Login
22/08/2007 - Curadores comentam a inserção da fotografia na arte contemporânea
Veículo: Circuito de Fotografia / Veiculação: Impresso

Curadores comentam a inserção da fotografia na arte contemporânea

Moacir dos Anjos

LEGITIMAÇÃO Chegamos a um momento em que creio finalmente haver, tanto da parte dos artistas como das instituições e do mercado brasileiros, a compreensão de que a fotografia é um meio de expressão tão legítimo quanto a pintura, a escultura, o desenho ou a instalação.

Paradoxalmente, contudo, hoje a preocupação com aspectos técnicos da fotografia é menos importante (ou paralisante) do que a possibilidade de utilizá-la como parte de um repertório amplo de expressão. A respeitabilidade do meio, assim, se fez acompanhar de sua dessacralização.

QUEBRA DE CONSENSO De um lado, estão as questões técnicas que permitem sua existência e são fundamentais para a realização do trabalho fotográfico mas que quase não aparecem como relevantes para o observador. De outro, as abordagens em que a imagem fotografada é capaz de quebrar qualquer consenso que exista sobre o seu referente.

SOTAQUE LOCAL Assim como em toda a produção contemporânea em artes visuais brasileira, creio que existe, na fotografia um certo sotaque local, o qual condensa e exprime formas particulares de articulação entre uma tradição nacional em fotografia - construída retrospectivamente a partir da década de 1990 - e tradições fotográficas formadas em outras partes, que passam a circular mundialmente nessa mesma época. Tal sotaque expressa, seja em termos formais, seja em termos narrativos, uma condição de vida que é própria do país, em que tempos sociais distintos convivem e em que contradições e desigualdades são norma, não desvio.

Moacir dos Anjos foi diretor geral do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães - mamam, Recife. Realizou diversas curadorias, entre elas a Paralela de 2004.

Daniela Bousso

"Vejo a fotografia brasileira contemporânea bastante revitalizada e dialogando em igualdade com as principais produções mundo afora. Um aspecto a salientar é o desdobramento das especificidades da linguagem, que com as novas tecnologias criou inventivas possibilidades técnicas de abordagem. Vejo a fotografia revigorada e se reinventando a partir do surgimento das câmeras digitais e das questões conceituais que ela acarreta.

Despontou na última década, por exemplo, uma série de artistas que utilizam a fotografia para criar obras híbridas, como é o caso de Paulo Meira, Caetano Dias e Paulo D´Alessandro.

Procuro em minhas curadorias trabalhos que consigam gerar uma tensão entre o meio de expressão e a sua comunicação com o público. Um artista deve estar atento com a recepção da obra, tanto quanto com sua poética. Rafael Assef, Mauro Restiffe e Caio Reisewitz são alguns artistas que, a meu ver, conseguem resolver esse cruzamento com força expressiva. Creio que o crescente interesse pela fotografia deve-se ao fato de ela ser uma linguagem que está respondendo de forma intensa e criativa ao nosso tempo."

Daniela Bousso é curadora do Paço das Artes, em São Paulo. Em 2006 foi curadora da mostra Paralela e do Prêmio Sério Motta de Arte e Tecnologia.

Felipe Chaimovich

Como você vê o momento atual da fotografia contemporânea brasileira? Quais são as abordagens que você tem visto que mais lhe interessam?

A fotografia brasileira contemporânea firmou-se nos anos 90 e hoje está plenamente estabelecida nas exposições, ganhando mercado pouco a pouco. Interessam-me fotos experimentais, que questionam parâmetros de visualidade.

Dá para falar de alguma especificidade/ originalidade da fotografia brasileira em relação a produções de outros locais?

A fotografia brasileira tem especificidade como parte de obras que envolvem outras técnicas, tornando a foto um componente de objetos mistos. A fotografia está cada vez mais à mão, estimulando gestos artísticos, mesmo em criadores que não venham a se tornar artistas profissionais. O olhar para o experimental deve estimular o aumento da criatividade dos fotógrafos amadores.

Em suas curadorias a fotografia tem ocupado mais espaço ultimamente?
Desde a minha primeira curadoria, "Ouro de Artista", em 1996, convidei fotógrafos para participarem, em meio a obras em técnicas diversas.

Felipe Chaimovich é curador do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Realizou diversas curadorias nos últimos anos, entre elas a do "Panoramas da Arte Brasileira 2005".