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10/10/2007 - O tecido de conversações da arte
Veículo: O Estado de S. Paulo / Veiculação: Impresso
link do veículo: http://www.estadao.com.br/

O tecido de conversações da arte

Entrevista com Carlos Basualdo

por Juliana Monachesi

O crítico e curador Carlos Basualdo, que atualmente dirige o Museu de Arte da Filadélfia, acompanha a arte brasileira há muitos anos. Cildo Meireles e Artur Barrio participaram da última Documenta de Kassel, da qual Basualdo foi co-curador; ele é autor de um livro sobre Edgard de Souza (Cosac Naify) e curador da badalada exposição Tropicália, atualmente em cartaz no Barbican Center, em Londres. Na entrevista a seguir, Basualdo fala sobre a inserção da arte brasileira no exterior e sobre a revisão historiográfica que paulatinamente vem contemplando as inovações e particularidades da produção cultural no Brasil.

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Nos anos 1990, o mundo passou a se interessar pela arte de fora do eixo-saxão, o que está relacionado com os discursos pós-moderno e multiculturalista. O Sr. foi uma figura central na difusão da arte brasileira nos Estados Unidos e na Europa desde então. Qual é o interesse que a arte brasileira desperta no exterior?

CB O meu trabalho até o momento esteve direcionado não à arte brasileira como um todo, mas a alguns artistas brasileiros que, por um lado, são importantes para o Brasil, mas sua importância não tem a ver com questões de nacionalidade, e sim com transformações e modernidade no período do pós-guerra. Nomes como Hélio Oiticica, Lygia Clark, mas também como Barrio, Tunga, Cildo Meireles e os mais jovens, como Fernanda Gomes e Ernesto Neto - ainda que por momentos a nacionalidade entre como parte dessa conversação, como um dos temas de sua obra -, são importantes porque dão uma valiosa contribuição para compreender o pensamento da modernidade. Este é o tema central destes artistas, e por isso eu tenho interesse em seus trabalhos.

Mas porque esses artistas passaram a ter uma inserção tão maior no circuito internacional: é mérito do trabalho deles ou seria apenas uma decorrência do multiculturalismo, de uma abertura por parte da Europa e dos EUA para o resto do mundo?

CB Eu acho que a importância do trabalho prevalece, ela é o elemento fundamental, se o trabalho não fosse tão importante, não teria tido o impacto que teve e tem, mas certamente a abertura ajudou muito. No plano cultural, a abertura decorrente dos discursos pós-moderno e multiculturalista - que foram tão determinantes aqui nos Estados Unidos nos anos 1980 e que, através dos EUA, atingiram a Europa - foi muito importante.

Que repercussão estes artistas e projetos como o da mostra Tropicália obtêm no exterior? Em outras palavras, a arte brasileira é vista como uma produção local ou global? É vista do ponto de vista do exotismo ou do alcance universal de suas questões?

CB Até agora a questão do exótico foi um pouco o filtro através do qual os Estados Unidos e a Europa, sobretudo a Europa, olharam a arte brasileira. Era um filtro muito perigoso porque permitia a eles dar atenção a estas produções, mas como uma coisa exterior às problemáticas centrais da modernidade, como foi desenvolvida nos EUA e na Europa. A passagem de um mundo mais fechado, que se fechou depois dos anos 1960, a um mundo mais aberto aconteceu com certas condições. Eu acredito que os termos agora estão se modificando.

A arte brasileira é vista como uma produção global e ao mesmo tempo percebe-se uma certa relação local entre os artistas, o que é muito claro também. O mais interessante é o diálogo em torno de uma interpretação da modernidade, que no Brasil tem condições de ser pensada de uma maneira muito particular. Acredito que agora estamos presenciando uma passagem para uma situação na qual artistas como Oiticica, para serem globais, não têm de deixar de ser brasileiros, mas o fato de serem brasileiros também não inibe a possibilidade de serem pensados como artistas internacionais.

Este fenômeno pode ser percebido com a exposição Tropicália, que está agora em Londres. Ela está sendo recebida como uma mostra de arte e cultura brasileiras, no sentido de que o movimento aconteceu no Brasil, mas que tem repercussões e ressonâncias bem além do Brasil. Esta recepção crítica é muito encorajadora porque o que tinha acontecido até agora eram leituras mais exóticas.


Recentemente o museu SMAK, na Bélgica, realizou uma mostra intitulada Barrio- Beuys, sugerindo aproximações conceituais e processuais entre os dois artistas. O sr. acredita que iniciativas como esta promovem uma releitura ou mesmo uma reescritura da história da arte como a conhecemos?

CB O mundo da cultura nunca deu bola para as fronteiras, para as idéias de nacionalidade, sempre foi muito mais poroso, mais complexo e eu acho que parte desta complexidade agora está ficando mais clara, e mostras como Barrio - Beuys trabalham nessa direção. É isto que vai começar a acontecer, é uma tendência geral: hoje existem muitas teses de doutorado nos Estados Unidos sendo feitas sobre estas aproximações e tem muitas outras mostras trabalhando nesta direção, o que é um sintoma de uma segunda fase do processo de internacionalização que se iniciou nos anos 1990.

Eu acho que se você isola ou individualiza os diálogos intercontinentais, perde-se uma parte muito importante da história da modernidade. O que eu procuro fazer aqui no Museu da Filadélfia, é continuar o trabalho que eu vinha fazendo como curador independente, no sentido de incorporar estes diálogos, de enriquecer o tecido de conversações que forma a história da arte. Acha que um trabalho como o do Cildo fica muito mais rico se a gente o exibe ao lado do Duchamp do que se a gente expõe perto do Botero.

Que artistas jovens lhe interessam na cena artística brasileira, o sr. pesquisa a produção emergente do país?

CB A Tropicália foi uma boa oportunidade para entrar em contato com outros artistas brasileiros, inclusive com algumas pessoas de uma geração mais jovem, como o Rodrigo Araújo, do grupo Bijari, que é um dos participantes da mostra. Tivemos, por exemplo, um trabalho do Marepe, obra de dois artistas de Porto Alegre: Lucas Leviatan e Jailton Moreira.

Eu diria que, das gerações mais recentes, o que no momento tem me interessado mais é a quantidade de artistas jovens no mundo todo trabalhando com questões que em certo sentido vão além do mundo de artes visuais, ou seja, trabalhando num sentido interdisciplinar e também com uma consciência social muito maior. No Brasil há artistas pensando nessa direção e músicos também.

O acervo do Museu de Arte Moderna da Filadélfia possui obras de arte brasileira?

CB Graças a Deus o museu não tem nenhum departamento de arte latino-americana, eu detesto estes departamentos, considero algo muito perigoso. Acho que é importante para a gente incorporar artistas da América do Sul, da América Central, mas sem o rótulo de arte latino-americana. É um rótulo falso, porque nos últimos 30, 40 anos não houve um diálogo continental. Tem algumas tendências... Tem uma relação história entre a arte construtivista argentina e a construtivista brasileira ou venezuelana, tem alguma relação entre a nova figuração argentina e alguns artistas pop figurativos do Brasil, mas são relações que não são mais fortes que a relação que os artistas argentinos têm com o grupo Cobra, por exemplo. Mas, para responder à pergunta, o Museu da Filadélfia não tem ainda trabalhos de brasileiros, mas está em curso a aquisição de uma peça do Barrio. Vai ser a primeira obra de um artista brasileiro na coleção.