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24/08/2007 - Olhos abertos para a arte brasileira
Veículo: Bravo / Veiculação: Impresso
link do veículo: www.bravonline.com.br Olhos abertos para a arte brasileira Entrevista com o colecionador Gilberto Chateaubriand por Luiz Camillo Osorio Gilberto Chateaubriand já é uma instituição cultural brasileira. Dono de uma coleção monumental, vem há anos participando ativamente do desenvolvimento do nosso meio de arte. Filho do legendário Chatô, sua coleção começou por conta da generosidade de um artista amigo. Hoje são em torno de 7.000 obras. Focada na produção contemporânea, ela é a maior plataforma de lançamento do jovem artista no mercado de arte. Todos querem ter um trabalho na sua coleção, é ponto no currículo. Desde 1993, grande parte dela está em comodato com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, um gesto exemplar para um país (e uma elite) no mínimo displicente em relação aos museus nacionais. Uma coisa é certa; nenhum colecionismo se sustenta sem a oxigenação dos museus. A seguir, Gilberto fala um pouco do desenvolvimento de sua coleção e aborda questões específicas do circuito de arte brasileiro. Luiz Camillo Osorio - Qual a primeira obra adquirida e quando surgiu a idéia de construir sua própria coleção? No começo, havia a ajuda de algum artista, crítico ou amigo com quem você discutia? Gilberto Chateaubriand - A primeira obra de minha coleção foi um presente. Estava na Bahia em dezembro de 1953, quando ganhei de Pancetti o quadro Paisagem de Itapoá e uma foto do artista autografada. Sua generosidade despertou-me para o colecionismo. Embora eu nunca tenha tido uma orientação formal e única, no início de minha coleção costumava conversar com o colecionador Odorico Tavares. Um pouco mais tarde ouvia, por exemplo, a Carlos Scliar e a Aloysio de Paula que foi diretor do MAM e, coincidentemente, era médico do Pancetti. Acima, José Pancetti, Paisagem de Itapuã, 1953, óleo sobre tela, 28 x 53 cm, da coleção Gilberto Chateaubriand Conhecer os artistas e visitar ateliês é um dos grandes prazeres que o colecionismo vem me proporcionando. Fiz inúmeros amigos dessa maneira. Com a profissionalização do mercado, não existem mais compras diretas, salvo algumas (e pouquíssimas) exceções. O que é mais importante quando você decide comprar uma obra: é só o olho - bateu e gostou - ou há também uma preocupação histórica, no sentindo de dar uma abrangência à coleção? Mudou sua atitude em relação à coleção, ao método de aquisição, depois que ela ganhou escala museológica e foi em comodato para o MAM-rj? As duas coisas. Costumo apostar nos artistas cujas obras me interessam, independentemente de seu reconhecimento imediato. Com isso pude reunir um extenso panorama da produção artística brasileira do modernismo até hoje. lnicialmente, minha coleção concentrava-se na produção do eixo Rio - São Paulo e, em menor escala, em Minas Gerais e Pernambuco. À medida que a produção artística brasileira começou a se descentralizar e surgiram pólos por todo o país, seu escopo tornou-se verdadeiramente nacional. Atualmente tenho obras produzidas em todas as regiões do Brasil. Sua coleção chega a 7.000 obras. Que parte dela está incluída no comodato? Podemos presumir que a tendência ou a vocação deste comodato seja tornar-se doação ou é cedo para tais suposições? Como você vê o momento atual do MAM-rj? Como retomar a sua vitalidade cultural? Tenho obras na minha casa do Rio e na Fazenda, pois gosto de apreciá-las. A curadoria já requisitou algumas dessas obras que posteriormente retornaram. Mas a quase totalidade está sob a guarda do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro desde 1993. Inegavelmente o MAM vem se revitalizando nos últimos anos. No entanto, acho que alguns cultivam uma espécie de sebastianismo nostálgico de seu passado, de uma época em que o museu era a única instituição do Rio de Janeiro e uma das poucas do país voltada para a produção moderna e contemporânea, e por isso aparecia com mais destaque do que hoje em dia. Era também o único lugar que os artistas podiam freqüentar. Os padrões museológicos de trinta anos atrás eram muito menos rigorosos e a vinda de mostras internacionais era mais fácil e menos custosa. O Rio e o Brasil mudaram. O número de instituições culturais e galerias aumentou significativamente, fator que impede a hegemonia absoluta de qualquer uma delas. Considero essa concorrência saudável sob quaisquer aspectos. O MAM do Rio é hoje um dos poucos museus brasileiros que apresenta cerca de vinte exposições por ano e que mostra permanentemente suas coleções. Realiza também mostras nacionais e internacionais. Infelizmente, o público de nosso país ainda demonstra maior interesse por mostras temporárias e preferencialmente vindas do exterior. Além disso, o museu vem ampliando e atualizando seu acervo de modo consistente. Há dois anos acolheu cerca de 1.200 fotografias da coleção Joaquim Paiva, que estão atualmente sob a sua guarda. Qual o papel das coleções privadas em um país como o Brasil que não tem política pública de aquisição? Talvez a reformulação da Lei Rouanet devesse passar pela criação de um fundo público de aquisição de obras para museus. Neste caso, o importante seria menos se o museu é do estado, mas qual a relevância e a dimensão pública das coleções. Você não acha? As coleções privadas só existem culturalmente a partir de sua exibição pública. Essa idéia levou-me desde muito cedo a procurar exibir minha coleção tanto no Brasil quanto no exterior, e culminou com o comodato assinado com o MAM em 1993. Por outro lado, empresas públicas e até privadas têm demonstrado um interesse crescente pela preservação, conservação e atualização de acervos. Se ainda não é suficiente, já é um começo positivo. Por que a elite brasileira não gosta de museu brasileiro? Dizer apenas que são ruins é muito cômodo, como se eles pudessem ser bons sem um público qualificado e sem investimento (não só de dinheiro, mas também de afeto). Como mudar esta inércia histórica? É chique gostar de arte, ter uma coleção, mas estimular os museus e os projetos educativos dentro de museus, o que de fato transformaria nosso ambiente cultural, quase não acontece. Estou sendo pessimista? Como você vê isso? Há uma tendência histórica na cultura brasileira de valorizar o que vem de fora. Considero essencial a preocupação crescente que as instituições culturais brasileiras vêm demonstrando, em graus variados, com a formação de público e com a implantação de setores de educação. Só assim podemos esperar que hábitos entranhados há séculos possam vir a ser transformados. Para você o que parece mais importante no desenho de uma política pública que estimule essa parceria com investidores privados e colecionadores? Não acharia fundamental, por exemplo, o poder público incentivar a "exportação" da arte brasileira? Creio que isso já começa a ocorrer. O Itamaraty e o Ministério da Cultura têm demonstrado estar atentos para essa necessidade de exportação. Eventos como o Ano do Brasil na França, em 2005, e a Copa da Cultura na Alemanha, ano passado, são sintomas positivos. Há que mencionar também a comemoração dos 500 anos do descobrimento, as representações brasileiras nas bienais e o desempenho de algumas galerias do eixo Rio - São Paulo nesse sentido. Se consolidadas, essas práticas aumentarão o interesse internacional já observável pela arte brasileira. Falando mais diretamente da sua coleção: os movimentos concreto e neoconcreto, se não me falha a memória, não estão muito presentes; todavia, quando chega a geração dos anos 60 e 70 você passa a comprá-los no calor da hora, saindo do forno. Existe alguma preferência estética por trás disso ou foi apenas questão de oportunidade? Podemos dizer que em algum momento você decidiu trocar o foco da coleção do "Moderno" para o "Contemporâneo"? A razão é simples. Na segunda metade da década de cinqüenta eu vivia no exterior, como diplomata da UNESCO em Paris. Quando voltei ao Brasil nos anos 60, a arte concreta e neoconcreta havia dado lugar à nova figuração. Pude então comprar alguns dos primeiros desenhos de Antonio Dias, Gerchman, Vergara e Roberto Magalhães que estão até hoje em minha coleção. Hoje tenho comprado prioritariamente a produção contemporânea emergente (como sempre fiz, aliás). Isso não impede que adquira, quando possível, obras de artistas do passado como fiz recentemente ao adquirir um retrato de Vicente do Rego Monteiro da década de 20. Você faz algum recorte dentro da sua coleção pensando em termos de suporte, de movimento ou mesmo do desenvolvimento da obra de um artista? Em 2005 vimos no MAM-rj quase que uma retrospectiva da obra do Luiz Alphonsus, do final dos anos 60 até hoje, toda ela de obras da sua coleção. Esta não me parece a regra, ou estou errado? Por exemplo, você tem muitos trabalhos antigos de Vergara, Antonio Dias, Cildo, Tunga, mas não seguiu comprando suas obras. Tudo bem, os preços subiram exponencialmente, mas você já pensou em vender alguma peça para atualizar sua coleção adquirindo trabalhos mais recentes destes artistas? Não é a regra, mas quando possível procuro ter um perfil completo da obra de um artista. Scliar, Glauco Rodrigues, Barrio, Luiz Alphonsus, Arlindo Daibert do Amaral, Waltercio Caldas, Alair Gomes, Luiz Fonseca e José Damasceno, entre outros, podem ser citados como exemplos dessa atitude. É natural que uma coleção iniciada há tanto tempo tenha muitas obras que envelheceram mal, de artistas que "desapareceram" do circuito. Você costuma vender obras da coleção? Dificilmente isso acontece. Até porque muitos artistas que desapareceram por conta dos critérios de avaliação dominantes de um período reapareceram valorizados posteriormente. Você gosta de ler história da arte, tem algum autor preferido? O que você acha do papel mais intervencionista do curador que se percebe nas grandes exposições e bienais contemporâneas? Sim. Evidentemente não tenho um perfil acadêmico, mas gosto de Herbert Read, Germain Bazin, Argan e Gombrich entre muitos outros. Minha biblioteca é grande e se espalha por toda a minha casa. Quanto à tendência intervencionista de alguns curadores, acho que embora não possa ser generalizada é real. Quando ela chega a ofuscar as questões específicas de uma obra em nome do conceito da mostra, considero uma distorção. Como você vê o crescimento das feiras de arte hoje em dia? Vejo com alegria, já que manifesta a vitalidade da produção e do mercado, mas também com alguma preocupação. Acho que eventos eminentemente mercadológicos não podem substituir o teor cultural das mostras de arte como bienais e similares. Como começar uma coleção com um mercado tão inflacionado? Que dicas você daria ao jovem que queira começar uma coleção? Que tenha faro e uma boa conta bancária. Luiz Camillo Osório é crítico de arte, professor de Estética e História da Arte da unirio, no Rio de Janeiro e autor de Flávio de Carvalho (Cosac Naify) e Razões da Crítica (Jorge Zahar). |