variação do valor presente e futuro de uma peça; um especialista pode ter o olho treinado para identificar um conjunto de características formais e estéticas que coloquem um trabalho em posição de destaque em relação à média da produção do período. Mas para construir ao longo do tempo um conjunto de elementos que se articulem entre si e dêem uma nova estatura ao conjunto, é necessário ao mesmo tempo prestar atenção a si e aos outros.

Um dos primeiros passos é definir um caminho a seguir. Uma junção de um pouco de tudo não é uma coleção. Nem tampouco uma somatória de itens equivalentes o é. Em primeiro lugar, uma coleção costuma ter uma ou algumas colunas vertebrais que articulem o conjunto, que lhe garantam sentido e coesão interna. Esses eixos se definem de diferentes maneiras. Comumente são recortes temporais (arte moderna ou contemporânea), opções por um determinado meio (gravura, fotografia...) ou atenção a um tipo específico de movimento, escola ou estilo. Exemplo claro deste tipo de enfoque mais especializado é o da coleção formada por Adolpho Leirner, considerada o maior acervo de arte construtiva brasileira e que foi vendido recentemente ao Museu de Houston, no Texas. Infelizmente isso confirma na prática a já sabida precariedade das instituições nacionais que, num misto de incapacidade e desinteresse, não conseguiram impedir a transferência para o exterior de um patrimônio essencial para o conhecimento de um momento- chave da cultura nacional. A única nota positiva é que, mesmo que inacessível à grande maioria dos brasileiros, pelo menos a unidade da coleção foi mantida.


Vista da instalação Lezzard, do artista
pernambucano Tunga, no Inhotim Centro de Arte
Contemporânea, criado pelo colecionador
mineiro Bernardo Paz

Um dado lamentável é repetido entre os especialistas de arte contemporânea, sem que nada sinalize sua alteração: existem mais brasileiros sócios do Museu de Arte Moderna de Nova York do que do Museu de Arte Moderna de São Paulo. No entanto, parecemos já acostumados a esse fato. Tanto que, quando falamos de colecionismo no Brasil, é raro encontrar menções a aquisições por parte de instituições museológicas, públicas ou privadas, porque elas praticamente inexistem já que as verbas mal são suficientes para os gastos correntes. E como o capital privado nacional, com raras exceções, tampouco tem o hábito de investir na formação de acervos, só resta ao mercado celebrar a chegada de um novo público aquisitivo, formado ao que parece por um conjunto amplo de jovens profissionais liberais, de classe média alta, cultos e que pouco a pouco vão tomando gosto pela arte de comprar arte.

Para estes, que estão adquirindo as primeiras obras ou já estão começando uma coleção, o exercício do olho e da mente é vital. Nada faz sentido se não há uma afinidade entre comprador e obra, da mesma forma em que o impulso irrefletido pode levar a equívocos, destituir o conjunto de lógica interna e gerar frustrações e arrependimentos. Em suma, o gosto deve ser respeitado e alimentado, mas não basta. Essa noção um tanto subjetiva de que o olhar de um indivíduo nasce pronto, na verdade equivale a assumir a impossibilidade de aprendizado, de construção de uma percepção pessoal em sintonia com a produção de seu tempo e capaz de legar às gerações futuras uma determinada leitura sobre o momento trabalhado.

É muito difícil resistir à tentação do ganho fácil, à ilusão de uma explosão de preço e prestígio em tempo curto para um jovem artista de talento que surgiu. Trata-se de um tipo de expectativa que combina a ilusão romântica em relação à modernidade - uma esperança pueril de que há novos Van maria hirszman é jornalista. Gogh a serem descobertos por aí - com um ritmo cada vez mais intenso e voraz em relação ao novo, mordazmente bem definido por Ivo Mesquita, curador da próxima Bienal de São Paulo, como "avidez do mercado por carne fresca".

Tampouco é fácil progredir em meio ao terreno movediço da arte contemporânea, separar o joio do trigo. Nesse jogo, intuição e formação devem dar as mãos. Muitas vezes, quem tem condições para isso, terceiriza parte dessa tarefa. É o caso, por exemplo, de Bernardo Paz, que conta com uma equipe de curadores para ajudá-lo a selecionar as obras a serem incluídas no seu Inhotim Centro de Arte Contemporânea. Quem tem menos autonomia de vôo, no entanto, tem de caminhar mais devagar, encontrando o equilíbrio entre suas possibilidades financeiras, o apelo dos modismos, as atrações impulsivas...

Afinal, nada faz sentido se não há uma afinidade entre o comprador e a obra. Visitar exposições, conversar com artistas, trocar informações com os galeristas, acompanhar a reflexão dos especialistas por meio de cursos e leituras, não são apenas momentos de lazer e/ou estratégias necessárias para não fazer um mal negócio. São hábitos que ajudam a apurar a sensibilidade e o prazer individual dos que foram mordidos pela mosquinha verde do colecionismo ou por aqueles que simplesmente gostam de arte; são um aprendizado e uma forma de conexão com o mundo.

Em princípio, uma coleção só merece ser chamada como tal se atender duas características básicas: coerência interna e caráter público. Ela deve ao mesmo tempo respeitar as condições particulares que lhe dão organicidade, que a transformam não num bric-a-brac de obras mais ou menos na moda, mas em uma espécie de coro, cujo valor coletivo sobrepassa a dos talentos individuais ao mesmo tempo que se articula de maneira íntegra com o que acontece fora dela. Um recorte que só adquire valor - não no sentido monetário, mas artístico e social - a partir do momento em que amplia seu raio de ação para além das quatro paredes de uma casa, cada vez mais protegida. Como afirma Gilberto Chateaubriand, um colecionador deve ser antes de tudo um educador e um divulgador. Isso não necessariamente quer dizer exposição pública, mas significa obrigatoriamente uma consciência de que aquelas obras são um patrimônio cultural de uma sociedade e não de um único indivíduo.

Maria Hirszman é jornalista.